Como guerra ao politicamente correto ajuda a explicar ascensão de Trump

  • Gregg Newton/ AFP

Quando perguntados sobre as maiores qualidades de Donald Trump, muitos eleitores do próximo presidente dos Estados Unidos costumam citar sua recusa em se preocupar com o "politicamente correto".

Analistas sugerem que esse comportamento o ajudou a capitalizar sobre a revolta de muitos americanos que consideram que sua liberdade de expressão está sendo cerceada pelos limites impostos - mesmo que informalmente - ao uso de termos ou posturas que seriam ofensivos.

"O grande problema deste país é ser politicamente correto", disse Trump inúmeras vezes ao longo da campanha.

Após se lançar candidato, ele se referiu a imigrantes mexicanos como "estupradores", defendeu suspender a entrada de muçulmanos estrangeiros nos Estados Unidos e insinuou que uma jornalista havia lhe tratado com rispidez porque estaria menstruada.

Na mesma medida em que inflamou seus críticos, as posturas lhe renderam elogios entre simpatizantes, para quem Trump apenas "diz as coisas como elas são". Segundo eles, ao se posicionar sobre os assuntos, o empresário não se curva a sensibilidades e patrulhas linguísticas que dificultam o combate de problemas reais dos Estados Unidos, como a criminalidade e o terrorismo.

A cruzada de Trump contra o politicamente correto se insere num conflito mais amplo, que vai além da linguagem. O embate muitas vezes põe direita e esquerda em lados opostos e se reproduz em vários países do mundo, inclusive no Brasil.

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Da Guerra Fria à cultura

No fim de 2015, conforme a discussão sobre o politicamente correto se tornou central na campanha americana, o jornalista Philip Bump analisou no The Washington Post o emprego da expressão ao longo da história dos EUA. Ele diz que o termo ganhou popularidade durante a Guerra Fria, quando era normalmente associado ao comunismo.

Naquela época, diz o articulista, "politicamente correto" era o que o regime soviético considerava correto. Ele cita uma reportagem de 1985 sobre uma importadora de discos. "Atualmente o jazz é politicamente correto na União Soviética", dizia o texto de um jornalista americano.

Nos anos 1990 e com a implosão soviética, Bump diz que a expressão passou a ser mais usada no campo cultural, ligada a práticas ou expressões que deveriam ser evitadas por ofender certos grupos.

É nesse contexto que muitos passam a associar o politicamente correto a uma postura cerceadora e que, muitas vezes, beiraria o ridículo.

Alguns críticos costumam citar, ao exemplificar o que consideram exageros dessa atitude, o cancelamento da peça Diálogos da Vagina por uma faculdade de Massachusetts em 2015.

Tida como um manifesto feminista ao ser criada nos anos 1990, a peça foi rejeitada pela faculdade Mount Holyoke por não ser inclusiva o suficiente: estudantes avaliaram que ela poderia ofender mulheres transexuais que não têm vagina.

Um artigo em 2015 na Chronicles Magazine, publicação de um instituto conservador americano, diz que o pensamento politicamente correto cala ou torna objeto de ódio e deboche todos que se recusam a seguir seus códigos.

O objetivo da prática, segundo a revista, é exercer um controle social que "torne impossível a pessoas comuns manifestar suas queixas publicamente de uma maneira aceitável, de modo que suas objeções possam ser facilmente rejeitadas como expressões de ignorantes preconceituosos".

Para alguns, esse comportamento põe em risco a própria comunicação e se choca com a Primeira Emenda da Constituição americana, que garante a liberdade de expressão.

No outro lado da disputa, muitos avaliam que ser politicamente correto significa apenas tratar as pessoas com respeito, e que a oposição aos códigos é alimentada por grupos que se recusam a rever privilégios ou a deixar de usar expressões racistas.

Um artigo no Christian Science Monitor diz que, para as gerações que cresceram sob essa filosofia, "o discurso é uma arma, e suprimir palavras que possam ser vistas como ofensivas ou odiosas é a nova fronteira dos direitos civis".

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Etiquetas e democracia

Diante desse embate, há quem veja argumentos válidos nos dois campos.

Conor Friedersdorf diz na revista The Atlantic que alguns códigos politicamente corretos - como a crença de que americanos muçulmanos merecem ser tratados como os demais cidadãos - ajudam a impedir que pessoas inocentes sofram injustiças.

Por outro lado, ele afirma que algumas práticas são "etiquetas arbitrárias que pessoas formadas em faculdades concorridas usam para se sentir superiores a outras".

"Entre as normas-chave que são vitais à democracia e as demandas mais frívolas por correção política há muitos territórios em disputa", afirma. Para ele, a ascensão de Trump mostra que pessoas que rejeitam os caprichos da elite intelectual estão ganhando espaço nesse embate.

Friedersdorf diz que críticos do "trumpismo" devem estudar os danos causados pelos exageros dessas normas, identificar quais delas merecem ser defendidas e convencer os americanos a adotá-las voluntariamente, e não sob a ameaça de humilhação pública.

Mas os contornos que o debate vem ganhando nos últimos anos sugerem que a pacificação da disputa está distante.

Para Philip Bump, a expressão "politicamente correto" virou um guarda-chuva para várias posições associadas à esquerda, como a defesa do casamento gay, da igualdade de gêneros e de ações afirmativas em prol de minorias raciais.

Segundo ele, muitos críticos do politicamente correto são, no fundo, críticos de bandeiras progressistas.

No Brasil, políticos conservadores também têm se insurgido contra essas normas. O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), um dos principais expoentes do grupo, costuma dizer que "estamos vivendo a ditadura do politicamente correto".

Tanto no caso americano como no brasileiro, o discurso ganhou força após vários anos de governos à esquerda, que assumiram bandeiras em favor de minorias.

Curiosamente, Philip Bump nota que o sentido da expressão tem se reaproximado do que tinha na Guerra Fria. "'Politicamente correto' hoje é em grande medida um sinônimo para 'o modo como a esquerda age'", diz.

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