A relação da China com a mortífera epidemia de overdose que mata mais de 50 mil por ano nos EUA

Patricia Sulbarán Lovera

BBC Mundo

  • Getty Images

    O fentanil é frequentemente misturado à heroína

    O fentanil é frequentemente misturado à heroína

O traficante de drogas Leroy Shuarod Steele vendeu um analgésico tão potente a um de seus clientes no estado de Ohio, nos Estados Unidos, que o usuário morreu na hora, de overdose.

Em janeiro deste ano, Steele, de 36 anos, admitiu em um tribunal que ministrou, em março de 2015, a dose de fentanil na vítima, identificada apenas com as iniciais T. R.

Trata-se de um opióide sintético potente - 50 vezes mais poderoso que a heroína e cem vezes mais que a morfina -, usado legalmente para tratar dores crônicas. Nos últimos anos, porém, seu consumo abusivo levou a uma série de mortes no país.

O acusado confessou também ter adquirido o produto da China, para então distribuí-lo nas cidades de Akron e Fairlawn.

Porém, o caso esteve longe de comover as populações das localidades. Seus residentes se habituaram com as mortes provocadas pelo consumo do analgésico, uma das drogas que mais preocupam as autoridades americanas.

"É mais uma vida humana perdida por causa dos opióides trazidos da China para Ohio", disse, em janeiro, a promotora Carole Rendon, responsável pelo distrito em que ocorreu o delito.

As palavras de Rendon foram replicadas por outros funcionários em estados como Kentucky, New Hampshire e Virgínia Ocidental, onde, além de Ohio, as mortes por overdose de fentanil com heroína aumentam progressivamente desde 2011. Hoje, a situação pode ser considerada uma epidemia.

Os dados mais recentes são de 2015, quando o fentanil e outros opióides sintéticos similares mataram quase 10 mil pessoas nos EUA, 73% a mais que em 2014.

E a autoridade sanitária do país adverte que os números vêm aumentando.

A Administração para o Controle de Drogas (DEA, na sigla em inglês) destacou, em um relatório de novembro do ano passado, que o fentanil ilícito é responsável pela crise de overdose que assola o país.

E declarou que a China tem muito a ver com isso.

Fabricação

O gigante asiático é o principal provedor de fentanil ilegal e outros derivados aos Estados Unidos, segundo o documento da DEA.

A agência explica que a maioria das remessas de fentanil ilegal chegou por contrabando da China - e em menor escala, do México - através do correio americano.

Traficantes adquirem no país asiático o fentanil em pó, além de substâncias químicas associadas e máquinas para fabricar pílulas. O fármaco é processado assim que chega aos Estados Unidos, onde é misturado a outros componentes similares.

A China é uma fonte global de fentanil porque suas grandes indústrias farmacêuticas e químicas estão pobremente reguladas e monitoradas, apontou um comunicado deste ano da Comissão de

Revisão Econômica e de Segurança entre Estados Unidos e China (USCC, na sigla em inglês).

No entanto, a China investiu esforços internos para regular fabricação e venda de fentanil e seus componentes, através de negociações que começaram em 2015 com o governo americano.

A primeira ação de Pequim foi proibir, em outubro daquele ano, a produção e venda de mais de cem substâncias químicas sintéticas, entre as quais havia alguns compostos do fentanil.

Essas substâncias não eram reguladas na China porque não eram consumidas de forma abusiva.

Os americanos, por sua vez, anunciaram a abertura de um segundo escritório da DEA na China, e, em janeiro, o diretor da agência visitou o país pela primeira vez em mais de uma década.

Dois meses depois da viagem, Pequim adicionou à lista de substâncias proibidas quatro componentes-chave usados para fabricar fentanil, decisão que a DEA celebrou como um "ponto de virada" na luta contra o tráfico da drogas nos Estados Unidos.

"Após a proibição desses quatro componentes, é difícil afirmar se a China continuará sendo o principal provedor de fentanil nos Estados Unidos", disse um porta-voz da DEA à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

No entanto, a agência não registrou uma redução no número de vítimas por consumo de fentanil nos Estados Unidos.

Os esforços têm sido ressaltados positivamente por ambas as nações, mas a USCC adverte que a China tem tido dificuldades para monitorar o funcionamento de laboratórios farmacêuticos legais e ilegais.

Além disso, a ação conjunta desses países sobre o tema provocou um atrito diplomático, como explica Howard Zhang, editor do serviço chinês da BBC.

"O governo chinês negou, em várias ocasiões, que as drogas que exporta ou que costumava exportar fossem a causa de todas essas mortes por overdose nos Estados Unidos", disse Zhang.

Durante uma reunião sobre drogas das Nações Unidas em meados do ano passado, Liu Yuejin, vice-ministro chinês de Segurança Pública, disse que os países que consomem drogas ilegais "não têm justificativa ao exigir que apenas os países produtores de drogas combatam sua fabricação; também devem abordar o mercado de consumo".

Por correio e com bitcoins

Esse mercado de consumo, que segue crescendo nos Estados Unidos devido à alta incidência da dependência dos opióides, é uma oportunidade de negócio para os traficantes. Diante das proibições impostas pela China, eles buscaram formas alternativas para seguir fabricando o fentanil, mais viciante e barato que a heroína.

Um exemplo disso é a apresentação do fentanil para consumo. Autoridades americanas confiscaram pílulas do potente analgésico que se parecem com fármacos menos perigosos, como o alprazolam ou a oxicodona.

A venda, além disso, costuma ocorrer por meio da dark web, área encriptada na internet onde é possível realizar atividades ilegais. Com frequência, as transações são feitas com a moeda virtual bitcoin, impossível de se rastrear.

A distribuição também traz um problema, segundo funcionários americanos, já que uma grande quantidade de opióides, em especial o fentanil, entra no país por correio.

Este é um dos fatores por que alguns políticos americanos consideram que o assunto não depende da China, mas de reforçar internamente a segurança do serviço de correios.

Por isso, vários congressistas americanos propuseram este mês um projeto de lei para exigir uma tecnologia mais avançada no monitoramento eletrônico de todos os pacotes e envelopes grandes enviados por correio aos EUA.

No entanto, o serviço postal do país argumenta que adotar esta tecnologia custaria entre US$ 1,2 bilhão e US$ 4,8 bilhões (R$ 3,9 bilhões a R$ 15 bilhões) em período de dez anos e que prejudicaria as remessas.

Enquanto isto, os governos locais dos EUA terão que continuar lidando com as mortes por overdose, que desde 2009 superam aquelas causadas por armas de fogo, acidentes de trânsito, suicídios e homicídios - 52 mil por ano.

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