De buraco em buraco, por conta própria

Felipe Resk

São Paulo

O aposentado Antônio Pereira, de 86 anos, perdeu a paciência. Um dia desses, embicou o carro para sair da garagem de casa, que fica na Rua Manuel Pinheiro, na região de Pirituba, zona norte de São Paulo, quando outro veículo, que vinha nem devagar e nem rápido demais, não conseguiu desviar de um buraco. Fez voar uma pedra, solta do asfalto, direto no seu paralama. "Foi a gota d'água", contou.

Sem ver resultado das solicitações que fez ao serviço de tapa-buraco da Prefeitura, Pereira resolveu, ele mesmo, comprar quatro sacos de cimento e outros oito de areia - um investimento de pouco mais de R$ 130, segundo calcula, bem menos do que a média dos serviços de funilaria em São Paulo. Sozinho, o aposentado passou a tentar tapar os furos que tomaram a pavimentação na frente de casa.

Para o aposentado, havia uma razão para assumir o serviço que cabe ao Município. "Se eu não fizer, fica do jeito que está", justificou ele, segurando uma pá de pedreiro, com a qual manipulava a argamassa que ia preencher os vazios do asfalto.

Destro, o aposentado tinha de usar a mão esquerda para a apoiar o movimento feito com a direita. Ainda doía uma fratura recente no pulso, mal curado e protegido por uma faixa ortopédica - o que não era motivo para desistir da empreitada. "Chega uma certa idade que você não tem mais aquela força de antes, mas tem a vontade."

Três buracos formavam uma espécie de triângulo torto, bem na frente ao portão de Pereira. Em não mais do que 100 metros de distância, outras quatro fissuras desafiavam todos os motoristas que passavam por ali a sair fazendo ziguezague. "Eles começam pequenininhos e depois vão aumentando", disse Pereira. "Não é só o perigo de o carro se envolver em acidente. As pedras estão soltas: imagina se acerta a canela de alguém."

Ex-motorista de caminhão e carreta, Pereira queria aplicar a experiência na construção civil para fazer o reparo "informal" na rua. Ao lado de um servente, ele próprio trabalhou de pedreiro na construção da casa onde mora com a mulher, um filho e um neto há 12 anos. Na época, segundo contou, ainda não havia o tráfego intenso que movimenta a Rua Manuel Pinheiro às manhãs, com veículos que passam em direção à Rodovia Anhanguera. "Quando aumentou o fluxo, o asfalto começou a desgastar mais."

Pereira começou o "recapeamento" na última quarta-feira, e o trabalho prometia se estender por alguns dias. Parte porque havia muitos buracos. Parte porque, às 18 horas, o idoso já estava cansado o suficiente para seguir trabalhando.

Para cada buraco, o aposentado fazia, primeiro, uma varrição para tirar a sujeira acumulada e depois lavava com mangueira. Na sequência, alternava uma camada de argamassa com outra de pedra, até que nivelasse com a rua. No fim, fincava uma placa branca: era o aviso que havia cimento fresco na pista. "Sei que corro risco de a Prefeitura passar aqui e me multar", afirmou. "Mas eu acho que está tudo errado."

Segundo Pereira, a família fez a primeira reclamação na Prefeitura, que dá prazo de 45 dias para o tapa-buraco, em agosto de 2017. Passados três meses sem que o problema fosse resolvido, repetiram a dose em novembro.

Em 10 de abril deste ano, os familiares receberam a resposta da gestão Bruno Covas (PSDB), afirmando que a Prefeitura havia executado o serviço. Na rua, porém, os buracos continuavam onde sempre estiveram, segundo o aposentado. "É um absurdo dizer que o serviço foi finalizado e, na verdade, nada ter sido feito", reclamou Lillian Rossi, de 66 anos, mulher de Pereira.

Sem data. Em nota, a gestão Covas afirmou que a Prefeitura Regional Pirituba/Jaraguá vai fazer uma nova vistoria na Rua Manuel Pinheiro, mas, por causa da greve dos caminhoneiros, não poderia estipular uma data. "Se constatada a irregularidade, o serviço será realizado logo após o encerramento da greve", afirmou o comunicado.

Em novembro de 2017, a Prefeitura lançou o programa Asfalto Novo, voltado para a recuperação das vias de São Paulo. Na primeira fase, o programa recapeou 147 quilômetros, em 76 trechos da capital, segundo a nota. Na segunda fase, marcada para começar neste mês, estão previstas obras em 54 trechos, ou 76,3 quilômetros, de acordo com a Prefeitura. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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