Eleições nos EUA: por que Donald Trump vai ganhar - e por que ele vai perder

Jon Sopel

Editor da BBC nos EUA

  • Damon Winter/The New York Times

Vou bancar o "isentão". Ou seja, olhar a mesma situação por duas perspectivas diferentes.

Com esse espírito, a seguir explico por que o candidato republicano Donald Trump vai ganhar as eleições presidenciais nos Estados Unidos em 8 de novembro - e por que ele vai perder.

Por que Donald Trump vai ganhar

Sim, Donald Trump está atrás nas pesquisas e, nas duas últimas semanas, sua campanha degringolou. Mas, à medida em que a fumaça se dissipa (e há muita fumaça), perceba onde estamos no campo de batalha. Trump ainda está de pé.

Qualquer outro candidato convencional já teria sido destruído pelo que Trump passou. Não é sua perda de apoio que surpreende, e sim como ele continua firme na briga. Ele tem, aparentemente, imutáveis 37% de intenções de voto.

Trump precisa aumentar esta marca em 10% para vencer. Impossível? Nem tanto.

Pesquisas eleitorais não são uma ciência exata. Os pesquisadores pegam dados crus e temperam com sal e pimenta. Seus modelos focam em pessoas que podem ser sub-representadas, que podem não responder pesquisas online ou por telefone.

Muitas pessoas que votaram em Trump nas primárias do Partido Republicano estavam afastadas do processo político há anos - provavelmente não fazem parte de nenhum grupo de amostragem.

Há também o fenômeno dos apoiadores "envergonhados" de Trump.

Quando eu era correspondente da BBC em Paris, em 2002, o candidato da Frente Nacional, Jean Marie Le Pen, obteve um resultado muito melhor do que o esperado, superando o candidato socialista e avançando para o segundo turno. Aquilo causou um terremoto político. O que aconteceu? Claramente havia mais pessoas apoiando sua dura posição em relação ao controle de imigração do que as pesquisas estavam captando.

O mesmo aconteceu nas eleições gerais do Reino Unido em 2015. As pesquisas não captaram quantas pessoas estavam dispostas a votar no Partido Conservador.

Ou seja, as pesquisas podem estar subestimando o apoio a Donald Trump.

Outro ponto é o entusiasmo. Os eleitores mais entusiasmados estão com Trump. Não há empolgação por Hillary Clinton.

As pesquisas sugerem que até 15% dos eleitores estão indecisos. Mas se você vai votar na candidata do Partido Democrata, o que mais precisa saber? Ela é convencional, suas posições são bem conhecidas. Os eleitores não têm nada novo a aprender sobre Hillary.

Certamente esses indecisos esperam encontrar algo em Donald Trump que lhes convença a votar nele. Alguma garantia. Algum semblante presidencial. Alguma disciplina em meio ao fogo cruzado.

Trump não foi destruído pelas alegações de que teria cometido abusos sexuais, pelo medonho vídeo no ônibus, nem pelas acusações de que teria sonegado impostos durante quase duas décadas.

Mas e se algo ruim surgir sobre Hillary Clinton nestas três últimas semanas de campanha? As revelações feitas pelo Wikileaks através de e-mails hackeados até agora estão na categoria de constrangimento médio.

E se houver algo pior a caminho, deslocando toda a atenção para Hillary? A candidata democrata não tem o mesmo revestimento teflon que Trump tem. Há um cansaço profundo com a política tradicional. Os americanos anseiam por mudança.

Hillary Clinton representa tudo aquilo de que os americanos estão cansados. Seus eleitores se preparam para votar nela sem muito entusiasmo. Ela está lá para confirmar o favoritismo. É por isso que Donald Trump vai vencer no dia 8 de novembro.

Por que Donald Trump vai perder

As pesquisas de intenção de voto estão se movendo para uma direção clara. O flerte que os americanos tiveram com o candidato mais radical de todos já passou. Sim, ele tem uma base empolgada, mas está estacionado no mesmo lugar.

Trump vai perder não porque a eleição será fraudada, como ele tem alegado nos últimos dias, mas porque mais americanos vão votar em Hillary Clinton do que em Donald Trump em regiões fundamentais.

Não há nenhuma evidência de fraude eleitoral. Uma investigação que durou uma década encontrou apenas 31 exemplos de eleitores inelegíveis que se passaram por outros para votar em todo o país.

Se você quiser algum sinal de resignação da campanha de Trump, certamente será apresentando tais argumentos. Não ouvimos nada do tipo vindo do candidato republicano quando a corrida estava competitiva, há um mês. Esqueça as pesquisas nacionais, o que importa são as batalhas nos Estados.

Trump já perdeu na Virginia, o apoio de mulheres à sua candidatura em Wisconsin desabou e o Partido Democrata, longe de restringir sua campanha a menos Estados, está pensando em expandir seus gastos na Georgia e no Arizona. Até o Texas, considerado republicano, está sendo visto como possível alvo.

A estratégia de campanha de Hillary Clinton agora é "não cometa erros".

Pode não ser empolgante. Ela mal foi vista nos últimos dias. Por quê? Porque ela está satisfeita de ver todo o foco em Donald Trump. Ela será disciplinada; vai evitar exposições desnecessárias e confrontos diretos, deixando para sua equipe o trabalho pesado.

A crítica mais contundente do comportamento de Donald Trump em relação às mulheres não veio de Hillary Clinton, mas de Michele Obama.

E a campanha de Hillary tem tido sucesso em bater onde mais dói em Trump. Estaria ele preparado para ser presidente? As pesquisas mostram que algo como dois terços dos americanos acham que não.

Hillary também tem o jogo de base.

Esqueça a retórica afiada, as bandeiras levantadas, os sonhos alardeados: política se faz batendo de porta em porta, ligando para as pessoas, convencendo-as a se registrar para votar. É a maquina.

Compare quão bem organizada está Hillary em comparação com Trump. Ela tem muito mais escritórios, mais estrategicamente localizados, com mais funcionários e melhor financiamento. Donald Trump, por outro lado, tem uma operação mais casual, e parece estar em conflito com alas importantes do Partido Republicano, que comanda a máquina.

É por isso que Donald Trump vai perder no dia 8 de novembro.

Acredito que minhas duas argumentações são bem convincentes.

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