'Fiquei seis anos sem ver meu pai e o reencontrei... na Cracolândia'

  • Marcello Vitorino/Fullpress

    Alcides Silva diz ter reduzido consumo de crack, mas ainda não conseguiu largar vício e a vida na cracolândia

    Alcides Silva diz ter reduzido consumo de crack, mas ainda não conseguiu largar vício e a vida na cracolândia

A produtora cultural Mylena Garbin, de 24 anos, peregrinou de bar em bar por muito tempo no centro de São Paulo. E não foi para beber nem encontrar amigos.

A missão era procurar o pai, usuário crônico de cocaína e crack que abandonara a família durante a adolescência da jovem. "Ninguém sabia dele", conta a produtora.

Mylena tinha uma pista: sabia, desde os 18 anos, que o pai costumava frequentar a cracolândia, na região central de São Paulo. Mas não o via desde então.

"Talvez o tenha cobrado muito, para que parasse de usar drogas, e ele se cansou", comenta.

No final de 2016, Mylena resolveu participar, como voluntária, de um evento que oferecia tratamentos de beleza a mulheres e transexuais da cracolândia. E pensou que, uma vez em meio ao vaivém de traficantes e dependentes, poderia tentar novamente.

Ela decidiu perguntar a assistentes sociais do programa Braços Abertos - iniciativa da gestão Fernando Haddad (PT) na cracolândia e hoje em reformulação pela administração João Doria (PSDB) - se alguém conhecia seu pai.

E elas, de fato, sabiam do paradeiro do pai de Mylena - o auxiliar de serviços Alcides Silva*, de 52 anos, era um dos beneficiários do extinto programa, que oferecia aos usuários de crack remuneração diária de R$ 15 por dia de trabalho, refeições e vagas em hotéis da região.

Mylena deixou um bilhete com as assistentes sociais. "Pai, me liga! Te amo e estou com saudades", dizia a mensagem com os números de telefone.

O reencontro não demorou. E desde então, pai e filha não perderam mais o contato, e poderão conhecer, juntos, o novo membro da família - Mylena está grávida de oito meses. "O importante agora é que vou ver e acompanhar esse netinho", diz o pai.

No ano passado, pai e filha passaram o Natal juntos pela primeira vez em 20 anos. O encontro foi na casa da mãe de Mylena, a comerciante Irene Cavalcanti.

"Finalmente tivemos um encontro familiar. Minha mãe recebeu meu pai muito bem, foi bem tranquilo, ele ficou muito feliz", conta a produtora cultural.

Alcides não largou o crack - mas diz estar consumindo menos. E Mylena o visita a cada 15 dias no hotel em que ele vive na cracolândia.

"O espaço é muito limpo, me sinto bem lá. As pessoas acham que a cracolândia é o inferno na Terra, mas não é bem assim. Claro que ninguém irá andar sozinho no 'fluxo', onde se compra e vende droga, mas em geral não é um lugar muito mais perigoso do que outras regiões da cidade", opina a filha.

A conversa da filha e do pai com a BBC Brasil ocorre em frente à estação Júlio Prestes, marco arquitetônico da cidade esquecido em meio ao abandono da região central.

A poucos metros dali, na cracolândia, são comercializados cerca de dez quilos de crack por dia, segundo a Polícia Civil do Estado. Na semana passada, um assalto terminou em confronto e confusão generalizada envolvendo dependentes químicos, traficantes e forças de segurança. Houve saques a lojas e um ônibus chegou a ser sequestrado por viciados.

Braços Abertos ou Recomeço?

Assim como o futuro do pai de Mylena, o destino do programa anticrack da gestão do PT é incerto. Implantado em janeiro de 2014, a ação petista partia do princípio da redução de danos: fazer com que o usuário amplie sua inserção social e diminua o consumo aos poucos, por meio de oferta de emprego e moradia, sem necessidade de internação.

