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'Zona sul consome drogas e quem paga o pato são as comunidades', diz Eike sobre lições de Bangu

07.jul.2019 - O empresário Eike Batista durante evento "Empreende Brasil" - Fabricio de Almeida/Imagem & Arte
07.jul.2019 - O empresário Eike Batista durante evento "Empreende Brasil" Imagem: Fabricio de Almeida/Imagem & Arte

Ricardo Senra - @ricksenra - Da BBC News Brasil em Londres

23/07/2019 18h29

"Pobreza é relativo." "Querer ser o homem mais rico do mundo" foi "frase estúpida". "Ser um pavão no meio da comunidade miserável não tem graça nenhuma." "O Brasil cresce que nem rabo de cavalo, para baixo e para trás." "Não confio em empresário que não errou." "Eu me considero sinceramente humilde."

Aos 62 anos, em um retorno aos holofotes depois de "cinco anos hibernando para resolver megaproblemas", o magnata Eike Batista continua uma metralhadora de frases de impacto.

Após uma queda livre do posto de sétimo homem mais rico do mundo, dono de uma mansão com um carro de luxo na sala de estar, para a bancarrota, com direito a fotos em um camburão nas páginas policiais de jornais, Eike promete voltar ao topo por meio de um "retorno às origens".

"Estou voltando à área de mineração com ouro, fertilizantes, e outros, e também na área de nanotecnologia, na área química e na área de materiais, onde está o grafeno e a hidroxiapatita", diz.

O caminho inclui investimentos em dez novos unicórnios, palavra que repete diversas vezes em mais de uma hora de entrevista à BBC News Brasil. "Unicórnios são aqueles investimentos que têm potencial de rapidamente render bilhão de dólares. E o meu negócio essencialmente é vender minha expertise para esses negócios."

Ele recorre em liberdade de uma condenação de 30 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro - segundo a sentença do juiz Marcelo Bretas, do braço fluminense da Operação Lava Jato, Eike pagou US$ 16,6 milhões (o equivalente na época a R$ 51,9 milhões) ao então governador Sergio Cabral (MDB). Também foi condenado a uma multa de mais de R$ 500 milhões por falta de transparência em negociações de ações da petroleira OGX.

Eike rebate todas as acusações, ao mesmo tempo em defende a meritocracia ("Total, né? No fundo, não importa etnia") e que afirma ter se transformado após três meses na cadeia - um lugar "desumano", nas palavras do empresário.

"Aprendi lá em Bangu que tem muita gente que vai para lá, jovens, que não são ressocializados. Isso para mim é gravíssimo", diz. "A gente tem que entender que aquele jovem virou um avião e transportou não sei o que e foi pego no transporte e está ali por um tempo que não deveria."

O empresário ficou pobre, como muitos dizem nas redes sociais? Ele mesmo responde - confira a seguir os principais trechos da entrevista e assista à versão mais longa no canal da BBC News Brasil no YouTube.

BBC News Brasil - O senhor ainda mora naquela mansão do Jardim Botânico?

Eike Batista - Sim, eu moro naquela casa que eu construí 40 anos atrás.

BBC News Brasil - Muita gente disse, logo depois que a tormenta começou, que Eike teria ficado pobre. Não parece ser bem assim.

Batista - Na verdade, o meu verdadeiro patrimônio está na minha cabeça. Olha, pobre é muito relativo. Eu sou um cara modesto, de família de classe média. Óbvio, moro numa casa bacana, muito bonita, mas é um patrimônio que eu construí com os negócios que criei. Na vida do dia a dia, eu não sou um cara de badalar. Você nunca me viu em festas. Se eu saí em dez festas em dez anos, é muito. Então, você pode ter uma vida bem modesta. Eu gosto mesmo é de trabalhar. Ir do meu escritório para casa, tenho um filho pequeno que me dá muita alegria. É isso.

BBC News Brasil - Modesto, mas tinha uma Lamborghini brilhante na sala de estar.

Batista - É, mas essa Lamborghini já estava bloqueada há muito tempo. Eu só estava lá como fiel depositário. Não podia usar.

BBC News Brasil - Doeu vê-la ir embora?

