O país europeu que virou destino internacional de casais em busca de barrigas de aluguel

Kevin Ponniah - BBC News

A Ucrânia, um dos países mais pobres da Europa, vem se tornando destino cada vez mais procurado por quem busca uma barriga de aluguel. A remuneração pelo serviço, legalizado no país, tem atraído muitas jovens para o negócio - e o aumento da oferta gera temor de que as mulheres possam estar sendo exploradas em clínicas e agências.

Ana* tinha 18 anos quando soube do "mercado" de barrigas de aluguel em uma reportagem na televisão. Ela tinha acabado de concluir o ensino médio e tinha planos de trabalhar em um hotel em sua pequena cidade, aonde turistas vão para ver um castelo medieval.

No emprego, ela receberia US$ 200 por mês - mas descobriu que poderia ganhar cerca de US$ 20 mil para carregar o bebê de um casal que não conseguia ter filhos.

A família dela não é pobre, de acordo com o padrão de vida local. Sua mãe é contadora e sempre a sustentou.

Mas a jovem conta que acabou entrando no mercado da barriga de aluguel porque queria ter "algo a mais", conseguir comprar "coisas mais caras", um carro, por exemplo, ou pagar pela reforma da casa.

Embora centenas de mulheres estejam fazendo isso na Ucrânia, a prática de fazer barriga de aluguel ainda é um assunto pouco discutido no país.

Casais estrangeiros têm ido para lá desde 2015, quando os pontos onde a barriga de aluguel era praticada na Ásia fecharam suas portas, um por um, diante de relatos sobre exploração de mulheres. Barrados na Índia, Nepal e Tailândia, eles se voltaram para a Ucrânia, um dos poucos países em que a barriga de aluguel ainda poderia ser negociada rapidamente e com custos relativamente baixos se comparado aos Estados Unidos, por exemplo.

"Tem tantos casais sem filhos vindo para o nosso país - é quase uma esteira transportadora", ilustra Ana, que pediu para ter sua identidade preservada.

Quando tinha 21 anos, depois de ter trabalhado alguns anos no hotel, Ana decidiu finalmente entrar nesse mercado. Até então, ela já tinha uma filha e percebeu que poderia ser escolhida. De acordo com a lei ucraniana, uma mãe de aluguel precisa já ter um filho sua antes de se propor a carregar o de outra pessoa.

A lógica é que, se você tem seu próprio filho, a probabilidade de se apegar a um bebê que você precisará entregar logo após o nascimento é menor, conforme explicam aqueles que recrutam as mulheres para esse mercado.

Uma longa jornada

Ana começou a procurar sites em que agentes, clínicas e intermediários diversos publicavam seus anúncios.

Pouco tempo depois, ela já estava na capital Kiev para exames médicos. A jovem assinou um contrato com um casal da Eslovênia que não conseguia ter filhos. Ana teve sorte. O primeiro embrião colocado em seu útero foi implantado com sucesso.

Mas foi aí que a dificuldade começou. Segundo ela, a qualidade do tratamento dado a ela pela clínica caiu muito a partir daí. Algumas mães de aluguel apresentaram problemas de saúde na gravidez que não foram diagnosticados ou tratados corretamente no tempo certo, o que gerava complicações, conforme ela conta.

Ana postou suas reclamações online para alertar outras mulheres, mas acabou repreendida pela clínica - e hoje tem medo de citar o nome do local publicamente.

O bebê que ela teve nasceu saudável, mas a experiência como um todo deixou-a receosa. Ainda assim, ela já fechou outro contrato para ser barriga de aluguel, desta vez para um casal japonês. Eles estão lidando com as burocracias em Kiev para dar prosseguimento ao serviço.

Desta vez, Ana também está sendo mais prudente na escolha da clínica - e, se tudo correr conforme planejado, com apenas 24 anos ela já terá tido três filhos - o que vive com ela, um para o casal esloveno e outro para o japonês.

A capital europeia da barriga de aluguel

A demanda por barrigas de aluguel na Ucrânia "aumentou provavelmente cerca de 1.000% só nos últimos dois anos", afirma Sam Everingham, que faz parte da "Famílias por Barrigas de Aluguel", uma organização beneficente na Austrália que aconselha casais que buscam barrigas de aluguel.

"O país se tornou quase que acidentalmente um dos poucos que permitem o turismo de barrigas de aluguel", disse.

Além do fato de esse ser um negócio legalizado na Ucrânia, as leis liberais do país atraem mais e mais pessoas. Lá, é reconhecido que "pais intencionais" são os pais biológicos da criança desde o momento da concepção e não há limites sobre o pagamento para uma barriga de aluguel - algo que cria um mercado aberto onde mulheres podem pedir o quanto quiserem pelo "serviço".

Mas tudo isso não quer dizer que essa seja uma tarefa simples. Dependendo do país de origem, o processo de tirar o bebê do país pode se tornar um pesadelo burocrático, com casais de alguns países, incluindo o Reino Unido, tendo que ficar lá por meses.

Enquanto muitas clínicas na Ucrânia parecem estar operando de maneira transparente e tratando bem as mulheres, pessoas que trabalham nessa indústria e as próprias mãe de aluguel dizem que há situações precárias. Existem algumas histórias não comprovadas sobre embriões sendo secretamente trocados, e funcionários responsáveis por exames clínicos sobrecarregados, algo que os impossibilita de oferecer uma boa qualidade de tratamento.