Dependentes químicos que trabalhassem ao menos quatro horas por dia (em atividades como varrição de rua e jardinagem) ou participassem de oficinas de arte e pintura, como é o caso de Alcides, ganhavam R$ 15 por dia. Cerca de 400 pessoas eram atendidas até o final do ano passado.

Na campanha eleitoral, o atual prefeito João Doria (PSDB) disse que o programa "não era bom para a cidade" e prometeu extingui-lo. Após confronto na semana passada, Doria disse que a "cracolândia tem prazo final para acabar" e que isso ocorreria "em breve".

Relatos na imprensa após a eleição sugeriram que a gestão tucana manteria parte das ações da iniciativa, mas a prefeitura ainda não divulgou detalhes do plano - diz apenas que tudo será incorporado ao programa Recomeço, do governo do Estado (também do PSDB) e focado no tratamento dos dependentes.

"O projeto tem como eixo fundamental o acolhimento e tratamento de dependentes químicos. O conceito básico é primeiramente dar abrigo aos dependentes fora da área (cracolândia). O programa inclui também ações em assistência social, zeladoria e segurança, com apoio à polícia no combate ao tráfico. As iniciativas serão feitas em conjunto com o governo do Estado, governo federal e sociedade civil", informou a prefeitura em nota à BBC Brasil.

A administração não respondeu pedidos específicos de informação, como número atual de beneficiários, ações que serão ou não mantidas e qual será a estrutura de gestão.

O sociólogo Benedito Mariano, coordenador do Braços Abertos na gestão Haddad, defende a iniciativa que gerenciava. "A lógica do acolhimento e do resgate social de pessoas que se viam à margem da sociedade pode provocar grandes mudanças", afirma.

Uma pesquisa da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, rede que promove políticas de redução de danos, apontou que 67% de 80 beneficiários ouvidos haviam relatado redução no consumo.

Há quem considere, por outro lado, que tratamentos que visem a abstinência, como a proposta das gestões do PSDB, sejam mais adequadas. Para Ana Cecília Marques, coordenadora da Comissão de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria e professora da PUC-SP, viciados devem passar primeiramente por tratamentos de desintoxicação e de doenças relacionadas ao consumo de drogas.

"A maioria dos usuários adquire as chamadas comorbidades, como enfisema e inflamação dos nervos, que precisam ser tratadas", diz Marques, citando programas de universidades como USP e Unifesp que alcançariam taxas de abstinência de 60%.

A descontinuidade das iniciativas anticrack do setor público não se restringem a São Paulo. No plano federal, a principal aposta do governo Dilma Rousseff (PT) - microônibus superequipados para monitorar as cracolândias - resultou em veículos parados, subutilizados ou funcionando de forma precária, como mostrou a BBC Brasil em 2015. e até o momento, não há indicação de que essa política seja prioridade da gestão Michel Temer (PMDB).

Futuro

Ainda longe da abstinência, Alcides fica à espera da nova proposta da Prefeitura de São Paulo para resolver o problema da cracolândia e seus viciados. "Espero que não mude muita coisa porque a ação tem me ajudado", diz.

De acordo com estimativa feita em 2015 pelo governo federal, 340 mil pessoas usavam crack regularmente no país naquele ano.

"O uso compulsivo da droga muitas vezes não está diretamente relacionado à substância em si, mas à ausência ou ruptura de vínculos sociais", lembra José Luis Ratton, professor do departamento de Sociologia da UFPE e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Sem dar detalhes de sua vida, o homem de fala agitada e gestos largos reconhece que as drogas o "empurraram para outro mundo". Pouco depois, passa a mão na barriga da filha grávida e abre um sorriso. "Quero abrir uma barraca de sucos no centro", conta. "Voltei a sonhar, antes estava jogado, não queria saber de nada."

* Nome fictício. O pai de Mylena falou com a reportagem com a condição de não ter o nome divulgado, apenas imagens e declarações.

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