PUBLICIDADE
Topo

Internacional

O papa Francisco é o modernizador que muitos previam?

05/10/2014 09h04

Às vésperas do encontro de líderes da Igreja Católica do mundo todo no Vaticano para discutir o futuro da doutrina sobre a família, o diretor de jornalismo da BBC, James Harding, questiona se o papa Francisco é o modernizador no qual os progressistas depositam esperanças ou um pontífice ortodoxo com um toque pessoal.

Pouco mais de um ano atrás, o telefone tocou nos escritórios do La Repubblica – o principal jornal de centro-esquerda da Itália. Stella Somma, secretária do editor, atendeu à chamada.

O homem do outro lado da linha disse que gostaria de falar com Eugenio Scalfari, fundador e ex-editor do jornal, um ateu de 90 anos de idade, e herói da esquerda secular.

"Quem é?" questionou Stella. "Papa Francisco", respondeu o homem.

"Ah, o Papa", Stella respondeu - e transferiu o telefonema para Scalfari. "Dr. Scalfari, é o papa.”


De casa, Scalfari rebateu: "Você está louca, isso deve ser algum tipo de piada."

"Não, não é uma piada, eu não posso deixar o papa esperando, então me deixe transferi-lo para o senhor"

Scalfari lembra-se de uma voz falando, "'Bom dia, aqui é o papa Francisco... você pediu uma reunião comigo, e eu quero encontrá-lo. Vamos combinar uma data'. E, com o telefone ainda no ouvido, ele me disse: 'Quarta-feira eu não posso. O que você me diz de segunda-feira? É bom para você? E eu disse a ele: 'Qualquer dia é bom para mim. Segunda-feira é um bom dia'".

Eugenio Scalfari não é a única pessoa que recebeu um telefonema inesperado do papa Francisco, cuja imprevisibilidade já se tornou uma das marcas de seu papado.

E o diálogo improvável sobre fé e consciência, pedofilia e celibato, corrupção e a Igreja produziu uma visão intrigante sobre o caráter de um homem que transformou as expectativas sobre a Igreja Católica.

Depois de mais telefonemas e uma série de reuniões privadas com Francis, Scalfari concluiu: "Ele é um papa revolucionário."

Em pouco mais de um ano, o argentino levantou o ânimo do Vaticano e deu novas esperanças sobre os rumos da Igreja Católica.


Mas Francisco é o modernizador radical que os progressistas sempre esperaram, ou é um padre ortodoxo com um sorriso pronto e um talento especial para propagandear sua imprevisibilidade?

Deste domingo em diante, o mundo vai começar a obter algumas respostas. Cardeais, bispos, sacerdotes e fiéis católicos de todo o mundo vão se reunir no Vaticano para discutir como o ensinamento da Igreja sobre a família se relaciona com a realidade da vida moderna.

O "Sínodo extraordinário" - o terceiro de seu tipo na história moderna da Igreja Católica - é parte de um processo de reflexão que vai durar mais de um ano. É provável que o encontro revele não só a natureza mas, provavelmente, os limites da mudança anunciadas pelo papa Francisco.

Quando visitei Scalfari, ele me contou sua conversa com o papa. "Eu disse a ele que todos os papas reformaram a Igreja, para o bem ou para o mal, mas você não é a reformando esta Igreja, você não é um reformista. Você é um revolucionário".

Segundo Scalfari, o pontífice disse que ele não está revolucionando a Igreja e que sua tarefa é apenas implementar as conclusões do Concílio Vaticano 2º.

O Concílio Vaticano 2º - comumente conhecido como Vaticano 2º - foi, pelo menos em teoria, um terremoto na história moderna da Igreja Católica. O concílio durou de 1962 a 1965.

Vaticano 2º

Convocado pelo papa João 23, o Concílio Vaticano 2º estava preocupado com a renovação do catolicismo no mundo moderno.


