Cinco motivos - bons e ruins - que explicam sucesso do Brasil no esporte paralímpico

Daniel Dias

Talentos como Daniel Dias foram descobertos por associações de amparo ao deficiente

Se na Olimpíada do Rio o Brasil lamentou não ter conseguido um inédito lugar entre as 10 nações mais ganhadoras de medalha, esse cenário é impensável no esporte para pessoas com deficiência. Nas últimas duas Paralimpíadas, a delegação brasileira não apenas marcou presença no Top 10 como deixou para trás países como a Alemanha, que nos Jogos Olímpicos invariavelmente fica à frente do Brasil.

Mas o que explica esse sucesso, que o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) sonha ver expressado por um quinto lugar na Rio 2016?

É comum atribuí-lo à maior distribuição de medalhas pela Paralimpíada, que realiza diversas versões da mesma prova para atender aos atletas de diferentes tipos de deficiência. Tal argumento, porém, esbarra no fato de que países com mais tradição e recursos poderiam simplesmente dominar o excedente de pódios.

Os fatores determinantes do sucesso brasileiro são positivos - e alguns, tristes: passam tanto por políticas esportivas acertadas como por uma espécie de efeito colateral de problemas enfrentados pelos setores da população com alguma deficiência, passando até pela violência no trânsito.

1. Oferta populacional

Se não é garantia imediata de que vai ganhar jogo - basta ver a história modesta da Índia em Jogos Olímpicos e Paralímpicos -, um país com uma população grande tem, em tese, mais chance de encontrar talentos.

De acordo com as mais recentes estatísticas do IBGE, o Brasil tem mais de 45 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, o que representa mais, por exemplo, que a população inteira de países como o Canadá e a Argentina.

"Estamos falando mais do que de um manancial de possíveis talentos, mas da importância que o esporte paralímpico pode ter para esse segmento significativo da população brasileira", explica o presidente do CPB, Andrew Parsons.

2. Desemprego

Mais de 50% da população deficiente ativa do Brasil está fora do mercado de trabalho formal, de acordo com informações do Ministério do Trabalho. Isso tornou o esporte ainda mais atraente para as pessoas com deficiência como alternativa de carreira viável. Ainda mais a partir de 2009, quando o Rio foi escolhido sede olímpica e paralímpica para 2016.

De acordo com números do CPB, 67% dos atletas paralímpicos brasileiros vivem exclusivamente do esporte, ainda que quase 60% do contingente receba até dois salários mínimos.

Cadeirante no trânsito do Rio

Desemprego no Brasil é assustador entre pessoas com deficiência

3. Investimento

Embora não chegue perto das verbas destinadas ao esporte olímpico, o esporte paralímpico brasileiro registrou um aumento considerável de investimentos nos últimos ciclos - para os Jogos do Rio por exemplo, o investimento beirou R$ 400 milhões. Não coincidentemente, a participação brasileira nas Paralimpíadas melhorou na mesma proporção.

Depois de obterem 21 medalhas em Atlanta 1996, os brasileiros terminaram os Jogos Paralímpicos de Londres, há quatro anos, com 43, sendo que o número de ouros pulou de dois para 21. A Lei Piva, que destina recursos da loteria para o esporte olímpico, hoje dá ao CPB uma fatia mais de duas vezes maior que a previsto em 2000, quando entrou em vigor.

Anteriormente, o esporte olímpico recebia 85% da verba. Hoje, recebe 63%.

4. Preparação

O CPB apostou na ciência para buscar o aumento de pódios obtidos pelos atletas brasileiros. Equipamentos de alta tecnologia desenvolvidos em parceria com laboratórios especializados e novos métodos de treinamento têm feito cada vez mais parte da preparação dos talentos paralímpicos, em áreas que incluem a nutrição e a psicologia.

Em 2012, quando o velocista sul-africano Oscar Pistorius insinou que o brasileiro Alan Fonteles teria usado próteses longas demais para vencê-lo nos 200 m livres para amputados na Paralimpíada de Londres, o corpo técnico da delegação brasileira forneceu um verdadeiro tratado científico desmontando o argumento de Pistorius.

Seleção brasileira de vôlei sentadp

Acidentes de trânsito afetam a maioria dos jogadores das equipes de vôlei sentado do Brasil

A realização de competições paralímpicas escolares tem ajudado o CPB a revelar talentos. Mas o trabalho pioneiro de associações para dificientes no Brasil, como a Andef, em Niterói (RJ), e a ADD, em São Paulo, ainda é muito importante para a descoberta de potenciais campeões.

Foram instrutores de natação da ADD, por exemplo, que enxergaram potencial em um jovem com má formação nos braços. Daniel Dias hoje é o mais vitorioso paratleta brasileiro - sem contar com a Rio 2016, conta com 10 ouros, quatro pratas e um bronze em Paralimpíadas.

5. Tragédias no trânsito

No pedágio da Ponte Rio-Niterói, um imenso cartaz celebra, durante o período olímpico, o patrocínio da Ecorodovias, o grupo que administra um dos cartões postais do Rio, à Confederação Brasileira de Vôlei para Deficientes (CBVD).

Para alguns observadores, há uma triste ironia neste patrocínio, já que a maioria dos 24 atletas masculinos e femininos de vôlei levados pelo Brasil para a Rio 2016 são vítimas de acidentes de trânsito. No geral, praticamente um em cada cinco atletas da delegação brasileira ficou deficiente por causa de colisões ou atropelamentos. O Brasil é um dos cinco países que mais matam no trânsito, tendo registrado mais de 43 mil mortes em 2014.

"Em 12 anos de trabalho com o vôlei sentado, vi que o esporte foi a melhor ferramenta de reinserção dessas pessoas em uma vida normal após o acidente. Jogar acelera bastante a recuperação dessas pessoas, inclusive no resgate da autoestima", explica o presidente da CBVD, Amauri Ribeiro.

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