O que é o poderoso 'centrão', que pode definir o sucessor de Cunha?

Mariana Schreiber

Da BBC Brasil em Brasília

  • Marcelo Camargo/Agência Brasil

    O deputado Rogério Rosso (PSD-DF), um dos mais líderes do Centrão na Câmara

    O deputado Rogério Rosso (PSD-DF), um dos mais líderes do Centrão na Câmara

Parlamentar em primeiro mandato e até pouco tempo desconhecido no cenário nacional, o deputado federal Rogério Rosso (PSD-DF) desponta como favorito a vencer a disputa pelo comando da Câmara nesta quarta-feira (13).

Por trás de sua possível vitória está o chamado "Centrão" - bloco informal de 13 partidos que soma cerca de 220 deputados (43% do total).

O grupo, que nasceu e cresceu sob a liderança de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), hoje é o polo de poder mais forte dentro da Casa, apesar da franca decadência de seu mentor.

Seus integrantes - PP, PR, PSD, PRB, PSC, PTB, Solidariedade, PHS, Pros, PSL, PTN, PEN e PTdoB - são siglas sem linha ideológica clara, mas que compartilham de valores conservadores. Em sua maioria, o grupo é composto por deputados do "baixo clero", ou seja, com atuação parlamentar pouco relevante.

"O baixo clero é formado por deputados sem grande presença parlamentar, mas numericamente é expressivo. Quando tem um líder que os agrega, acabam desempenhando um papel importante", nota o professor de ciência política da USP José Álvaro Moisés.

O pouco destaque da maioria do Centrão acabou abrindo espaço para a ascensão de um novato na Casa, avalia Antônio Augusto de Queiroz, analista político do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar).

Antes de chegar ao Congresso, Rosso foi governador do Distrito Federal por oito meses em 2010, num mandato tampão. Ele foi eleito indiretamente pelos deputados distritais após a Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal, ter revelado um esquema de corrupção no governo e derrubado o então governador José Roberto Arruda, seu vice e o presidente da Câmara Legislativa.

Como deputado federal, assumiu em 2015 a liderança do PSD na Câmara. Com o aval de Cunha, acabou escolhido neste ano para presidir a comissão que analisou o pedido de impeachment contra a presidente afastada, Dilma Rousseff - função que lhe deu maior projeção nacional.

"Como o Centrão é muito ruim de nome, gente com discernimento, com capacidade de articulação, o Rosso tem essa experiência e se destaca. Ele foi governador interino do DF, presidiu a comissão de impeachment, é líder de um partido médio para grande, tem a bênção de Eduardo Cunha, então é o sujeito que reúne as melhores condições para continuar dando oportunidade a esse grupo", resume Queiroz.

A eleição será realizada a partir das 16h desta quarta. A disputa também é por um mandato tampão - o vencedor comandará a Câmara apenas até janeiro de 2017, quando terminaria o mandato de dois anos para qual Cunha foi eleito.

Ele renunciou à presidência da Casa na semana passada, numa tentativa de reduzir a pressão pela cassação do seu mandato de deputado.

De blocão a Centrão

A origem do Centrão está no blocão, grupo criado em março de 2014 por Cunha, então líder do PMDB. A composição nasceu do descontentamento com a presidente Dilma, que dispensava pouca atenção à negociação política com o Parlamento.

No seio desse descontentamento estava o represamento no repasse das emendas parlamentares - recursos que os congressistas destinam para investimentos em suas bases eleitorais.
A composição era um pouco diferente - o blocão reunia oito siglas (PDT, PSC, PP, Pros, PMDB, PTB, PR e Solidariedade), que somavam 242 deputados (47% da Câmara). Naquele momento, ao fazer um "enfrentamento" com o governo petista, Cunha aglutinou forças que estavam dispersas, lembra o analista do Diap.

"A partir daí esses parlamentares passam a ser valorizados. Passam a ter relatoria (de projetos de lei), presidência de comissões, a ocupar cargos de vice-liderança", exemplifica Queiroz. A liderança de Cunha à frente do grupo se consolidou ainda mais após as eleições de 2014, quando o peemedebista teria articulado doações de empresas a campanhas de um grande número de candidatos a deputado federal.

Como resultado, em 2015 ele foi eleito para presidir a Câmara em primeiro turno, algo incomum, com apoio de 267 dos 513 deputados.

O feito não deve ser repetido por Rosso. Ele enfrentará nesta quarta outros 16 candidatos e a tendência é que haja segundo turno entre os dois mais votados. O mais provável que seu adversário final seja Rodrigo Maia (DEM-RJ) ou Marcelo Castro (PMDB-PI).

Na visão de Queiroz, o candidato do DEM é o que tem mais chances de bater o favoritismo de Rosso. O fato de Maia ser visto como mais independente de Cunha poderia unir os votos dos partidos de esquerda e da antiga oposição (PSDB, DEM, PPS) contra o Centrão.

Já Castro não teria amplo apoio porque, embora seja do partido do presidente interino Michel Temer, era ministro de Dilma e foi contra o impeachment. "Num segundo turno contra Rosso, Castro não se elege porque aí o Centrão e a base (partidos como PMDB, PSDB, DEM e PPS) vão votar num candidato que não seja hostil ao presidente Temer", analisa Queiroz.

Futuro do Centrão

Se a eleição de Rosso se confirmar, o Centrão deve sair fortalecido. Ainda assim, porém, a continuidade do bloco é incerta.

Para Álvaro Moisés, a vitória de um nome do Centrão indicaria a continuidade de um estilo de comando parecido com o de Cunha, que buscava marcar a independência do Congresso em relação ao Planalto.

"No sentido de procurar ter uma pauta (de votação) própria que não necessariamente é a pauta do governo", nota o professor.

Já Queiroz avalia que a tendência é que o grupo se disperse sem a liderança forte de Cunha. O peemedebista está afastado do seu mandato de deputado por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e tende a ser cassado em agosto pelos seus pares, já que a votação será aberta.

Mesmo que Rosso vença a eleição, o analista do Diap não o vê como capaz de manter o Centrão coeso.

Na sua opinião, é mais provável que o Poder Executivo retome o "eixo" da política, principalmente se Temer for confirmado presidente com a condenação de Dilma pelo Senado.

Com isso, a partir de 2017, quando haverá nova eleição para a presidência da Câmara, a tendência seria que o comando passasse para o grupo PSDB-DEM-PPS, observa Queiroz.

"A liderança do Centrão tem que ser respeitada e temida. Eduardo Cunha faz esses dois papéis. Rosso, no limite, seria respeitado. Temido, jamais. Ele não tem o nível de ousadia para quando tiver que enfrentar o governo em favor desse bloco, como Eduardo Cunha enfrentava. É muito difícil achar alguém com essa ousadia."

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