Batista - Não, de novo, são bens materiais e não me apego a isso, não. Até pela maneira que eu consertei as minhas empresas: eu não me importei em abrir mão do meu patrimônio para resolver com credores e deixar os projetos, na verdade legados, continuarem. Esse desprendimento da riqueza. Em vez de brigar na Justiça, eu preferi abrir mão e vendi meus ativos muito barato para novos sócios que assumiram todas as obrigações e colocaram esses maravilhosos projetos em produção.

Você vai se surpreender se eu disser que hoje as empresas empregam mais do que antes. Então, ao contrário das empreiteiras, que demitiram dezenas de milhares de trabalhadores, eu não, os meus projetos continuaram. A minha empresa de petróleo foi a única que realmente foi megarreduzida, mas ela foi sempre um investimento de alto risco. Eu achei que poderia ganhar muito com ela e na verdade esses projetos de petróleo têm esse lado de alto risco, inclusive é importante sempre frisar que, em investimentos dessa natureza, é a natureza que arbitra você de certa maneira. A nossa perspectiva era uma e quando chegaram os resultados eles foram um terço, ou menos, e isso causou na verdade o efeito dominó em todas as empresas que a gente tinha e que me forçaram a vendê-las baratas. Mas eu nunca deixei nenhuma delas morrer. Mais uma prova desse desprendimento de dinheiro.

BBC News Brasil - O que o sr. está fazendo agora além de escrever em caixa alta no Twitter e bater papo com a garotada por lá?

Batista - Ah, caixa alta é meu pai. Na idade mais avançada, ele tinha dificuldade para ler a letra pequena e achava importante escrever assim e me habituei. Acho que a gente tem que ter a liberdade de escrever como acha certo, então eu escrevo em caixa alta. Em relação aos unicórnios, eu voltei à minha origem, que é a mineração, onde construí 12 minas no Brasil, no Chile, nos EUA, no Canadá, e onde eu sempre tive sucesso. Então, estou voltando à área de mineração com ouro, fertilizantes e outros, e também na área de nanotecnologia, na área química e na área de materiais, onde está o grafeno e a hidroxiapatita.

De novo, unicórnios são aqueles que têm potencial de rapidamente render bilhão de dólares. E o meu negócio essencialmente é vender minha expertise para esses negócios e como resultado ganhar um percentual grande desses ativos. Muita gente tem ativos e não sabe polir eles. Você pode olhar um monte de diamantes numa mesa e um cara vai te dar um preço por aquilo, mas eventualmente tem uma pedra ali que vale dez vezes o preço. Então eu sei identificar e engenheirar projetos, especialmente na área mineral.

BBC News Brasil - Houve um hiato, né? O senhor ficou um tempo fora dos holofotes. O que um homem que teve uma queda tão grande tem a ensinar a essa nova geração que está curiosa em te ouvir?

Batista - Eu fiquei cinco anos hibernando para resolver esses megaproblemas. Resolver US$ 25 bilhões em dívidas, reestruturar isso de maneira que os projetos ficassem em pé, para mim foi um orgulho e muito trabalho. Não tinha muito o que se falar nessa fase. Em paralelo, comecei a cultivar esses novos unicórnios e o que tenho a dizer para os jovens é: olha, se você tem boas ideias, sonhos, obstinação, é uma parte fundamental disso. Mas também não aquela obstinação boba. Gaste até 10% do seu capital eventual para estudar profundamente o negócio que você está pretendendo fazer.

Faça uma pesquisa de mercado se você, sei lá, está abrindo uma padaria, uma franquia, e não entre no oba-oba. Vejo muito que muita gente acha que sua ideia foi espetacular, que o produto que vai produzir na padaria é o melhor pão da praça. Tenha a humildade de fazer um estudo ao seu redor. É o que eu chamo de método 360 graus de você estudar os assuntos. Você tem que ser bom na engenharia de pessoas, na engenharia jurídica - a papelada tem que estar toda em ordem, engenharia de pessoas - você tem que escolher as pessoas certas. Eu não tinha bola de cristal para avaliar desonestidade de pessoas com falta de caráter. Isso me força hoje a ficar mais próximo de todos os negócios e realmente analisar pessoa por pessoa. Isso bate muito no empresário que está começando porque você tem que escolher ou o sócio certo e ou os colaboradores certos.

