A decisão de biógrafo da Chapecoense, que escrevia último capítulo quando escapou da tragédia

Enquanto a Associação Chapecoense de Futebol caminhava para seu ápice, a carreira do radialista Ivan Carlos Agnoletto a acompanhava até o topo. Com 990 jogos narrados da Chapecoense, ele tinha grandes planos para lançar o livro que escreve para marcar a narração de sua milésima partida.

Ivan Carlos, como é conhecido por seus ouvintes na rádio Super Condá AM, foi acordado na madrugada de terça-feira por um telefonema para sua mulher dando os pêsames pela morte do marido. "Mas como, se ele está deitado aqui do meu lado?", ela perguntou.

A história do narrador foi contada pelo seu filho Igor à BBC Brasil nesta semana. Ele estava finalizando a biografia, que escreve há seis anos, do primeiro time catarinense a se classificar para uma final internacional.

O nome de Ivan Carlos era o último nome na lista de passageiros divulgada inicialmente após a queda do voo da Lamia que levava a Chapecoense para a suada final contra o Atlético Nacional em Medellín.

Mas Ivan Carlos cedera seu lugar no voo ao colega Gelson Galiotto, "um irmão" com quem trabalhava há mais de 15 anos e sonhava em cobrir a primeira final internacional do time na Copa Sul-Americana.

Tudo isso contra a vontade de sua família, que fez até campanhas em grupos de WhatsApp para que o narrador fosse para a Colômbia.

"Na sexta passada, o Galiotto me visitou e falou que ele gostaria muito de fazer a final, que ele nunca tinha feito uma decisão internacional", conta o radialista.

A princípio, ele manteve a escala, mas depois se sensibilizou com o pedido do colega e ligou para ele com a boa notícia: "Você vai fazer a final. Você vai para Medellín."

Últimas mensagens

Ivan Carlos ainda tem no celular as últimas mensagens de voz recebidas de Galiotto no WhatsApp, que mostrou à BBC Brasil.

Em áudio enviado de Guarulhos às 10h56, ele reclamava de mudanças de última hora no voo antes de deixar o Brasil para a Colômbia. A mensagem diz:

"Começou de novo a incomodar esse negócio de Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). Agora vamos ter que sair de voo comercial até Santa Cruz de la Sierra na Bolívia e depois lá pegar essa tal de Lamia. Olha, agora acho que vou pegar e vou voltar para Chapecó. Não gosto de sofrer muito", diz na mensagem de voz ao amigo.

O radialista diz que muitos têm perguntado se ele não sentiu um alívio por não estar no voo. "Não tem alívio. É só pesadelo", lamenta.

O pesadelo vai agora adiar lançamento do livro que ele vinha escrevendo há seis anos. "Agora há um capítulo bem triste a ser escrito", diz.

Mas o radialista, que acompanha o time há 40 anos, já escolhera um título sofrido para o livro: "Chapecoense, uma história de sacrifício, uma paixão".

"A Chapecoense é tão apaixonante porque é uma história de sacrifício. Taí mais um, uma tragédia."

Ele agora quer esperar o time "dar a volta por cima" para lançar o livro.

"Quero terminar com a Chapecoense em alta, a Chapecoense alegre. Vou esperar um pouco mais."

'A história verdadeira'

O jornalista conta que a ideia de escrever um livro sobre a Chapecoense surgiu quando começou a ouvir histórias incorretas sobre como o time foi fundado.

"Como conheço a história em detalhes, resolvi fazer um trabalho completo. Toda a história verdadeira. Desde a fundação até o momento em que fechar o livro", afirma ele.

Ivan Carlos começou a trabalhar no clube como puxador de fios, em 1973. Quatro anos depois, virou repórter e, em 1980, começou a narrar as partidas da Chape, como os torcedores chamam o time.

No voo que matou 71 pessoas, incluindo a maioria dos jogadores da Chapecoense e mais de 20 jornalistas, estava também o repórter Edson Ebeliny - o Edson Picolé - que também trabalhava com ele há cerca de 15 anos na Super Condá.

"Ele era como um filho meu", diz Ivan Carlos, apontando para a cabine no alto das arquibancadas na Arena Condá onde eles faziam as transmissões juntos, e de onde faz as narrações dos jogos da Chapecoense há 36 anos.

Após a tragédia, ele transmitiu na rádio Super Condá uma mensagem para seus ouvintes sobre a forte identificação que os torcedores sentem com o time.

"Por mais que a gente torça para Flamengo, Corinthians, Vasco, Palmeiras, Santos e outros grandes times, na vida a gente é mesmo uma Chapecoense", diz a mensagem.

"A gente sonha, luta, batalha, joga fechadinho na defesa, aguenta pressão no trabalho, salva bola em cima da linha no último minuto e quer ser campeão de alguma coisa. Vibrar com a felicidade, alçar voos altos", continua, para ao fim concluir: "A gente adotou a Chapecoense porque ela é a gente da gente."

Em um momento com tantas perguntas sobre o futuro do clube no ar, Ivan Carlos tem uma convicção.

"A Chapecoense vai se reconstruir. Podem ter certeza", diz ele. "O aço começa derretido. A Chapecoense vai voltar forte."

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