O dinamarquês que foi preso e acusado de 'extremismo' na Rússia por ser testemunha de Jeová

  • HRW/Testemunhas de Jeová via BBC

Mal o dinamarquês Dennis Christensen tinha começado a fazer uma pregação na casa em que se reunia com Testemunhas de Jeová quando o local foi invadido por policiais para prendê-lo.

Isso ocorreu há onze meses, no dia 25 de maio do ano passado, na cidade de Oryol, a 360 quilômetros ao sul de Moscou. A polícia e agentes do serviço secreto confiscaram uma Bíblia, livros com conteúdo religioso, laptops e discos rígidos na operação.

Christensen, de 46 anos, ainda está preso. O julgamento dele começa nesta terça. Se for declarado culpado de organizar atividades do que promotores do país veem como "organização extremista" pode ser condenado a até 10 anos de prisão.

Um mês antes de Christensen ter sido detido, a Suprema Corte russa havia proibido as atividades dos seguidores da religião Testemunhas de Jeová e ordenado o confisco de propriedades da organização no país, onde o grupo tinha 395 centros e cerca de 200 mil seguidores.

As autoridades russas consideram que o movimento religioso cristão é uma "ameaça aos direitos dos cidadãos, à ordem social e à segurança pública".

O Ministério da Justiça afirmou na época que o movimento distribuía panfletos que incitavam o ódio a outros grupos.

Um desses panfletos citava o escritor russo Leon Tolstói descrevendo a Igreja Ortodoxa Russa como superstição e feitiçaria.

As Testemunhas de Jeová são uma organização religiosa internacional, criada nos EUA no fim do século 19, que compartilha preceitos de outras correntes do cristianismo, mas baseia suas crenças numa interpretação própria da Bíblia; seus seguidores reconhecem o sacrifício de Jesus, que, segundo o site oficial das Testemunhas de Jeová, "veio à Terra para servir de exemplo aos homens, e depois de morto passou a governar o reino de Jeová (Deus) nos céus", mas não "adoram" Jesus.

Seus seguidores, estimados em cerca de 8 milhões em todo o mundo, são conhecidos pela pregação de porta em porta.

Apesar da proibição, o dinamarquês Dennis Christensen, que tem permissão de residência no país desde 2000, continuou os trabalhos religiosos da organização na Rússia.

De acordo com seus advogados, as acusações contra ele estão relacionadas também a outros incidentes ligados a atividades de incentivo a publicações religiosas, a manutenção de locais para culto e ao arrebanhamento de novos fiéis.

Preso por ler a Bíblia

Organizações de defesa dos direitos humanos questionam o encarceramento de Christensen e pedem que ele seja libertado.

"As autoridades russas estão buscando castigar uma Testemunha de Jeová por exercer seu direito a praticar sua religião", afirma Rachel Denber, diretora adjunta da organização Human Rights Watch para Europa e Ásia Central.

"Desde o princípio, os investigadores estão deformando a participação pacífica de Dennis Christensen para que a conduta dele se pareça com um delito. Ele não fez nada de mau e deveria ser liberado", completa Denber.

Dennis Christensen vive em Oryol há dez anos e é casado com uma russa. Apesar de participar com regularidade de encontros do movimento, ele nega pertencer ao comando das Testemunhas de Jeová na Rússia.

"Nunca foi membro da entidade legal, da organização religiosa local. É apenas um dos nossos crentes em Oryol. Nada especial", afirma Yaroslav Sivulskiy, porta-voz das Testemunhas de Jeová na Rússia à revista norte-americana Newsweek. "Eles o prenderam simplesmente por ler a Bíblia", salienta Sivulskiy, dizendo que agora a legislação permite acusações desse tipo. "Se copiam esse tipo de ação em outros lugares, não haverá mais lugar seguro. Podem ir a sua casa e onde for", lamenta o porta-voz.

A operação policial do dia 25 de maio do ano passado pode ser vista no YouTube. As imagens mostram agentes de segurança mascarados entrando num local onde dezenas de pessoas estão sentadas. Vestindo terno marrom e camisa preta, Christensen aparece dialogando com os agentes. Vários fiéis foram detidos, mas apenas o dinamarquês permaneceu preso.

Comparados ao EI

Ao proibir a atuação das Testemunhas de Jeová classificando-os como "extremistas" em abril do ano passado, a Justiça russa colocou os seguidores do grupo na mesma categoria dos militantes do autodenominado Estado Islâmico.

"Fundada nos EUA no século 19, as Testemunhas de Jeová têm sede mundial em Warwick (próximo à Nova York) e, junto com todos os grupos liderados por estrangeiros fora do controle do Estado, são vistos com profunda suspeita pela versão pós-União Soviética da KGB, o FSB, serviço federal de segurança", explica Andrew Higgings, correspondente em Moscou do jornal americano The New York Times.

Já faz alguns anos que as minorias religiosas do país começaram a sentir pressão do governo russo.

Uma lei antiextremismo aprovada em 2002 determinou que é ilegal - exceto para a Igreja ortodoxa ou outras instituições religiosas tradicionais no país - proclamar a oferta de um caminho para a salvação religiosa ou política.

Mas a Rússia, observa a ONG Human Rights Watch, é obrigada a proteger os direitos de liberdade religiosa e de associação por ser país membro do Conselho da Europa e signatário da Convenção Europeia dos Direitos Humanos.

"O caso contra Christensen e as investidas contra os adeptos das Testemunhas de Jeová viola o direito à liberdade de religião, nega-lhes o direito de culto e não pode ser justificado como medida necessária ou proporcional para proteger a segurança pública ou a ordem pública", avalia a organização de direitos humanos.

O caso de Christensen, destacou o jornal dinamarquês The Copenhagen Post, foi o primeiro de prisão de estrangeiro depois da nova lei russa. Yaroslav Sivulskiy, porta-voz das Testemunhas de Jeová no país, assegura que é a primeira vez que um seguidor da religião é preso desde o fim da União Soviética.

Muitos no país temem que não seja o último. As Testemunhas de Jeová reportam que desde que a nova legislação entrou em vigor, já contabilizaram 40 incidentes de agressão.

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