BBC News Brasil - Autoavaliação: em que o sr. mudou, lá da pujança, no início dos anos 2000, até aqui? O que aprendeu naqueles três meses em Bangu, em que é diferente hoje?

Batista - Olha, primeiro, aquela frase estúpida de "eu quero ser o mais rico do mundo..." Eu quero ser o mais generoso, se existe isso. Quero ser um cidadão que consiga ajudar a comunidade mais ainda. Segundo, eu aprendi lá em Bangu que tem muita gente que vai para lá, jovens, que não são ressocializados. Isso para mim é gravíssimo. A mídia fala muito disso também, outro dia vi um negócio do (Drauzio) Varella, aquele médico que era médico em presídios também. Ele obviamente falou com muita propriedade sobre isso também. A gente precisa fazer algo para aqueles jovens não ficarem lá dentro e serem ali aliciados para facções e tudo mais. Isso realmente não pode acontecer. Não sei, vou tentar bolar fórmulas aí, assim que eu começar a gerar riqueza de novo numa escala para poder mudar esse quadro. Não sei direito ainda, mas ali eu aprendi isso. Ali acontecem injustiças que... Pegando o que você falou, né? A gente tem que entender que aquele jovem virou um avião e transportou não sei o que e foi pego no transporte e está ali por um tempo que não deveria.

BBC News Brasil - O sr. considera a legalização das drogas um caminho?

Batista - Olha, se estão fazendo no mundo e está funcionando... Eu não sou estudioso nessa área e não queria opinar muito nisso, não, porque vão usar isso de alguma maneira, então não quero opinar porque não sou expert na área. Mas eu sinto que a criminalização como é, porque quem consome é a zona sul, né? Eu por acaso não consumo e isso não faz parte da minha vida. Mas a zona sul consome e quem paga o pato na hora do embate são as comunidades mais carentes. Então tem um erro aí. Não é pode ser!

BBC News Brasil - O sr. aprendeu isso em Bangu?

Batista - Não, eu já tinha essa consciência antes, mas lá você vê um jovem, uma pessoa em formação, que é jogada em um ambiente que... Se as cadeias fossem lugares para ressocialização, tudo bem, como na Europa, sei lá, em outros lugares, mas as instalações não são adequadas. Outra coisa que é uma vergonha, esse negócio das quentinhas, onde também tem corrupção, na maior parte das vezes o arroz não tinha nem sal, né? Você pode confundir aquilo com plástico, você tá comendo um plástico. Então é muito desumano.

BBC News Brasil - Qual foi a cena mais forte? Aquela que você não esquece...

Batista - Eu sou um cara comunicativo, eu me integro. Só para lembrar, eu comecei minha vida comprando ouro em garimpo. Eu dormia numa rede. Então, as pessoas não sabem avaliar... Ah, o Eike bilionário. Não, não, não. Eu sou um jovem de classe média que teve uma educação fantástica, e pai e mãe como excelentes exemplos. Mas viver a coisa simples, para mim não importa. É um desafio, passei por isso, você aprende sempre. Acho que sempre, com as pessoas que me conhecem, eu sou um cara humilde. Acho que, falando com a mídia, que eu percebia sempre como provocativa, na minha visão, e não entendia o tempo que era necessário para projetos funcionarem, eu me considero um cara sinceramente humilde.

BBC News Brasil - Um argumento que o sr. deu para a Justiça e tem repetido é que você não sabia do que estava acontecendo, do suposto esquema de propinas ou pagamentos, mas que talvez houvesse pessoas a seu redor que soubessem e estivessem fazendo esses atos. "Não ter bola de cristal" é o argumento mais frequente em casos de corrupção. Como quer que se acredite que o sr., este "homem 360" como mesmo se apresenta, não saberia?