"Nós temos visto exemplo em que agências ucranianas se recusam a pagar a mulher que atua como barriga de aluguel se ela não seguir os procedimentos rigorosos, ou se ela perder o bebê", disse Everingham. "Existem alguns exemplos terríveis em que agências efetivamente tratam mal as mulheres se as coisas não funcionam em benefício dos pais do bebê".

Olga Bogomolets, uma médica e parlamentar da Ucrânia que faz parte da comissão sobre saúde, diz acreditar que jovens mulheres têm sido levadas ao mercado de barrigas de aluguel como resultado da rápida queda do padrão de vida dos moradores do país. A economia foi atingida por uma grande recessão em 2014 e 2015, em parte por causa do conflito entre Ucrânia e Rússia.

A indústria, segundo Bogomolets, não é suficientemente regulamentada e essa falta de fiscalização pode colocar tanto as mães de aluguel quanto os pais que estão pagando pelo serviço em risco.

O ministro da Saúde ucraniano foi procurado, mas não quis comentar a questão.

Para Mark, que viajou com a esposa da Irlanda para a Ucrânia disposto a pagar pelo serviço em 2015, a escolha da agência e da clínica foi fundamental.

Sua experiência foi muito positiva. Seu filho nasceu em 2016, depois de inseminação usando seu esperma e um óvulo doado. Mark conta que os cuidados de saúde foram feitos corretamente, nos padrões de qualquer lugar da Europa Ocidental.

Eles tinham uma relação próxima com a mulher de 32 anos que foi a barriga de aluguel do casal - para quem eles pagaram a quantia combinada diretamente - e sua esposa foi convidada a assistir ao parto.

"Em nenhum momento, nem na clínica, nem na maternidade, nós ficamos com o sentimento de que a nossa barriga de aluguel estava sendo tratada como uma cidadã de segunda classe", conta Mark.

"Nós sabíamos por que ela estava fazendo isso. Ela tem uma filha - ficou grávida quando tinha 15 anos. Ela queria poder mandá-la para a universidade e dar à filha a oportunidade que nunca teve."

'Você sente o bebê chutar'

Para casais de Londres, Dublin ou Xangai, a decisão de contratar uma barriga de aluguel na Ucrânia é carregada de incerteza. Por isso, muitos pais acabam recorrendo a fóruns online na tentativa de sondar as clínicas com melhor reputação e trocar informações e histórias - algumas boas, outras ruins.

Pelo menos uma clínica, contudo, é conhecida por pagar a pais descontentes "somas significativas de dinheiro para escrever críticas brilhantes", conta Everingham, e a prática faz com que fique mais difícil para as pessoas saberem em quem confiar.

O Centro Médico Ilaya, em Kiev, aparentemente não seria um lugar que precisaria fazer isso. O estabelecimento alega ter uma "excelente reputação", o que faz com que tenha uma lista de espera de clientes potenciais.

Em uma sala de espera por ali, duas mulheres falam sobre a gravidez. Tetiana, uma mãe de três crianças, está na 30ª semana de gravidez de outro bebê para um casal espanhol. "Você sente o bebê chutar e você meio que conversa com ele", conta, sobre a experiência de carregar o bebê de outra pessoa. "Mas no subconsciente você sabe que aquele não é seu filho."

Tetiana vive com sua mãe, mas escondeu a gravidez dela dizendo que queria mudar para Kiev em busca de uma oportunidade de trabalho melhor.

Jana, que teve um filho dois meses atrás, aconselha Tetiana dizendo que ela precisa enxergar a barriga de aluguel como um emprego. Ela conta que, logo em seguida ao parto, o filho foi tirado dela quando ainda estava exausta na cama do hospital.

Jana admite que os sentimentos maternos afloram nessa hora e que ficou pensando na criança depois que voltou para casa."Você teria que ser uma pessoa muito fria para não sentir nada", diz.

"Mas quando você vê a alegria e os sorrisos dos pais biológicos, tudo acaba. Você percebe que tudo está bem com a criança e que os pais estão felizes."

De volta para casa com sua filha no oeste da Ucrânia, Ana também está pensando sobre seu papel como barriga de aluguel. Em breve, ela tomará um trem de sete horas de viagem até Kiev para a primeira tentativa de implantação do embrião do casal japonês.

Apesar de ser uma das partes mais difíceis do processo, ela está ciente do que a espera. E tem esperança de que poderá usar o dinheiro recebido para comprar seu próprio apartamento.

Ana também está orgulhosa do que fará pelo casal que a contratou.

"Quando eles te abraçam e te agradecem, você sente o quanto está fazendo por eles", diz. "Eles me disseram que eu era a pessoa mais importante da vida deles!"

Como funciona a burocracia da barriga de aluguel na Ucrânia

- Está disponível para casais heterossexuais, casados, que conseguem comprovar que não podem ter filhos por razões médicas.

- Pelo menos um dos pais precisa ter uma ligação genética com o bebê - doadoras de óvulos são usadas frequentemente.

- O custo varia de US$ 30 mil a US$ 45 mil, em média

- Os pais que contratam o serviço farão o registro ucraniano da criança; a mãe de aluguel não tem nenhum direito de pedir custódia do bebê.

- Estima-se que cerca de 500 barrigas de aluguel são contratadas todos os anos, mas há uma ausência de dados oficiais sobre isso no país.

- Barrigas de aluguel são legalizadas nos Estados Unidos, na Geórgia e na Rússia. Quênia e Laos são também destinos para o serviço, mas não têm leis para regulamentá-lo.

*Todos os nomes de mulheres que fazem barriga de aluguel citados nesta reportagem foram alterados

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