Topo

Assim como Malala, jovem luta no Paquistão contra 'crimes de honra'

Gary Hershorn/Reuters
Daniel Junge (à esquerda) e a documentarista Sharmeen Obaid-Chinoy (foto de arquivo) Imagem: Gary Hershorn/Reuters

Em Roma (Itália)

07/03/2016 11h40

Um "crime de honra" contra a jovem Saba Qaiser, 18, pode alterar a legislação do Paquistão para este tipo de "delito". Isso porque a história contada pela menina e transformada em documentário vencedor de Oscar sensibilizou o governo para o problema no país.

A história de Qaiser só não teve um final trágico por um "milagre". A menina morava na província de Punjab e fugiu com o namorado para se casar em segredo, já que a família não aprovava sua escolha. Porém, convencida por parentes a retornar para casa e se reconciliar com a família, Qaiser passou por uma terrível experiência: foi espancada pelo pai e pelo tio e depois levada à beira de um rio. Lá, recebeu um tiro na face, e como achavam que ela estava morta, jogaram o corpo dela na água.

Sendo sobrevivente do crime, Qaiser decidiu denunciar o delito para punir os culpados. "Quero que nenhum outro pai faça isso a uma mulher e a sua família", conta a jovem no documentário.

Mas, como muitas outras mulheres que sofrem esse tipo de agressão, com o tempo, ela cedeu à pressão familiar e da sociedade. A paquistanesa aceitou perdoar os agressores perante ao tribunal, evitando que o pai e o tio fossem condenados pelo crime.

"Eu os perdoo pelo mundo. Os perdoo por causa da pressão da família e da sociedade. Mas, no meu coração, jamais serão perdoados", contou a jovem.

A vida de Qaiser chamou a atenção da ativista e diretora paquistanesa Sharmeen Obaid-Chinoy, que transformou a história no documentário "A Girl in The River: The Price of Forgiveness" ("Uma menina no rio: o preço do perdão", em tradução livre).   

Tal qual a jovem Malala Yousafzai, que venceu o Nobel da Paz em 2014 por lutar pelo direito das meninas paquistanesas de estudar, a situação vivida por Qaiser sensibilizou o governo local, que estuda mudar a legislação para os chamados "crimes de honra".   

"Isso é o que acontece quando as mulheres lutam juntas. Na última semana, o nosso primeiro-ministro, Nawaz Sharif, disse que mudará a lei sobre o crime de honra após ter visto o filme. Este é o poder do cinema", disse a diretora ao receber a estatueta.

O porta-voz do premiê confirmou a informação e disse que o governo está trabalhando em uma lei "contra estes atos brutais e não humanos feitos em nome da honra". "Mulheres como Sharmeen Obaid-Chinoy não são apenas um orgulho para a nação paquistanesa, mas também uma significativa fonte de contribuição à marcha de civilização para o mundo", disse o representante.   

Em entrevista, Obaid-Chinoy destacou que teve um encontro com o primeiro-ministro antes da premiação para falar sobre o tema e que ele "disse que não há lugar para crimes de honra no islã, e devemos deixar isso claro a todos".   

"Se a lei passar, o delito se tornará um crime contra o Estado. Muitas coisas podem estar ruins, mas se três ou quatro pessoas forem presas, a quinta pensará duas vezes antes de matar alguém de sua família", ressaltou a diretora.

Segundo dados do próprio governo, cerca de mil mulheres são mortas todos os anos no Paquistão por "crimes de honra".