Batista - Acabei de falar: você não tem bola de cristal, numa empresa de 20 mil funcionários, para saber o que todo mundo está fazendo. Talvez mais importante do que tudo, a gravação onde o réu confesso Sérgio Cabral diz com clareza que "com Eike Batista não teve toma lá dá cá". Nunca teve, essencialmente por quê? Os meus projetos começaram sempre quando não tinha nada. O meu superporto (Porto do Açu), que hoje todo mundo preza como um imenso legado, que é, nasceu numa fazenda que tinha bosta de vaca, não tinha nada lá. Inclusive a placa de inauguração foi na época da ex-governadora (Rosinha) Garotinho. É até curioso. Com certeza, o governo, prefeituras e governadores, eles quando não viam nada deviam achar: "esse Eike aí vai investir muito dinheiro, vai empregar gente e para nós é bom, mas ele deve ser totalmente louco". Porque eu desenhava coisas que muita gente, inclusive a mídia, dizia que não ia ficar pronto, que ia afundar, que já afundou. E hoje está aí esse colosso que serve o Brasil. Principalmente o Brasil do pré-sal, sem o Açu, ia ter grandes dificuldades de ser desenvolvido. Só para dar um exemplo de que os meus negócios não precisavam de autoridades. Eu nunca tive um contrato com o governo! Eu não prestava serviços, não tinha nada para oferecer, nunca recebi um cheque deles.

BBC News Brasil - Mas, o sr. queria, por exemplo, administrar o Maracanã...

Batista - Não, olha que engraçado. Eu queria colocar o conteúdo da minha empresa IMX, a empresa que tinha conteúdo. Dentro da IMX eu tinha o Cirque de Soleil, o ATP de tênis, enfim. Era uma empresa de eventos, que hoje pertence a Mubadala (Development Group) - eles chamam de IMM - e depois levar o conteúdo lá para dentro. Então, nós saímos. Eu era simplesmente alguém que ia aportar conteúdo, não ser sócio do negócio. No início até interessou. Depois, quando entraram os empreiteiros, não preciso te dizer que eles me tiraram de tudo o que é negócio. O meu estaleiro do Açu não recebeu uma encomenda de navios porque já estava alocado para eles. Eu não tenho nada a ver com isso e agora está na hora de falar isso porque, de novo, a oportunidade do próprio Sérgio Cabral, onde se criou essa acusação inicial comigo, (disse) "com Eike Batista nunca teve toma lá da cá" porque eu nunca precisei.

BBC News Brasil - O sr. emprestava o seu avião para Sérgio Cabral por quê?

Batista - Excelente situação. Eu tinha três aviões e o governador sabia que o meu avião estava no pátio e muitas vezes me perguntavam: "ah, o governador pediu um negócio que fica difícil você negar". Só para lembrar que é importante, e quero te questionar se você sabe disso: houve aquele infeliz acidente, acho que com um familiar da família Cabral, e eu aproveitei logo em seguida a oportunidade para dizer "Eu nunca mais empresto um avião para políticos". Você lembra disso?

BBC News Brasil - Não me lembro.

Batista - Então, por favor! Foram três vezes que emprestei o meu avião, nessa base do "pô, me empresta aí, eu sei que o avião está lá", você empresta mesmo. E a infelicidade que aconteceu com esse acidente, eu aproveitei a oportunidade e disse, olha, eu nunca mais empresto as minhas aeronaves para políticos e foi o que aconteceu.

BBC News Brasil - O sr. decidiu limpar a lagoa Rodrigo de Freitas: pelo que entendi, foi uma retirada de sedimentos do fundo que gerava uma mortandade enorme de peixes. Isso foi um favor para o Rio de Janeiro? O almoço era de graça para o governador do Rio? Você limpou a lagoa por caridade?

Batista - Eu limpei a lagoa pelo meu profundo senso de comunidade. O governador não tinha nada para me dar. O que ele tinha para me dar? Nada, não tinha nada. Obviamente temos governadores que enxergam projetos que começam como nada e vão virar coisas muito grandes, mas são poucos. E eu coloco a mídia nisso também. No quarto, quinto ano, quando eu era muito cobrado por atrasos e tudo mais.

BBC News Brasil - Minha pergunta é se o sr. não percebeu algo de esquisito no comportamento do Cabral? Não estamos falando de um esquema pequeno de corrupção.

Batista - Ricardo, veja bem. Os empreiteiros me quebraram, né? Na encomenda das plataformas, eu construí um estaleiro, gastei bilhão num estaleiro, porque da mesma maneira que o meu conceito de gerar energia era o mais barato e eu ia ganhar o leilão, os equipamentos que a Petrobras encomendava, encomendava só com carta marcada. Então, eu estava fora. Eu não fazia parte desse grupo. Eu nunca fiz. Só para você saber, que é importantíssimo: nenhuma dessas empreiteiras da Lava Jato trabalhou nos meus projetos. Curioso, né?

