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Sub-PGR pede inquérito contra Sérgio Camargo por fala sobre 'escória maldita'

Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, posa ao lado de foto do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) - Reprodução/Facebook
Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, posa ao lado de foto do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) Imagem: Reprodução/Facebook

Rodrigo Sampaio, especial para O Estado

São Paulo

05/06/2020 19h12Atualizada em 05/06/2020 19h42

O subprocurador-geral da República Wilson Rocha de Almeida Neto entrou hoje com uma representação junto ao Ministério Público Federal (MPF) pedindo a abertura de inquérito contra o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo.

O motivo da ação são os supostos crimes de racismo cometidos pelo atual chefe do órgão, que chamou o movimento negro de 'escória maldita', além da ameaça da adoção de medidas contra servidores com ideologias de esquerda. As falas de Camargo foram ditas a portas fechadas durante reunião na sede da fundação. Os áudios foram revelados pelo Estadão.

"A primeira parte do discurso revela possível desvio de poder, tendo em vista transparecer a intenção de prejuízo administrativo a servidores da entidade, apenas em razão de divergências ideológicas pessoais. De fato, a conduta de ameaçar servidores 'esquerdistas' de exoneração ou 'demissão' [...] em decorrência da visão ideológica pessoal de cada um, em tese, não se coaduna com os princípios constitucionais da impessoalidade e moralidade administrativas (CF, art. 37, caput), além de violar outros valores", diz o documento.

No áudio da reunião, Camargo diz com veemência, e abusando de palavrões, que tiraria o cargo de qualquer funcionário com ideologias de esquerda. "Se tiver um esquerdista aqui, vocês me digam onde está esse filho da p*** que eu quero exonerar ou demitir ou mandar para outro órgão, se for efetivo".

"O segundo trecho do discurso, ainda em tese, também pode ser considerado afrontoso à ordem jurídica. Em primeiro lugar, porque as palavras depreciativas destinadas ao "movimento negro", genericamente referido, mostram-se incompatíveis com as finalidades institucionais para as quais se destina a entidade presidida pelo Sr. Sérgio Camargo", ressaltou o subprocurador na representação.

Organizações de direitos civis e representantes de religiões de matriz africana já haviam enviado uma representação ao MPF cobrando a instauração de inquérito contra Sérgio Camargo pelas ofensas ditas contra o movimento negro, além de pedir seu afastamento do cargo.

Ainda de acordo com as organizações, Camargo vem "desafiando os limites da ordem jurídica e o real compromisso da sociedade brasileira em acertar contas com o seu passado escravocrata", além de demonstrar "incompatibilidade" com o cargo que ocupa. A permanência do jornalista na função também seria uma maneira de impedir o financiamento e implementação de políticas contra o racismo.

No Congresso, um grupo de parlamentares apresentou representação ao Ministério Público Federal contra Camargo, acusando o presidente da Palmares de desvirtuar os objetivos legais da fundação, configurando crime de desvio de finalidade, abuso de poder e improbidade administrativa.

Entre os deputados que assinam o documento, estão Áurea Carolina (PSOL-MG), Benedita da Silva (PT-RJ), Talíria Petrone (PSOL-RJ), Bira do Pindaré (PSB-MA), Damião Feliciano (PDT-PB), David Miranda (PSOL-RJ) e Orlando Silva (PCdoB-SP).