Os bastidores do show que vai levar o Brasil para 3 bilhões de pessoas

Jefferson Puff - @_jeffersonpuff - Da BBC Brasil no Rio de Janeiro

Se nos últimos anos tanto a imprensa nacional quanto internacional se acostumaram a dizer que o Brasil estava "sob os holofotes do mundo" para ilustrar a atenção gerada pela ascensão e queda da economia, a crise política e os grandes eventos, na noite da próxima sexta-feira a abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, com a presença de 45 chefes de Estado e assistida por quase 60 mil pessoas no Maracanã e mais de 3 bilhões ao redor do mundo deve dar novo sentido à expressão.

A BBC Brasil obteve acesso exclusivo aos bastidores do que está sendo preparado no Maracanã. Além dos números imponentes - são mais de 5 mil voluntários, 36 mil metros de tecido usados para um total de quase 12 mil figurinos, 2 mil canhões de luz, 3 mil quilos de fogos de artifício - o clima no estádio é dominado por ensaios e pela corrida contra o tempo para finalizar diversos elementos do espetáculo que pretende mostrar o Brasil para o mundo.

Marcada para ter início às 20h de sexta-feira, a cerimônia deve começar mais cedo para quem já estiver dentro do Maracanã, com um pré-show a partir das 17h, que deve incluir atrações musicais e orientações sobre segmentos surpresa que devem incluir a participação do público.

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A abertura deve durar cerca de quatro horas, sendo duas horas reservadas para a entrada dos 12 mil atletas, que também deve incluir novidades. "Vamos ter uma surpresa. Vai ser algo inusitado, um desfile de atletas como nunca se viu, mas não posso dar detalhes", diz Leonardo Caetano, diretor de cerimônias do Comitê Rio 2016.

Tão internacional quanto a festa, o bastidor revela um ambiente de "Torre de Babel" em que se fala diversos idiomas e diferentes culturas interagem há meses para criar figurinos, coreografias, números musicais e apresentações.

No escritório improvisado montado embaixo de uma das arquibancadas do estádio são mais de 500 pessoas de mais de 20 países trabalhando 24 horas por dia. Nos corredores um entra e sai constante de voluntários brasileiros e estrangeiros fazendo as últimas provas de figurino, costureiras fazendo ajustes, coreógrafos dando orientações sobre as apresentações por meio de rádios e toda hora diferentes grupos entrando e saindo do campo, onde está o palco principal (guardado a sete chaves).

"Alguns dos ensaios ocorrem durante o dia, e outros à noite. Mas os segmentos mais confidenciais só podem ser ensaiados no meio da madrugada, e até agora tudo era ensaiado de forma isolada, em grupos separados, para manter o sigilo. Só nesta última semana começam os primeiros ensaios gerais", diz Nara Gea, gerente-geral da empresa Cerimônias Cariocas, responsável pela organização. Ao todo foram cinco anos de preparação, 400 mil horas de trabalho e 500 horas de ensaio.

Após o português e o inglês, a terceira língua mais falada no Maracanã nas últimas semanas é o italiano, isso porque o consórcio que venceu o concurso para organizar a abertura e o encerramento dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos é formado por uma união entre a agência brasileira SRCOM e a italiana Filmmaster Group, responsável pela abertura dos Jogos de Inverno de Turim, na Itália, em 2006.

Artistas, apresentações, figurinos e ensaios

Na última semana, reportagens da BBC Brasil revelaram a participação de Fernanda Montenegro, Judi Dench, Mc Soffia, além da top model internacional Lea T, primeira transexual a participar com destaque em uma cerimônia de abertura na história dos Jogos Olímpicos. Anitta, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Elza Soares também já foram confirmados.

Para Leonardo Caetano, diretor de cerimônias do Comitê Rio 2016, além dos nomes famosos, é importante perceber que trata-se de um grande trabalho em grupo, que inclui 300 pessoas na produção, 300 dançarinos profissionais e 2 mil contratados terceirizados.

Um dos locais que revela um pouco do colorido e da maneira visual com que a cerimônia está organizada é o ateliê de costura onde 60 pessoas trabalham para aprontar os 12 mil figurinos que serão usados em todas as cerimônias, sendo 5 mil só na abertura olímpica.

"É difícil imprimir a diversidade cultural brasileira nos figurinos, mas estamos trabalhando nisso tentando fugir dos clichês e da maneira com que o brasileiro e o estrangeiro já esperam que o Brasil seja retratado. O desafio criativo foi imaginar figurinos que serão usados por mais de mil pessoas", diz Bruno Perlatto, figurinista assistente.

Mais de 20 máquinas de costura trabalham sem parar enquanto mais moldes são cortados e voluntários fazem provas. A chefia dos figurinos é assinada pela italiana Silvia Aymonino, que já trabalhou em quatro Olimpíadas, incluindo a de Londres, em 2012. Já o trabalho artístico contou com a produção executiva de Abel Gomes e a direção artística de Fernando Meirelles, Daniela Thomas, Andrucha Waddington e Rosa Magalhães.

As coreografias criadas por Deborah Colker foram replicadas, por meio de cálculos matemáticos e ensaios, pelo coreógrafo de massa americano Steve Boyd, que já trabalhou em 13 Olimpíadas.

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'Em busca da alma brasileira'

Para os organizadores há mais preocupações além das coreografias, figurinos, celebridades e shows pirotécnicos. A maneira como o Brasil será retratado também está entre os desafios.

"Vamos contar a história do Brasil, mostrar nossa cultura. Mas o que queremos passar para o mundo é uma visão de um Brasil moderno, atual. Haverá samba, boa música brasileira, cantores, artistas, mas além do espetáculo vamos mostrar o resultado atual dessa nossa mistura. Vamos mostrar onde estamos, o presente deste processo que construiu o país" , diz Leonardo Caetano, diretor de cerimônias do Comitê Rio 2016, em entrevista à BBC Brasil.

A intenção é evitar críticas como as que ocorreram após a abertura da Copa do Mundo, também no Maracanã, em 2014, quando os cantores Jennifer Lopez e Pitbull cantaram ao lado de Claudia Leitte a música "We are One", em inglês e português. A má avaliação de artistas brasileiros e da imprensa nacional e internacional levou a Fifa a reformular a cerimônia de encerramento.

Para ajudar na tarefa, os organizadores incluíram em suas equipes jovens talentos cariocas dispostos a trazer sua bagagem cultural local.

Amanda Fáveri, de 19 anos, e Manoel Gonçalves, Djalma Francisco e Jorge Luiz, todos de 21 anos, conseguiram o primeiro emprego no ateliê de figurinos graças a uma parceria dos organizadores com a ONG Spectaculu, localizada no Cais do Porto do Rio e gerenciada por Gringo Cardia, Marisa Orth e Vik Muniz. "Eles ajudam a dar essa ligação com o Rio, com a identidade local. Nós fizemos a seleção, e eles são ótimos", diz a chefe de figurinos Silvia Aymonino.

"É uma oportunidade incrível. Começamos como voluntários e agora fomos contratados", diz Djalma, que mora no bairro de Olaria, na Zona Norte do Rio.

"O trabalho feito durante todos esses anos foi de juntar sons, músicas, dança e cores para passar essa imagem do Brasil para o mundo. Já trabalhei nas aberturas dos Jogos de Inverno em Turim, na Itália, e das Olimpíadas de Pequim, na China, e acho que o desafio aqui foi criar uma cerimônia que passasse a alma brasileira para o público", diz Andrea Varnier, CEO da Cerimônias Cariocas.

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