BBC News Brasil - E se o Cabral tinha esse esquema com as empreiteiras, como o sr. mesmo está dizendo, por que ele não te assediaria?

Batista - Porque ele não tinha nada para me dar. Eu não tinha um contrato seja de prestação de serviços, ou construir alguma coisa. O governador participava do negócio do Metrô, tinha que ser a canetada dele lá para a empreiteira poder cobrar um bilhão, dez bilhões, e pagar de volta, né? Eu não tinha nada para receber do governador! Nada, absolutamente nada. Eu não tinha quentinha para oferecer, para receber dinheiro de alguma secretaria... Nada! É tão óbvio.

Você sabe disso: uma mentira dita duas ou três vezes, ela vira uma verdade. Quando ela é escrita, então, e eu estudei isso um pouco, isso é gravado aqui em uma parte do cérebro, fica marcado de uma maneira que a mentira vira verdade mesmo. E, hoje, o triste é o seguinte: na mão de outros, o que? Todo mundo está feliz que o porto do Açu hoje pertence a empresas estrangeiras. Tudo bem, que estejam. Poderia estar na mão de um brasileiro. Mas vou fazer o quê? Essa história foi assim que aconteceu.

BBC News Brasil - O sr. acredita em meritocracia?

Batista - Total, né? Eu acho que só. No fundo, não importa etnia... Se você tem o mérito, se você for o cara que trabalha mais, tem boas ideias, consegue colocá-las em prática, né, eu acho que na China é assim, nos EUA é assim. Os números do Brasil são mais ou menos esses: 70% do PIB, ou mais até, são constituídos pelo micro, pequeno, médio e grande empresário, né? Somos nós que carregamos a carga dos empregos nas costas, né? Então, numa empresa privada, é sempre o mérito. É aquele cara que está trabalhando algumas horas a mais e quer ganhar um extra para dar uma vida melhor para a sua família, é o taxista que em vez de trabalhar oito horas como trabalha alguém numa companhia trabalha 12 horas, e trabalha mesmo, isso é tudo mérito. Ele ganhou mais porque trabalhou mais. É muito simples.

BBC News Brasil - É tão simples assim? Eu estou aqui imaginando o garoto do morro dona Marta, ali perto da sua, perto de onde estudaram os seus filhos. Para ele a trajetória é tão simples quanto o que você descreve? O seu mérito é tão facilmente alcançável para alguém que não nasceu numa família de descobridores de ouro, como é o seu caso?

Batista - Lógico, poxa, cada um nasceu no berço em que nasceu. E você tem razão: o Brasil é um dos países com maior desigualdade econômica do planeta, e é triste pensar nisso. Mas no fundo... educação... Você fala muito do meu pai, mas meu pai não acumulou muito patrimônio porque nós sete filhos consumimos tudo o que ele tinha. Porque, só para lembrar, na época dele, na geração dele, mesmo sendo presidente de empresas estatais, você ganhava o suficiente para pagar a conta de sete filhos, que é educação, comida. Então, o patrimônio da minha família foi educação. Mas aí, se você está comparando com alguém de comunidades, realmente, educação é o que dá esse lastro, cara. Eu sou o que eu sei. Isso ninguém me tira. Patrimônio se vai, mas minha cabeça não se vai. Ela está aqui e enquanto ela funcionar... Então, educação é essencial para todos.

Com o advento da internet, o ser humano tem acesso a toda informação do mundo. O importante é saber processar essa informação porque tem informação demais, né? Você está abarrotado de informação, o difícil é saber o que é importante nessa avalanche, nesse tsunami de conhecimento a que todos têm acesso. Em 2002, 60% ou 70% da população brasileira não tinham um telefone. O fato de hoje, imagino que 90% dos brasileiros tenham telefone... Ali você tem informação infinita. Desde poder comprar coisas mais barato, que é uma coisa prática do dia a dia, seja a informação de um jovem desse da comunidade que se interessa por química, pelo mundo da nanotecnologia. Vai ler, está tudo aí. Qualquer pessoa acessa a livraria do Congresso dos Estados Unidos. Você já acessou ela, por acaso?

