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Conteúdo publicado há
9 meses

Cadija, a rica e poderosa mulher que foi chave no nascimento do Islamismo

Margarita Rodríguez - BBC News Mundo

15/12/2020 11h55

Cadija era uma mulher de sucesso e sua "perspicácia para os negócios" a colocou "em um caminho que acabaria mudando a história do mundo".

"Ela literalmente quebrou o teto de vidro. Até as mulheres de hoje aspirariam fazer o que ela fez há 1.400 anos."

É assim que Asad Zaman, um imame da cidade de Manchester, na Inglaterra, descreveu Cadija, uma mulher que nasceu no século 6 onde hoje é a Arábia Saudita.

Ela era uma mulher respeitada em sua sociedade, muito rica e poderosa, que rejeitou as propostas de casamento de muitos homens da nobreza.

Ela foi casada duas vezes. Ficou viúva do primeiro marido e acredita-se que tenha decidido separar-se do segundo.

Ela jurou que não se casaria novamente, mas a convicção dela durou até que conheceu quem se tornaria seu terceiro marido.

Se ela o escolheu, disse Zaman à BBC, foi porque viu nele "algumas qualidades incríveis que a fizeram mudar de ideia sobre o casamento".

Literalmente, foi Cadija quem o escolheu, foi ela quem propôs que se casassem. Ela tinha 40 anos e ele 25, um jovem de origem muito humilde.

A história não é apenas de amor, mas evoca também o nascimento da segunda religião mais seguida no mundo.

É que Cadija se casou com Maomé antes de ele se tornar o último profeta do Islã.

A comerciante

Robert Hoyland, professor de história do Antigo Oriente Médio na Universidade de Nova York, adverte que é difícil obter uma imagem detalhada de quem foi Cadija, em parte porque o que se sabe sobre ela foi escrito muitos anos após sua morte.

No entanto, a maioria das fontes aponta que se tratava de uma mulher com "a ambição de um espírito livre e com uma vontade muito forte", conta o conceituado autor à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Por exemplo, ela teria recusado se casar com seu primo, algo ditado pela tradição familiar, porque ela queria escolher seu parceiro.

Cadija era filha de um comerciante que transformou o negócio da família em um império comercial. Depois da morte dele em uma batalha, ela assumiu o controle.

"Ela estava claramente acostumada a trilhar seu próprio caminho no mundo", disse a historiadora Bettany Hughes em um documentário da BBC.

"Na verdade, foi a perspicácia dela para os negócios que a colocaria em um caminho que acabaria mudando a história do mundo."

A ajudante

O negócio que Cadija dirigia, de Meca (Arábia Saudita), possuía muitas caravanas que transportavam produtos pelas grandes cidades do Oriente Médio.

As caravanas percorriam longas distâncias que iam, por exemplo, ao sul do Iêmen e ao norte da Síria.

Embora parte de sua riqueza venha da família, Cadija também fez sua fortuna, diz Fozia Bora, professora associada de História Islâmica da Universidade de Leeds, na Inglaterra, à BBC News Mundo.

"Ela era uma mulher de negócios por seus próprios méritos, com muita autoconfiança."

Cadija estava acostumada a contratar funcionários para cobrir diferentes aspectos dos negócios.

Certa vez, ela ouviu falar de um homem que tinha a reputação de ser muito honesto e trabalhador. Ela o conheceu e pediu-lhe para assumir uma de suas caravanas. Logo surgiu um sentimento de admiração por ele.

Cadija ficou tão impressionada que decidiu se casar com ele. Essa união, diz Bora, deu a Maomé, que era órfão e criado por um tio, uma vida "com maior estabilidade e prosperidade econômica".

Acredita-se que eles tiveram quatro filhos, embora apenas as filhas tenham conseguido sobreviver à primeira infância.

"De uma perspectiva sociológica, você também precisa entender as condições da época. Era um casamento monogâmico em uma época em que a maioria dos homens tinha várias esposas. Era uma sociedade muito polígama", disse em um programa da BBC a professora Rania Hafaz, membro do Instituto Muçulmano de Londres.

As primeiras revelações

Maomé nasceu e foi criado na tribo Quraysh (a mesma de Cadija), numa época em que vários grupos da região adoravam vários deuses.

Anos depois de se casar, ele iniciou uma transformação espiritual progressiva que o levou a entrar nas montanhas de Meca para meditar.

Segundo o Islã, Maomé recebeu revelações de Deus por meio do anjo Gabriel, o mesmo que anunciou a Maria que ela seria a mãe de Jesus.

Assim foi revelado a ele o Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos.

É dito que quando ele vivenciou a primeira revelação, Maomé sentiu medo porque não sabia do que se tratava.

"Ele não conseguia entender o que estava vivendo. Faltava-lhe um ponto de referência porque não havia sido educado para compreender o monoteísmo de Deus", explica Bora.

"Ele estava extremamente confuso e angustiado com o que estava passando e as fontes dizem que as revelações não foram fáceis, ainda que a experiência tenha sido gentil, ela foi fisicamente chocante."

Nesse contexto, Maomé decidiu contar a uma pessoa o que estava acontecendo. "Era alguém em quem podia confiar para qualquer coisa", diz Hoyland.

Cadija o ouviu e o acalmou, buscando conselhos de um parente que tinha conhecimento sobre cristianismo. Acredita-se que Waraqah ibn Nawfal fez uma ligação entre as revelações de Maomé e as recebidas por Moisés.

