Topo

Brexit: o que escolha de Boris Johnson para premiê diz sobre rumos de saída do Reino Unido da União Europeia

Boris Johnson foi eleito com ampla margem como novo líder do Partido Conservador e premiê do Reino Unido - Toby Melville/Reuters
Boris Johnson foi eleito com ampla margem como novo líder do Partido Conservador e premiê do Reino Unido Imagem: Toby Melville/Reuters

23/07/2019 11h21

A novela do Brexit caminha para mais um capítulo. Nesta terça-feira (23), o Partido Conservador anunciou o resultado da eleição para escolher o novo líder da sigla e futuro primeiro-ministro do Reino Unido. É a pessoa que deverá conduzir, a partir de agora, a ruptura do país com a União Europeia.

Por 92.153 votos a 46.656, o ex-ministro de Relações Exteriores e ex-prefeito de Londres (2008-2016) Boris Johnson, líder da campanha pelo Brexit quando o plebiscito foi realizado em 2016, foi eleito, derrotando o adversário Jeremy Hunt, atual ministro de Relações Exteriores.

A primeira-ministra, Theresa May, vai deixar o posto na quarta (23), após ver sua proposta de acordo para a saída da União Europeia derrotada três vezes no Parlamento.

Tanto Johnson quanto Hunt são defensores do Brexit, mas o vencedor da eleição quer que o Reino Unido deixe o bloco europeu em 31 de outubro, com ou sem acordo e regras de transição.

Já Hunt tinha uma postura mais moderada e admitia a possibilidade de negociar uma prorrogação da data para negociar um entendimento que amortecesse o impacto do Brexit.

"Nós vamos entregar o Brexit, unir o país e derrotar Jeremy Corbyn (líder do Partido Trabalhista). Nós vamos concluir o Brexit até o dia 31 de outubro, com todas as oportunidades que ele nos trará", disse Johnson no seu primeiro discurso, após ser anunciado como vitorioso na eleição.

Com a escolha por Johnson será que o Reino Unido caminha mesmo para uma ruptura radical com a União Europeia? Qual o impacto disso para o país? E de que maneira o Brasil poderá ser afetado?

Que cenário o novo premiê vai herdar

O novo primeiro-ministro vai herdar a crise política que permeia o Brexit e que já derrubou dois premiês (além de May, David Cameron, que renunciou diante dos resultados pró-Brexit do plebiscito realizado em 2016).

Depois de dois adiamentos a pedido do governo britânico, a data para o Brexit foi marcada para o dia 31 de outubro. Há pouca esperança de que seja possível encontrar um entendimento até essa data.

Por isso, muitos defendem um novo adiamento da data. Mas Boris Johnson adotou como plataforma de campanha a ideia de que concretizaria o Brexit "o mais rápido possível", ainda que isso signifique uma ruptura sem qualquer acordo.

A proposta sobre os termos da saída do Reino Unido elaborada enquanto Theresa May estava no posto de primeira-ministra acabou sendo alvo de críticas tanto dos grupos pró-Brexit quanto dos que defendem um novo plebiscito capaz de revogar o Brexit.

Entre os principais pontos do acordo estavam um período de transição de 21 meses para o fim das regras de livre comércio, para que o Reino Unido pudesse negociar acordos comerciais e normas alternativas que pudessem evitar prejuízos a empresas britânicas que exportam para a União Europeia e desabastecimento de produtos que chegam dos demais países europeus ao território britânico.

Também estavam previstos no acordo garantias para que os europeus que já vivem no Reino Unido possam permanecer no país e que os britânicos que vivem em países europeus também pudessem continuar a viver e trabalhar nessas nações.

Além disso, o Reino Unido teria que pagar uma multa de 39 bilhões de libras (cerca de R$ 181 bilhões) à União Europeia por romper o contrato de integração regional.

Mas os defensores de um Brexit radical não queriam pagar essa conta, nem se manter atrelados a regras aduaneiras por todo aquele período de transição.