BBC News Brasil - Eu já.

Batista - Desculpa, desculpa.

BBC News Brasil - O caminho da meritocracia é diferente para um cara com acesso a educação em relação a outro que tem todos os percalços de alguém com difícil acesso ao básico: a alimentação, educação etc?

Batista - Claro, né? Por isso que o nosso sonho como brasileiro devia ser que, como nos países escandinavos, que todos os jovens tenham acesso a informação infinita, bem assessorados, porque você precisa de um professor para te orientar, né? Se não também, como eu falei, há excesso de informação e você tem que meio focar numa hora, né, você não pode também fazer tudo? Então, sim, o sonho é que todos tenham a mesma chance.

BBC News Brasil - E enquanto isso não acontece, a meritocracia funciona plenamente?

Batista - Meritocracia, vamos lá. Imagino que um jovem hoje que more numa comunidade, que trabalhe, queira buscar... Estou vendo hoje aqui esses serviços de entregas que estão explodindo no Brasil, de entregas, uma espécie de Uber mais modesto, que você pode usar uma bicicleta, uma moto. Imagino que começa a ser uma oportunidade de ganhar um dinheiro, obviamente quem trabalhar mais ganha mais, mas a possibilidade de sentir a meritocracia já começa aí. Mais de dez anos atrás, nãos e tinha crédito para comprar uma moto. Hoje, se não me engano, com R$ 200 você paga uma cota para a compra de uma motocicleta. Então, tem que ter mais disso. Muito mais disso. E o objetivo, na essência, para o futuro, é que a gente seja um país mais igual. Eu sempre digo: ser um pavão no meio da comunidade que é miserável não tem graça nenhuma, não tem graça nenhuma.

A gente nunca fala isso, mas eu investi do meu dinheiro mais de R$ 500 milhões em várias coisas sociais. Tenho orgulho que já fizemos mais de 15 mil operações de coração em crianças aqui no hospital Jutta Batista. Dar de volta à comunidade foi algo que a minha mãe ensinou aos sete filhos. A gente tem que devolver para a sociedade. Eu conheço muitos brasileiros numa certa classe social que acham que a meta é morar em Miami, em Portugal. Se eu fico 97% do meu tempo no Brasil, é porque eu adoro isso aqui. E a maior parte desses empresários acham que aqui estão de passagem. Eu não estou de passagem, e eu espero que você também não.

BBC News Brasil - Falando em passagem, o sr. está com seu passaporte, Eike? Você pode viajar?

Batista - Não, eu tenho que pedir autorização para viajar, aí eu poderia. E como eu não pedi... Como eu falei, adoro o Brasil...

BBC News Brasil - O que falta, na sua opinião, no brasileiro para que o Brasil melhore?

Batista - Educação, educação, educação. Muito de casa. Com 62 anos, você começa a estudar o ser humano. E você vê que caráter tem que vir de casa. É de casa que o pai e a mãe colocam a semente de que olha, isso aqui não é seu... Isso vem de casa. Então, educação, educação e até a dos pais. Não sei quanto tempo vai demorar para o Brasil morar como um todo, mas é isso que acredito.

BBC News Brasil - Em torno do senhor existe uma imagem muito forte de um cara que transforma dinheiro em muito dinheiro. O cara que transforma um investimento talvez modesto ou comum em um unicórnio bilionário. Me dá cinco dicas? Para o cara que está bem longe disso, o dono da padaria, o cara que está se formando na universidade?

Batista - Primeiro, tenha fome incansável pelo conhecimento. E se você tem paixão por uma área específica, que cada um de nós é diferente... que seja o cara que quer fabricar prancha, por exemplo. Que ele venha buscar todo o conhecimento que existe no mundo sobre como se fabrica uma prancha, e venha bolar uma prancha inovadora. Com design diferente, um material diferente - por exemplo, o grafeno, que é um material - então, isso se aplica a qualquer setor. Se quiser voltar à padaria, poxa, não me faça uma padaria num bairro que já tenha três, né? Só porque você acha que o seu pão vai ser o melhor. É muito estudo. Você leu o livro Originals (livro de Adam Grant)?