"Ele conhecia as escrituras anteriores", explica Bora, então foi "uma espécie de confirmação da autenticidade de suas revelações".

"Sabemos que quando ele começou a ter as revelações do Alcorão, Maomé até duvidou de si mesmo, mas foi Cadija quem confirmou para ele a realidade de sua missão profética", diz Leila Ahmed, estudiosa do Islã e professora da Universidade Harvard.

A primeira muçulmana

Para muitos especialistas, tendo sido a primeira pessoa a ouvir as revelações que Maomé recebeu, Cadija se tornou a primeira mulher muçulmana na história.

"Ela acreditou e aceitou a mensagem", diz Bora.

"Considero que isso deu a Maomé muita confiança para começar a espalhar a mensagem (...) Isso o fez sentir que tinha uma voz."

Maomé, diz Hughes, desafiou os anciãos da tribo e decidiu pregar publicamente:

"Só existe um Deus, Alá. Adorar os outros é uma blasfêmia."

De acordo com Bora, quando Maomé começou a ensinar o islã, ele foi marginalizado por muitos membros da sociedade de Meca porque eles se opunham à mensagem monoteísta.

"Mas Cadija deu a ele o apoio e a proteção que ele tanto precisava na época."

Hoyland observa que também foi uma época em que Maomé começou a sofrer de depressão, em parte porque conhecidos pagãos e familiares começaram a se afastar dele.

Mas a decisão estava tomada: entregar-se à sua missão como profeta.

"Pelos próximos 10 anos, Cadija usou suas conexões familiares e toda sua riqueza para sustentar seu marido e financiar a fé nascente, uma religião construída sobre o princípio polêmico de um Deus em uma sociedade que acreditava em muitos", reflete Hughes.

'O ano da tristeza'

Cadija fez tudo que estava ao alcance dela para apoiar o marido e o Islã até o fim de seus dias.

Em 619, ela adoeceu e morreu.

Depois de 25 anos juntos, Maomé ficou arrasado.

"Ele nunca se recuperou realmente da morte de Cadija", afirma Hoyland.

"O que impressiona nas fontes é a maneira como falam de Cadija, como a melhor amiga de Maomé teve, ainda mais do que seus companheiros mais próximos: Abu Bakar ou Omar."

"Esse é o aspecto romântico desse relacionamento."

Na verdade, Hughes indica que "os muçulmanos ainda se lembram do ano de sua morte como o Ano da Tristeza".

Mais tarde e seguindo a tradição, Maomé se casou novamente.

Em um programa da BBC, Fatima Barkatulla, uma acadêmica muçulmana e autora de um livro infantil sobre Cadija, apontou que uma das fontes de informação sobre Cadija são os hadiths, que são histórias sobre a vida de Maomé, que foram lembradas por seus seguidores mais próximos e que mais tarde foram escritos.

Um dos narradores dos hadiths foi uma das esposas de Maomé, Aixa, outra figura fundamental do islã.

"Obviamente o profeta contou a ela a história de Cadija e ela conta o que aconteceu no início das revelações, quando se tornou profeta", explica Barkatulla.

Embora Aixa não tenha testemunhado esse período na vida de Maomé, ela "assumiu fielmente seu dever de transmitir aos muçulmanos" o que lhe foi contado, diz a autora.

'Um modelo a seguir'

Para Bora, aprender sobre a história de Cadija é fundamental para quebrar o mito de que nas primeiras comunidades muçulmanas as mulheres ficavam confinadas em casa.

Maomé não pediu a Cadija que parasse de fazer o que gostava. Na verdade, diz o especialista, o islã deu mais direitos e destaque às mulheres da época.

"Para mim, como historiadora e muçulmana, Cadija é uma figura inspiradora, tal como Fátima (uma das suas filhas com Maomé) e Aixa, entre outras mulheres".

"Elas eram intelectuais, politicamente ativas e desempenharam um grande papel na difusão da religião e na formação da sociedade islâmica."

"É maravilhoso para mim poder ensinar meus alunos (crentes ou não) sobre essas mulheres."

A admiração por Cadija como modelo foi evidenciada por Hoyland há alguns anos, quando dava aulas no Paquistão.

"Dois alunos me abordaram porque tinham mais perguntas sobre ela. Disseram que Cadija era a heroína deles, uma mulher forte que dirigia seu próprio negócio."

Como reflete Hughes, a posição das mulheres no Islã é um tópico muito debatido hoje, já que muitos a associam a um elemento de opressão.

"Se você pensar sobre esses grandes modelos, Cadija e Aixa, o que você acha que elas pensariam do Islã conforme se desenvolveu no século 21?" Hughes perguntou à acadêmica Myrian François-Cerrah.

"Não tenho certeza se elas reconheceriam as práticas que temos hoje. E certamente não tenho certeza se Aixa aceitaria receber ordens para ficar no fundo de uma sala e não falar o que pensava. Ela estava muito acostumada a ensinar os homens, a educá-los. Se ela tivesse algo a dizer ela falaria", disse a especialista.

"E a ideia de que Cadija, uma figura muito poderosa, estava de alguma forma limitada ou que sua voz, seus direitos eram restritos, não tenho certeza se isso seria algo que elas estariam dispostas a aceitar ou reconhecer."

As histórias delas têm desafiado a percepção de muitas pessoas sobre o papel das mulheres no islã.

"É chocante que fora do islã, pouquíssimos de nós tenhamos ouvido falar delas", conclui Hughes.

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