Quase 3 mil bispos católicos do mundo se reuniram na Basílica de São Pedro quatro vezes durante o outono a partir 11 de outubro entre 1962 e 1965.

As mudanças incluíram a celebração da missa em língua vernácula (embora o latim continue a ser a língua litúrgica do catolicismo) e o posicionamento do padre, que passou a rezar a missa de frente para a congregação ("versus populum").

O objetivo do Concílio era discutir formas para que a Igreja enfrentasse o mundo moderno - não reescrevendo sua doutrina, mas realizando uma mudança fundamental na relação da Igreja com outras religiões, na condução da missa, no papel da laicidade no funcionamento da Igreja e muito mais.

Não muito tempo depois que o destino havia sido definido, a Igreja estagnou. O cardeal Cormac Murphy O'Connor, chefe da Igreja Católica na Inglaterra e no País de Gales de 2000 a 2009, diz que o Papa João Paulo 2º “apertou o botão pausa” no Vaticano II, enquanto que sob o Papa Francis "temos um novo empurrão...o botão está sendo pressionado novamente".

O Sínodo que começa neste domingo o que o cardeal Murphy O'Connor descreve como algumas "questões nevrálgicas" – desde a contracepção ao homossexualismo. E, o assunto que vem gerando mais debate – e sob o qual repousa a maior expectativa de mudança - é saber se os católicos que se divorciam e se casam novamente no civil vão ser autorizados a receber a comunhão.

Segundo a doutrina da Igreja, isso hoje só é possível se o primeiro casamento for oficialmente anulado pela Igreja – o divórcio civil não conta. Mas obter uma anulação pode ser um processo demorado e caro.

O dilema gerou um embate público pouco comum depois que cardeais conservadores se uniram para defender que os ensinamentos da Igreja não sejam mudados.

John Allen, correspondente do jornal americano The Boston Globe no Vaticano há muito tempo, espera que o resultado não seja uma nova doutrina, mas uma nova prática. "O papa Francisco não é um radical doutrinário. Ele não é um Che Guevara de batina", alega. Allen prevê que a anulação do casamento será mais rápida, mais simples e menos cara.

Parece haver consenso entre os observadores do Vaticano que uma radical mudança doutrinária não está em pauta. Em vez disso, o papa Francisco mudou a ênfase do discurso.

Jane Livesey, superior-geral da Congregação de Jesus - uma ordem religiosa global com cerca de 2 mil freiras - diz que a mensagem do papa Francisco é: "Existem diferentes formas de interpretar a doutrina, e minha maneira de fazer isso é através do prisma da misericórdia e do perdão."

Nesse sentido, diz ela, o papa lidera pelo exemplo. "Francisco é um homem que entende completamente o sentido disso - que você pode pregar tudo o que você quiser, mas, na verdade, a maior parte das coisas importantes da vida é absorvida, não ensinada."

John Allen diz que tudo isso acontece porque, no fundo, Francisco não é um teólogo ou um político, mas um pastor. "Quando ele pega o telefone e liga para qualquer mãe no sul da Itália, cujo filho está no hospital", diz ele, "parte disso se deve apenas ao seu genuíno perfil pastoral, mas outra parte consiste em recalibrar o modelo de liderança atual da Igreja Católica."

O Bispo de Roma, como Francisco gosta de se chamar, posicionou-se como um entre muitos. Ele deixou bem claro que é a favor da descentralização da Igreja e isso significa que, embora as regras possam permanecer as mesmas, o argentino está dando a bispos e padres mais liberdade para interpretá-las.

"Cada pároco tem de fazer esse tipo de julgamento", diz o cardeal Murphy O'Connor. "Na teologia moral existe a chamada verdade objetiva e a subjetiva, e às vezes você tem de levar em conta a situação subjetiva de várias pessoas. E um bom padre faz exatamente isso e eu acho que um bom papa faz isso também."

