No Senado, Dilma tenta reforçar narrativa do golpe

Jean-Philip Struck

Em discurso mais voltado para militância, presidente afastada ataca governo interino e faz paralelos entre sua situação e a de ex-líderes como Getúlio e João Goulart. Fala não deve ter efeito prático na votação.

Ao discursar no Senado nesta segunda-feira (29/08), a presidente afastada Dilma Rousseff denunciou o governo do interino Michel Temer como "usurpador", atacou adversários como o deputado Eduardo Cunha e fez uma espécie de compilação de argumentos da narrativa do "golpe", que já vinham sendo usados em plateias de apoiadores nos últimos meses.

Para especialistas, apesar da presença dos senadores, a fala de Dilma foi voltada mais uma vez para a militância e não deve ter algum efeito prático na votação do processo de impeachment, cujo placar já sinaliza uma derrota da petista.

Dilma usou a palavra golpe em cinco oportunidades para descrever o processo de impeachment contra ela e ainda fez paralelos entre a sua situação política e a de ex-presidentes brasileiros que foram derrubados ou sofreram com conspirações, como Getúlio Vargas, João Goulart e Juscelino Kubitschek.

"Estamos a um passo da consumação de uma grave ruptura institucional, a um passo da consumação de um golpe de Estado", disse Dilma. A frase deu o tom da maior parte do discurso. Em outra ocasião, ela disse que o processo é "um golpe que, se consumado, resultará na eleição indireta de um governo usurpador".

"Foi um discurso bem escrito, mas sem nenhuma novidade. Ela reafirmou a sua vitimização e alegou inocência. No fundo é um discurso para a militância que ainda não a abandonou. É algo que o PT e a esquerda brasileira podem fazer uso no futuro, mas que no fundo não deve ter impacto na votação do Senado. O discurso não foi para os senadores. O jogo aqui já está definido", afirma o cientista político Carlos Pereira, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio.

O cientista político Ricardo Ismael, da PUC-Rio, concorda. "O discurso provavelmente vai ser usado em 2018 pelo PT. Antes ela não conseguia nem fazer um discurso na TV sem ser alvo de um panelaço. Essa é a primeira vez em meses em que ela teve a oportunidade de falar para uma plateia nacional, ainda que os argumentos só sejam digeridos pela militância. Tudo isso foi muito estudado para a posteridade", opina.

Discurso fica na "zona de conforto"

Ao longo do discurso, a presidente evitou admitir diretamente erros do seu governo. Quando o fez, disse rapidamente que "cometeu erros como todo mundo" e logo partiu para os ataques contra o governo interino. Ela se emocionou em duas ocasiões, quando falou das torturas que sofreu durante a prisão no período do regime militar e da luta contra o câncer.

Entre outros trechos similares aos que já haviam aparecido em discursos anteriores, Dilma também afirmou que está sendo apeada do poder por ter contrariado as elites. "Como é próprio das elites autoritárias, não viam na vontade do povo o elemento legitimador. Queriam o poder a qualquer preço."

Ela também atacou a "grande mídia" e lembrou que o processo teve início quando o PT resolveu apoiar a cassação do deputado Eduardo Cunha, em dezembro de 2015. Ao atacar o governo Temer, Dilma disse que o interino pretende reverter os avanços sociais que ocorreram no país nos últimos anos.

"O que está em jogo aqui são as conquistas sociais dos últimos 13 anos. O que está em jogo é o pré-sal, a inserção soberana de nosso país. O que está em jogo aqui é a conquista da estabilidade", disse Dilma.

Após passar mais de 20 minutos relembrando sua trajetória e denunciando o "golpe", Dilma finalmente se concentrou em se defender das acusações que servem como base do processo de impeachment: as pedaladas fiscais e publicação de decretos sem autorização do Congresso.

Ela afirmou, entre outras coisas, que o Tribunal de Contas da União já aprovou contas de outros presidentes que tomaram as mesmas medidas. "Querem me condenar por decretos que atendiam as demandas da população?", disse.

Segundo o cientista político Ricardo Ismael, o discurso de Dilma ficou em uma "zona de conforto". "Dilma mostra que não pretende se afastar da narrativa escolhida por ela e pelo PT. Nesta narrativa, ela não cometeu nenhum erro, nem como ministra nem como presidente. É uma zona de conforto."

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