Já os pró-União Europeia querem um acordo que permita que o Reino Unido continue a fazer parte da união aduaneira e do mercado comum, ou seja, que os produtos exportados e importados entre Reino Unido e o bloco europeu continuem isentos de tarifas e que seja garantida a livre circulação de pessoas, bens e serviços.

Alguns parlamentares, principalmente do Partido Trabalhista, defendem inclusive um novo plebiscito capaz de revogar o Brexit.

Tanto o grupo dos defensores de um Brexit radical quanto os pró-União Europeia se recusaram a ceder durante as últimas negociações, com a esperança de que suas posições prevalecessem.

Ou seja, caberá a Boris Johnson a tarefa de chegar a uma solução.

Mas qual é a tendência?

Johnson tem dito que, se for escolhido premiê, se comprometerá com o prazo do Brexit de 31 de outubro, mesmo na ausência de um acordo com o bloco europeu.

"Caso contrário, enfrentaremos uma catastrófica perda de confiança na política", declarou.

Ele também disse que se recusará a pagar a "conta" do Brexit - a soma de 39 bilhões de libras que a União Europeia exige como compensação - a não ser que sejam oferecidos termos de negociação mais favoráveis ao Reino Unido.

Johnson foi chanceler por dois anos durante o governo de Theresa May e deixou o posto depois de várias desavenças públicas com ela por conta do Brexit.

Em junho de 2018, por exemplo, ele declarou que a então premiê precisava mostrar "mais coragem" nas negociações com a UE - e, nisso, contou com apoio explícito do presidente americano, Donald Trump, que mais tarde disse que Johnson faria um "grande trabalho como premiê" e daria um jeito no que chamou de "desastre" de May no Brexit.

Recém-eleito, o futuro premiê retomará as negociações com líderes europeus sobre o Brexit. É possível que líderes do bloco sugiram uma extensão do prazo para o Brexit, o que é defendido por todos os setores que querem um acordo ou um novo referendo.

Mas os principais eleitores de Boris Johnson tendem a ficar frustrados caso o novo primeiro-ministro opte por uma saída cautelosa e prorrogue uma vez mais a saída do Reino Unido.

A expectativa é que o future premiê adote uma postura mais agressiva nas negociações com a União Europeia, mas não se sabe se a estratégia será eficaz. Afinal de contas, os líderes europeus já disseram que não vão ceder e que o acordo negociado por May é o "único possível".

Quais as consequências de um Brexit sem acordo?

As possíveis consequências do chamado "no deal", que é o Brexit sem acordo, assustam. O Banco da Inglaterra, o equivalente ao Banco Central brasileiro, prevê que esse caminho levaria o Reino Unido a uma recessão pior que a provocada pela crise financeira internacional de 2008.

A previsão, segundo a instituição, é que a economia britânica encolha em 8% logo após após a saída do bloco europeu, se não houver um período de transição. O Banco da Inglaterra também previu que a libra, hoje uma das moedas mais fortes do mundo, perderia um quarto de seu valor.

Segundo o Tesouro britânico, um Brexit sem qualquer acordo ou período de transição causaria impacto negativo para a economia britânica de 90 bilhões de libras até 2035.

No dia a dia, essa ruptura poderá provocar preços mais altos para alimentos comprados nos supermercados, já que 28% dos produtos alimentícios consumidos no Reino Unido são importados da União Europeia.

Segundo especialistas, passagens aéreas e viagens em geral para a Europa devem ficar mais caras, assim como bens industrializados comprados de países europeus. Há ainda o temor de que empresas entrem em falência pela dificuldade de importar e exportar produtos e manter profissionais capacitados.

Mas os defensores do "no deal" dizem que esses cenários são exagerados e que a ruptura com a União Europeia permitirá dinamismo econômico e autonomia para que o Reino Unido firme acordos de comércio vantajosos com o restante do mundo, como Estados Unidos, nações africanas e América Latina.

E o Brasil com isso?