BBC News Brasil - Não li, não.

Batista - Eu lendo o livro, pensei: eu sou um bicho desses. O que são os Originals? São essas pessoas que criam empresas de bilhões, mas elas são muito cautelosas, estudam muito o assunto. O Bill Gates está nisso, o Jeff Bezos. Você tem que ter a capacidade de enxergar o seu entorno e ver que sua ideia não é só mais uma no meio do galinheiro... Você tem que ser algo diferenciado, especial. O Mark Zuckerberg, na hora em que ele bolou aquele algoritmo dele e experimentou lá, na faculdade, e baixou os computadores que não conseguiam processar o negócio, ele viu que estava com um negócio extraordinário na mão, você concorda? Mas ele fez um teste. Obviamente nessa área de algoritmos, computadores e aplicativos, você não necessariamente precisa de muito dinheiro no início. O que é bom, vocês que têm matemática na cabeça, jovens, bons em criar algoritmos para aplicativos...

Você vê, os Correios no Brasil não funcionam. Apareceu essa Rappi e a Loggi e já são dois unicórnios. Lastreados em quê? Na entrega da última milha, que é uma mega deficiência, porque o Correio não faz isso. Então, arbitre sempre uma ineficiência. E ineficiência temos em volta toda hora. Arbitrar uma ineficiência, fazer um produto melhor e mais barato. O que é arbitrar uma ineficiência? Fazer algo melhor e mais barato. A essência dos aplicativos é isso. O Correio cobra por uma tarefa R$ 20, eu vejo aqui no app e ele te faz por R$ 7. E se comprar a mensalidade, você tem o serviço pelo mês inteiro. Que é o modelo da Netflix. Imagina, eu sou da geração em que meus filhos iam às locadoras, na Blockbusters, pegavam lá dez vídeos, não entregavam, e eu tinha que pagar R$ 2.000 no final do mês.

BBC News Brasil - O sr. pagava R$ 2.000 de multa na Blockbuster?

Batista - Pagava, pagava. Porque, vários filhos espalhados... Entrega o seu, entrega o seu, e acabava ficando lá. Por que, você não atrasava na Blockbuster? (risos)

BBC News Brasil - Eu paguei R$ 3... R$ 3,50...

Batista - (risos) Você era megadisciplinado. Ótimo. Disciplina. Uma das coisas que eu ensino às pessoas e que fiz comigo mesmo. Você criar uma autodisciplina: que seja começar andando cinco minutos, vai para dez, acaba em 30. Depois começa correndo cinco. Você se autodesafiar a fazer exercício físico. Porque, olha, eu tenho 62 anos, mas tenho um estamina da garotada de 30. Graças a Deus. E qualquer pessoa pode fazer isso. Oxigênio no cérebro é um catalisador de ideias. Isso com certeza não é só para mim.

BBC News Brasil - Vê com bons olhos esse início de governo?

Batista - Não me coloco na posição de elogiar ou não ninguém. Para mim, é o Brasil que interessa.

BBC News Brasil - Vocês e Bolsonaro se conhecem?

Batista - Não, não o conheço.

BBC News Brasil - Como é que os investidores com quem o sr. tem conversado estão vendo o governo Bolsonaro?

Batista - Não sou político e vou dizer o que é prático, o que importa: se passando a reforma da Previdência, os estrangeiros enxergam isso como um grande passo para abrir de novo os bolsos para investir no Brasil. Porque o Brasil tem uma demanda reprimida em quase tudo. É só você voltar a empregar. As pessoas precisam consumir de tudo, até comida. Nos últimos cinco anos, a gente está crescendo que nem rabo de cavalo, para baixo e para trás. Engraçado, mas é triste. Sabe aquela situação em que espremeu, espremeu, espremeu?

Se esse governo conseguir, e parece que está conseguindo, a reforma da Previdência e depois a reforma tributária, olha, nós vamos ter um Brasil novo. Perdemos aí cinco ou seis anos nessas crises, porque com o tamanho das crises as pessoas ficam ressentidas, inclusive os brasileiros, né? Você vê que o entusiasmo no início foi mais rápido porque todo mundo achava que a reforma da Previdência pudesse acontecer mais rápido. Então, você vai adiando, vai adiando, e os investidores grandes brasileiros ficam ressabiados.

