Contra crimes, Fortaleza testa torres de vigilância nos bairros mais violentos

Bruno Ribeiro

Em Fortaleza

  • Jarbas Oliveira/Estadão Conteúdo

    Uma delas torres fica na avenida Castelo de Castro, no bairro Jangurussu, a menos de um quilômetro do Castelão

    Uma delas torres fica na avenida Castelo de Castro, no bairro Jangurussu, a menos de um quilômetro do Castelão

Com 140 assassinatos confirmados apenas entre os dias 1º e 28 deste mês - 14 em uma única chacina -, a prefeitura de Fortaleza se prepara para instalar torres de vigilância nos bairros mais violentos da capital cearense. Operadas em parceria entre a gestão municipal e a Polícia Militar, são estruturas de concreto e vidro que se erguem na altura do telhado das casas e concentrarão imagens de segurança da cidade, para tentar melhorar o policiamento e frear a onda de homicídios.

Duas das torres estão com obras civis em fase final. Uma delas fica na avenida Castelo de Castro, no bairro Jangurussu, a menos de um quilômetro do Castelão, o estádio de Fortaleza usado na Copa do Mundo. Ali, a estrutura é vista com um misto de desconfiança e até de gozação por parte da população.

"Eles colocaram essa base (da polícia) na avenida! Deveriam ter colocado no meio do bairro, onda as vezes sai tiro. Aqui, não precisa", diz uma comerciante de 37 anos, que trabalha na avenida, perto do conjunto. "Olha, alguma coisa eles têm de fazer, porque a coisa aqui está feia. Mas não sei se isso ajuda, não", comenta outro comerciante, de 56 anos, um ambulante que também mora e trabalha no entorno.

A estudante Evelliny Branco, de 18 anos, diz que roubaram sua primeira moto no bairro, mas só fez registro do roubo no dia seguinte. "Os meninos estavam armados. Na hora, dei um grito e falei 'Moço, ainda estou pagando'. Se tivesse chegado a polícia na hora, acho até que ia ser pior. Ia ter tiroteio", diz a jovem. "Mas se a bandidagem sabe que está cheio de polícia, eles não roubam, não é?" Ela diz não ter opinião formada sobre a nova torre do bairro. "Tem tido muita polícia ali, e isso é bom", afirma.

O nome oficial de cada torre é Célula de Proteção Cidadã. Ela é uma das ações de um Plano Municipal de Proteção Urbana tocado pela prefeitura (o vice-prefeito da cidade, Moroni Torgan, é um delegado da Policia Federal filiado ao DEM, que já ocupou cargo de deputado federal). Em março, ele apresentou o plano a vereadores, prometendo 15 torres. É um projeto já atrasado. A promessa era inaugurar a primeira torre em janeiro. Agora, a primeira inauguração está marcada para a segunda quinzena de fevereiro e, até abril, serão cinco estruturas como essa.

O acesso à unidade de Jangurussu foi franqueado por PMs que já usam o lugar como base. Não é possível ver mais do que uma quadra de distância do local. "Eles vão instalar as câmaras e a gente vai monitorar daqui. Vão instalar as TVs na semana que vem", diz um dos PMs. "Não é para vigiar pela janela", brinca o PM. O receio dos policiais, entretanto, é que criminosos comecem a danificar as câmeras, que ficarão em pontos mais violentos.

Segundo informações da prefeitura, Torgan prometeu que cada torre terá 60 agentes, sendo 40 guardas civis municipais e 20 policiais militares. A segunda estrutura mais acelerada fica na Rua dos Holandeses, na Barra do Ceará.

Silêncio

Dúvidas básicas da proposta, entretanto, ainda ficaram sem resposta. A reportagem pediu entrevista com um porta-voz da Secretaria Municipal de Segurança Cidadã, mas ninguém explicou o projeto. No material de divulgação da prefeitura, disponível na internet, não há informações sobre os custos do projeto, sobre os estudos que indicaram a eventual eficácia das torres no patrulhamento nem o número de câmeras de vigilância que seriam integrados às estruturas.

Também não foram fornecidas explicações sobre a escolha dos bairros que receberão o programa. Cajazeiras, cenário da chacina do último fim de semana e área tida pela população como reduto da facção Comando Vermelho (CV) na cidade, por exemplo, não aparece no material de divulgação. O crime teria sido cometido por integrantes da rival Guardiões do Estado. A polícia investiga o caso. Cinco suspeitos foram presos. As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".

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