Mas, é claro, deixar os ensinamentos da Igreja a esse tipo de interpretação subjetiva de bispos e padres - tornando essa tradição milenar de ambiguidade o princípio orientador de seu papado – Francisco corre o risco de decepcionar e frustrar pessoas de todo o espectro do catolicismo.

Joseph Shaw, um blogueiro católico e membro da St. Benet Hall, em Oxford, argumenta que há o perigo de que a abordagem do papa obscureça os ensinamentos da Igreja.

"O papa Francisco parece se especializar em causar confusão sobre certas questões", critica. "Isso chateia as pessoas que sempre gostaram de ter ensinamentos muito claros mesmo quando isso era impopular, como na época de Bento 16."

A julgar por seu pontificado até agora, Francisco se comportou como um homem que observou os passos de seu antecessor - incrustado na máquina do Vaticano e definido pelo argumento doutrinário - e decidiu escolher, muito claramente, ser um tipo diferente de papa.

E como isso vem funcionando? Bem, é claro que a Basílica de São Pedro está mais agitada, os católicos têm diante de si uma primavera renovada e, se as questões de abuso sexual de crianças e irregularidades financeiras ainda não foram totalmente resolvidas, a história do Vaticano é hoje muito mais do que isso.

Mas não há ainda nenhuma evidência sólida de que os bancos das igrejas estão mais cheios.

Francisco revelou-se uma surpresa como papa, mesmo para aqueles que pensavam que o conheciam. Também demonstrou ser um padre com um toque pessoal. Mas ele não é um revolucionário. Ele é, porém, um arauto da mudança. Um papa com uma abordagem deliberadamente diferente de sua vocação.

Por trás da história

Durante muitos anos, eu observei, fascinado pela aparente paralisia dentro do Vaticano, como o pontificado de Bento 16 foi engolido por escândalos de abuso sexual infantil, irregularidade financeira e intrigas nos tribunais.

Sua renúncia, a primeira em 600 anos, confirmou o que todos pensavam: a Santa Sé estava em crise. O argentino Jorge Bergoglio o sucedeu em março de 2013, tornando-se o primeiro jesuíta e o primeiro sacerdote do Novo Mundo a chegar ao pontificado. Desde a sua primeira noite na varanda, olhando a multidão na Basílica de São Pedro, ele parecia decidido a enfrentar a tempestade.

Apesar de não ser católico, eu, como milhares de jornalistas no mundo todo, fiquei intrigado – e comecei a batalhar por uma entrevista para a BBC. Comecei a avaliar a possibilidade com uma série de figuras importantes na Igreja e, então, fui a Roma levar o pedido ao padre Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano. Argumentei que o Papa deveria considerar dar entrevista à BBC, tendo em vista sua audiência de 250 milhões de pessoas em todo o mundo.

Padre Lombardi, inundado de tantas demandas, sorriu e me deixou com a impressão de que o papa não estava tendo problemas para alcançar a atenção mundial. Depois disso, fui almoçar com Ezio Mauro, editor do La Republica, que eu tinha conhecido alguns anos antes – por incrível que pareça, nos conhecemos em uma entrevista com Vladimir Putin e, desde então, passamos a nos ajudar na tentativa de arranjar entrevistados interessantes.

Durante a conversa, ele mal podia conter sua empolgação. Seu antecessor, Scalfari, tinha acabado de ser convocado pelo papa para uma reunião no Convento de Santa Marta. A partir de então, mantive contato com Mauro e o La Republica, acompanhando os dramas dos bastidores.

Quando eu estava de férias na Itália durante o verão, perguntei se poderia visitar Scalfari em Roma e discutir o que ele aprendeu sobre o papa Francisco. Era uma forma de tentar entender um pouco do homem que preside uma congregação global de 1,2 bilhão de pessoas. E, por sua vez, precisei concentrar os esforços em tentar responder: o que, realmente, é o chamado do papa Francisco?

Internacional