Documentário revela submundo de 'campeonatos de cócegas' populares online

Emma Jones

Da BBC Londres

  • Getty Images

    Ao que tudo indica, as cócegas não são assim tão inocentes

    Ao que tudo indica, as cócegas não são assim tão inocentes

De todos os esportes sem chances de serem incluídos na Olimpíada de Tóquio, a "competição de resistência a cócegas" provavelmente está no topo da lista.

Mas um documentário chamado Tickled lança luz sobre as pessoas que participam desses "campeonatos", revelando não apenas um esporte excêntrico, mas uma indústria de porte considerável e um submundo com denúncias de cyberbullying e de abusos nas relações de poder.

Dois anos atrás, o repórter de TV neozelandês David Farrier, autor do documentário, se deparou com vídeos das competições online.

Os diversos vídeos postados na internet mostravam jovens do sexo masculino em roupas esportivas fazendo cosquinha um no outro. As imagens eram produzidas por uma empresa sediada nos Estados Unidos, a Jane O'Brien Media, que oferecia pagamentos polpudos a quem fosse selecionado para as gravações em Los Angeles.

"Logo no começo, pensei que fosse uma coisa totalmente inocente", explica Farrier. "Achei que alguém tinha tido uma ideia engraçada de um esporte estranho. E todos os homens usavam roupas de esporte, então achei que se tratava de uma ideia esquisita de uma liga de cócegas."

"Fiquei intrigado e pensei em fazer uma reportagem de dois minutos no meu programa mesmo, então entrei em contato com eles. De verdade, uma pequena reportagem era todo o meu objetivo."

Mas Farrier, que é bissexual, recebeu um e-mail de resposta dizendo que a empresa não queria lidar com um "jornalista homossexual".

"Eu fiquei um pouco chateado, mas parte de mim achou engraçado. Não entendi por que uma empresa que produz vídeos de homens fazendo cócegas diria aquilo."

StudioCanal/A Ticklish Tale

'Trata-se de poder'

"Instinto, intriga e fascinação" levaram ele e seu codiretor Dylan Reeve a investigar mais sobre os vídeos, apesar de representantes da empresa terem voado até Auckland ameaçando processá-los. Farrier conseguiu levantar dinheiro para o documentário usando um site de financiamento coletivo.

"A gente entrou nisso de forma inocente", diz ele.

"Não esperávamos encontrar o que encontramos. Se você assiste ao filme você descobre que a questão não são as cócegas --é o poder. Tínhamos interesse no lado psicológico, no que leva esses homens a participar dos vídeos, e a maioria eram atletas ou militares, e de Estados (americanos) mais pobres."

Farrier crê ter descoberto um "império das cócegas" que movimentaria mais dinheiro do que ele podia imaginar, no qual homens ganhariam cachês para serem amarrados e receber cócegas, em vídeos de teor fetichista. Os que depois rejeitaram ter sua imagem associada a isso alegam que foram ameçados pela produtora e alvo de cyberbullying. Mas a Jane O'Brien Media nega que tenha feito qualquer coisa contra os participantes.

O próprio Farrier diz que foi vítima de ameaças e que um investigador privado "contratado por essa gente (a produtora dos filmes)" chegou a espreitá-lo em sua casa na Nova Zelândia.

Prazer?

Cosquinhas normalmente provocam risadas, e a ciência pesquisa há alguma tempo se isso é involuntário. Há dez anos, um estudo da Universidade da Califórnia em San Diego concluiu que cócegas não necessariamente produzem prazer, só a aparência externa dele.

StudioCanal/A Ticklish Tale
O repórter de TV neozelandês David Farrier, autor do documentário Tickled
Alan J. Fridlund, psicólogo social e clínico, diz que isso depende do "contexto social" das cócegas.

"Charles Darwin achava que a cosquinha infantil era a base do humor adulto, e eu concordo. Mas o lado traiçoeiro das cócegas é que se quem está fazendo tem um objetivo perverso, ele irá interpretar a resposta reflexiva à cosquinha como sinal de aprovação, mesmo quando o contexto social for negativo", agrega Fridlund.

"Se ele continua, fica instigado pelo desagradável fato de que cócegas muito intensas causam cataplexia, um enfraquecimento generalizado dos músculos estriados do corpo, algo que todo mundo que já passou por uma 'tortura de cosquinha' conhece."

Essa expressão é repetida por um participante dos vídeos chamado TJ, que conta a Farrier no vídeo que disseram a ele que participar "era para um projeto, já que cócegas estavam sendo avaliadas como uma tática militar para o Exército: a tortura de cosquinha. Achei que era mentira", afirma.

TJ diz que participou porque "estava um pouco desesperado por dinheiro. Era jovem à época e nem pensei nisso. Eu ganharia US$ 2.000".

"No dia (da gravação), percebi que só tinha homens, e não sabia que iam me amarrar. Havia atletas ali, fisiculturistas, dois atores que eu já havia visto em comerciais de TV --pessoas completamente normais. Mesmo assim pensei 'Espero que ninguém descubra nada sobre isso'."

'Dor na cosquinha'

No documentário, TJ afirma que quando os vídeos foram colocados na internet, ele pediu que fossem retirados por medo que sua carreira fosse prejudicada. Depois, ele diz que foi vítima de abuso e assédio --inclusive com e-mails enviados à escola onde trabalhava e tentativas de humilhá-lo publicamente.

O documentário afirma que outras pessoas que participaram dos vídeos de cócegas sofreram com comportamento controlador e abusivo.

O diretor afirma que sua visão sobre as cócegas mudou depois do filme --e de ele mesmo ser submetido à cosquinha por causa do filme.

"Há dor na cosquinha, nem sempre é agradável. Você não ri da forma que ri de uma piada. Pode ser usado como uma tortura e um jogo de poder. Também sempre há alguém que domina e aquele que se submete. É uma metáfora para o poder e controle do qual falamos no filme."

"A inocência da cosquinha desapareceu para mim --não faço mais cócegas nas minhas sobrinhas", afirma.

A palavra que resume a experiência, diz Farrier, é "estranho".

"Fiquei completamente perplexo por um tempo com o que descobri. Não daria para inventar algo assim. Mas alguns pessoas acharam que sim --elas acham que é tão inacreditável que é um falso documentário de humor."

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