BBC News Brasil - O que o sr. aprendeu com seu pai?

Batista - Meu pai foi um homem extraordinário pelo que fez, pela visão que já tinha na época. Ele na verdade trouxe o Japão inteiro para o Brasil. A Vale do Rio Doce foi inicialmente lastreada no Japão, como grande comprador das matérias-primas da Vale do Rio Doce. Eu sou um de sete filhos, então ninguém beneficiou ninguém em nada. E como ele sempre foi um funcionário de empresas, mais públicas, ele nunca entendeu o conceito de risco, a que eu me expus. No setor privado, é o seu capital que está ali queimando.

Eventualmente, se você errar... Você vê, eu errei numa escala gigante. Mas já tinha errado antes em algumas tentativas. Errar absolutamente faz parte do empresário de sucesso. Eu não confio no empresário que não errou. Aquele que não errou, acha que sabe voar. Não sabe, não, ninguém sabe voar. Aquele negócio do trapezista, né? Se achar que sabe voar... Esse trapezista vai cair! Então, o que aprendi do meu pai foi pensar grande.

BBC News Brasil - Momento autocrítica: o que sr. fez e não deveria ter feito?

Batista - Talvez eu cresci muito rápido e fui incapaz de descobrir falhas no seu management. É difícil, te obriga uma disciplina muito maior na escolha das pessoas. E também pacote de remuneração mais alinhado com resultado. Naquela época, 2010, 2011, 2012, o Brasil estava bombando. Era difícil atrair gente. Então você atraía e falava assim: olha, você vai trabalhar comigo, você vai receber ações no final do ano, mas essas estão bloqueadas por três anos. Esses três anos, como falei antes, não foram suficientes para os projetos estarem produzindo. Então, no quarto ano você já começa a dar e o projeto não estava produzindo. Esse desequilíbrio nesse timing foi um erro dramático. Alinhar os resultados com a remuneração dos seus executivos. Ganhou, distribuiu, não ganhou, fica mais tempo preso na companhia.

BBC News Brasil - Errou também na comunicação com investidores? Vocês foram precipitados em gerar euforia com algo que não se confirmaria depois?

Batista - Na área de petróleo, eu contratei o que tinha de melhor, supostamente, no mercado. Eu era um comunicador que era informado e passava. Então, os comunicadores oficiais da empresa, normalmente o diretor financeiro, que se comunica trimestralmente com os bancos, que seguem a ação, ele e o técnico estavam lá conversando, não era eu. Eu não falava tecnicamente, especificamente do assunto. Isso era feito pelo pessoal técnico da companhia, o diretor financeiro e eventualmente o Chief Operating Officer da companhia, que se comunicavam trimestralmente com os analistas dos vários bancos que cobriam a companhia.

Por exemplo, a gente fez uma parceria com a Exxon, em abril de 2013, pouco antes da crise fatídica, da auditoria da consultoria que a gente fez para ter um relatório final. A gente fechou com a Exxon e a Total, quer dizer, a Exxon era a maior empresa de petróleo do mundo, Total, a terceira, quarta, quinta maior do mundo, elogiando o nosso pessoal. O que você quer que eu diga? Ou seja, se elas me dão um carimbo e fazem uma parceria comigo, porque nós ganhamos blocos num leilão junto com eles. 50%, 50%. Então, se você fosse um fanático por automóveis e a Mercedes-Benz topa ser seu sócio, no seu empreendimento, o que você avaliaria de você mesmo? Vou repetir: dois meses antes daquele relatório, fechamos parcerias com a Exxon e a Total.

BBC News Brasil - Então não dá para evitar que isso se repita. É esse o recado?

Batista - Olha, o que aconteceu no mundo do petróleo. A sísmica, que também são algoritmos, hoje são muito mais eficientes. A taxa de você errar um poço hoje é baixíssima. Com a sísmica, você está enxergando o que está lá dentro. É que nem uma tomografia ou essas ressonâncias. Evoluiu sobremaneira. Se o seu telefone evoluiu, e a informática, e aplicativos, algoritmos, imagina o que evoluiu também no mundo físico para se descobrir petróleo numa bacia tão rica quanto a brasileira.

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