Argentina para em greve por violência contra mulheres

BUENOS AIRES, 20 OUT (ANSA) - Dezenas de milhares de argentinas promoveram uma manifestação e uma greve inédita na história do país para protestar contra a onda de feminicídios que atinge a Argentina.   

Nesta quarta-feira (19), elas se reuniram em 138 cidades e pararam de trabalhar por uma hora para alertar sobre as mortes, os estupros e o machismo que existe na sociedade local. O movimento "Ni una a menos" ("Nem uma a menos") foi convocado por quase 50 organizações e mobilizou a nação.   

Mesmo com a forte chuva que ocorria na capital Buenos Aires, onde ocorreu a maior manifestação, as mulheres foram às ruas com cartazes, vestidas de preto para provocar reflexão na sociedade.   

"Se a minha vida não vale, que produzam sem mim", dizia um dos cartazes durante a greve.   

Segundo dados oficiais, um feminicídio ocorre a cada 30 horas na Argentina. Porém, no mês de outubro, o índice está ainda mais alto, com 19 mortes em 17 dias.   

"Um número que nos faz repensar tudo isso. Essa é uma cultura que segue sendo machista", disse em um vídeo a vice-presidente da Corte Suprema, Elena Higton de Nolasco. A magistrada ainda pediu para seus pares que "pensem na perspectiva de gênero" ao analisarem os processos.   

A iniciativa foi uma resposta ao brutal assassinato e estupro da adolescente Lucía Pérez, 16 anos, ocorrido no dia 9 de outubro na cidade de Mar del Plata. A menina foi drogada e estuprada e, para disfarçar o crime, os dois homens que cometeram a brutalidade, de 41 e 23 anos, a deixaram no hospital dizendo que ela estava sofrendo uma overdose de cocaína.   

Ao atenderem Pérez, os médicos verificaram que, além da violência sexual, os dois agressores usaram objetos no corpo da jovem, que morreu em decorrência de hemorragias. Os dois foram presos e agora podem pegar prisão perpétua pelo crime.   

"Sei que não é muito profissional dizer isso, mas eu sou uma mãe e uma mulher, e eu vi milhares de coisas na minha carreira, mas nada igual a esse conjunto de atos abomináveis", disse a promotora Maria Isabel Sanchez, responsável pelo caso.   

A manifestação contou com o apoio de vários artistas argentinos e também teve grande repercussão nas mídias sociais do país. O presidente Mauricio Macri postou uma imagem ao lado de um grupo de professoras e reafirmou seu compromisso de "prevenir e erradicar" a violência de gênero.   

Em 2015, a Argentina registrou 285 feminicídios, em mais um registro da tendência de alta desse tipo de crime no país. Os números que aumentam ano após ano mostram que os criminosos não se preocupam com o endurecimento da lei, que agora prevê prisão perpétua para esse tipo de crime. (ANSA)
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