Há visões conflitantes sobre os riscos e oportunidades que o Brexit oferece para o Brasil. Por um lado, com um Brexit sem acordo, o governo britânico será obrigado a buscar com urgência acordos comerciais para suprir a compra e venda de produtos originalmente comercializados com países europeus e que passarão a ser tributados.

A principal preocupação é evitar o desabastecimento. Países provedores de commodities, como o Brasil, podem aproveitar o momento para viabilizar acordos que aumentem a exportação de alimentos e outros produtos básicos para o Reino Unido.

Por outro lado, o Mercosul (grupo integrado por Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina) acaba de firmar um acordo de livre comércio com a União Europeia, que ainda precisa ser ratificado. Sem a presença do Reino Unido, o Brasil perde um dos mercados consumidores e exportadores de produtos sem tributação.

Além disso, pesquisas apontam que empregos na agricultura brasileira podem ser imediatamente afetados com o Brexit.

Um estudo do Instituto Halle de Pesquisa Econômica (IWH), da Alemanha, que considera o cenário em 43 países, calcula que quase 10 mil trabalhadores em território brasileiro poderiam ser afetados em dezenas de setores ligados às exportações, mas principalmente na agricultura, atividade em que o país se destaca como maior fornecedor da União Europeia.

Isso, claro, se o acordo entre Mercosul e União Europeia não entrar em vigor até a data do Brexit.

Internacionalmente, há previsão de que o Brexit radical (sem a permanência em um mercado comum) afete 600 mil empregos, com um baque maior na Alemanha. Sozinho, o país teria aproximadamente 100 mil vagas "em risco", a maioria em funções ligadas à produção e comércio na indústria automotiva. Países como China, França, Polônia e Itália, seriam, nessa ordem, os outros quatro da lista mais afetados.

No caso do Brasil, os efeitos seriam indiretos.

"Mais de 5 mil dos 10 mil empregos estariam em risco na agricultura brasileira. Outras atividades sentiriam menos", diz em entrevista à BBC News Brasil Oliver Holtemöller, chefe do departamento de macroeconomia e vice-presidente do instituto, um think tank membro da Associação Leibniz, que reúne institutos de pesquisa alemães de diversos ramos de estudo.

Empresas estão receosas

Para tentar ajudar o empresariado brasileiro a minimizar riscos e aproveitar eventuais oportunidades quando o Brexit se tornar realidade, a Embaixada do Brasil em Londres e a Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) lançaram uma plataforma que promete monitorar futuras mudanças tarifárias e logísticas, além de novas exigências alfandegárias e legais.

Os dois órgãos também tentam medir as expectativas dos exportadores e o que chamam de "apetite" dos empresários brasileiros pelo mercado britânico. Para isso, enviaram um questionário para cerca de 2 mil empresas no Brasil, a maioria delas com histórico de exportação para o Reino Unido.

Mas, até abril, apenas 40 empresas tinham respondido ao questionário, entre elas companhias de pequeno, médio e grande porte, estas com até 20 mil funcionários, que atuam em segmentos distintos como o de calçados, alimentação e bebidas, agronegócio e máquinas.

Sete entre dez empresas que responderam à pesquisa acreditam que o impacto do Brexit deve ser negativo.

O pessimismo está relacionado a um eventual aumento de custo e da burocracia em negócios com Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales. Empresários citam temores como a ampliação de gastos com logísticos e alfandegários, maior carga tributária, entraves relacionados às exportações via Europa, exigências de novos certificados e imposição de barreiras tarifárias e não tarifárias.

Mas há também quem veja a saída dos europeus do bloco como uma oportunidade, a exemplo de empresas que atuam no mercado de café.

Segundo empresários entrevistados na pesquisa, há, entre possíveis impactos positivos, a possibilidade de melhoria das condições de competitividade dos produtos brasileiros, seja por imposição de impostos de importação aos produtos europeus, seja por redução de tarifas para a produção brasileira.

Mais Internacional