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3 meses

Fotógrafo reconstrói retrato do avô que nunca conheceu

Fotógrafo reconstrói retrato do avô que nunca conheceu - Divulgação/IMS Reprodução/BBC News
Fotógrafo reconstrói retrato do avô que nunca conheceu Imagem: Divulgação/IMS Reprodução/BBC News

Leandro Machado - Da BBC News Brasil em São Paulo

Da BBC News Brasil em São Paulo

17/08/2021 20h30

A partir do relato de parentes mais velhos, Eustáquio Neves, um dos mais celebrados fotógrafos brasileiros da atualidade, reconstruiu uma série de retratos de seu avô, que morreu no início dos anos 1950.

O fotógrafo Eustáquio Neves, de 66 anos, nunca tinha visto um retrato de seu avô, João Catarino Ribeiro, que morreu no início dos anos 1950, antes de Eustáquio nascer. Na família, havia uma única imagem, rasgada ao meio, onde a mão esquerda de Ribeiro aparece sobre os ombros da avó do artista mineiro.

"Fui criado pela minha mãe e por minhas tias mais velhas. Por algum motivo, ele não aparecia em fotografias. Ele era uma ausência, era só histórias", diz Neves, um dos mais celebrados fotógrafos brasileiros da atualidade.

Recentemente, o artista decidiu fazer desse avô o tema de um novo projeto fotográfico.

Por meio de entrevistas com familiares, recursos analógicos e digitais de manipulação, Eustáquio Neves construiu uma obra chamada Retrato Falado, que tem o misterioso patriarca como personagem principal. São 12 caixas, cada uma contendo uma imagem na tampa e outra no fundo.

Como sugere o título, a imagem de João Catarino Ribeiro é uma construção do autor a partir da memória de poucas pessoas ainda vivas que conviveram com ele. "Entrevistei uma tia mais velha e alguns primos que se lembravam como ele era", diz Eustáquio, em entrevista à BBC News Brasil.

Para desenvolver os retratos, o fotógrafo usou negativos antigos do arquivo de um retratista que trabalhou na cidade mineira de Diamantina, nos anos 1950.

"Moro em Diamantina atualmente. Adquiri cerca de 300 negativos, muitos deles deteriorados, enrolados em jornais da época. A partir dessas imagens e do relato dos meus parentes, fui construindo a imagem do meu avô", conta Eustáquio.

A figura reconstruída de João Catarino Ribeiro aparece na obra de várias maneiras, mas principalmente de terno e gravata, como em retratos antigos que eram retocados como uma pintura.

Em um dos perfis, um esboço, há indicações de características físicas do avô: "cabelo crespo, olhos azuis, sério".

Em outras páginas, a busca pelo corpo e pela biografia do avô fica evidente. "Homem preto, estatura média", escreve o artista em uma das imagens, uma espécie de documento carimbado, e com uma pintura que faz as vezes de retrato 3x4.

"Era de Diamantina, era de Conceição do Mato Dentro, era da Bahia, era garimpeiro, tinha posses, olhos castanhos", anota Eustáquio em outro momento, com informações acumuladas junto a seus parentes.

"Nunca soube exatamente quem ele era. Meus familiares disseram que ele era garimpeiro, que passou pela Bahia, por Diamantina, por Conceição do Mato Dentro. Nossa casa era bem estruturada, então suponho que ele tinha algumas posses, uma situação financeira até confortável", diz o artista.

O próprio nome da série, Retrato Falado, ironiza um recurso usado basicamente pela polícia para identificar pessoas envolvidas com o crime. "O título foi proposital nesse sentido, pois a ausência do avô, a ausência da figura paterna, não deixa de ser uma violência vivida por muitas pessoas negras no Brasil", diz Eustáquio.

A obra foi desenvolvida a partir da Bolsa Bolsa de Fotografia da revista ZUM, do Instituto Moreira Salles (IMS), que Eustáquio recebeu em 2019.

A inscrições para as bolsas da revista ZUM deste ano, de R$ 65 mil cada uma, vão até o próximo dia 22 de agosto, no site da publicação. "Serão selecionados dois projetos inéditos de artistas e fotógrafos, para que desenvolvam e aprofundem seu trabalho no campo da fotografia, em suas mais diversas vertentes, sem restrição de tema, perfil ou suporte", aponta a revista.

'Casa de mulheres'

A ideia de Retrato Falado surgiu para Eustáquio Neves enquanto ele produzia outro trabalho, um livro também autobiográfico.

"Era uma pergunta que eu sempre me fazia: quem é essa figura do meu avô? Ouvia minha mãe e minhas tias falando dele, mas sempre ele sempre foi distante para mim. Eu não tinha uma imagem dele, não tinha essa imaginação. Foi pensando nisso que tive a ideia de trabalhar com essa memória", diz.

Criado em uma "casa de mulheres", junto à mãe, tias e primas, Eustáquio também não conheceu o pai.

"Me lembro que um dia, quando eu era bem pequeno, colocaram uma roupa bonita em mim e me levaram para o centro da cidade. Me disseram que eu iria conhecer meu pai. Respondi: não quero. A gente andou pela cidade, talvez ele tenha me visto de longe", conta.

Antes de iniciar a carreira na fotografia, Eustáquio se formou como técnico em Química Industrial. "Comprei uma câmera com meu primeiro salário como químico. Depois de alguns meses, meu chefe me chamou e me aconselhou a me dedicar exclusivamente à fotografia. Ele me demitiu e, com o dinheiro da rescisão, montei um estúdio em Belo Horizonte", conta.

"Fotografei muito casamento, festa de aniversário, batizados. Essa foi a minha escola até decidir me dedicar à fotografia autoral", diz.

Em cursos e exposições, Eustáquio era muitas vezes o único fotógrafo negro, conta. "Quando não era o único, tinha só mais um. Sou uma pessoa que chutou as portas, não esperei abrir. Onde eu senti que fazia sentido eu pertencer, eu mesmo abri a porta", diz.

A partir dos anos 1990, o artista participou de mais de 40 exposições, como a Bienal de São Paulo-Valência (2007), ganhando destaque no cenário nacional da fotografia, sempre focando questões sociais, étnicas e culturais.

Segundo a página sobre o artista no site do Itaú Cultural, Eustáquio Neves "rememora e recria as histórias dessa descendência africana com base em aspectos que constituem seu cotidiano, enfatizando o Brasil como o país que tem a maior população negra fora da África, e no qual o racismo estrutural é realidade."

"As problematizações abordadas por Eustáquio Neves têm grande importância na cena artística, por fazer parte de um conjunto de artistas que direciona o olhar para a produção de novas narrativas, concebidas com a sensibilidade de quem faz parte da construção histórica da população afro-brasileira", completa.


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