Pé na Praia: os cariocas prestativos

Thomas Fischermann

Logo que chegou ao Rio de Janeiro, o correspondente alemão Thomas Fischermann queria entrevistar um chefe do tráfico de drogas. Como não encontrou nenhum, seu assistente deu um jeito para não decepcionar o estrangeiro.A minha experiência predileta como jornalista no Rio de Janeiro foi uma entrevista com um narcotraficante falso. Eu tinha acabado de chegar para trabalhar para o jornal alemão Die Zeit no Rio de Janeiro, e recebi o pedido da redação: Vá à periferia e às favelas! Entre nos lugares mais perigosos de lá, onde acontece o tráfico de drogas! Como jornalista, para se pesquisar sobre o tráfico de drogas, é preciso contratar um "fixer", isto é, um ajudante que conheça bem o meio, saiba improvisar e tenha uma boa conversa. O fixer explica para o chefe do tráfico que o Thomas é um cara legal, que seu sotaque carregado não é falso, e que ele, de verdade mesmo, não trabalha para a Polícia Federal. Se der tudo certo, está liberado o acesso e a passagem através de guardas: homens musculosos de havaianas, com walkie-talkies no ouvido e pistolas presas na perna. Da mesma forma, a saída depois também está liberada – melhor ainda. Neste dia um fixer nos levou a uma área decadente, próxima ao Sambódromo. Havia várias portas e janelas cobertas por tábuas, e na frente das fachadas vários fios elétricos se misturavam pendurados. A ideia era conversar com um gerente de uma boca de fumo. Segundo o fixer, o homem até estava disposto a se deixar fotografar, por isso eu estava acompanhado do meu amigo e fotógrafo Giorgio. "Aqui, algumas vezes vêm holandeses, escandinavos, italianos, todos querem comprar drogas", nos explicou um homem que, sem mais nem menos, começou a andar atrás de nós; um cara musculoso que usava uma corrente grossa de metal no peito nu. O nosso fixer sussurrou: "Aqui, estamos parados em frente de um monte de maconha, cocaína, crack". Aí, surgiu Mario, o chefe da boca, o cara prometido. Tinha lá seus cinquenta, talvez sessenta anos, a expressão era altiva, o nariz avantajado mostrava sua origem italiana. Havia fixado os cabelos acinzentados para trás com gel. Mario trajava uma bermuda de praia de cor indefinida, mostrava uma pança enorme e carregava na cinta um revolver fabricado em 1945. "Queria ter pedido ao meu filho para me emprestar um modelo mais novo", disse, balançando os braços junto ao corpo como que para se desculpar. "Infelizmente não consegui nenhum. Mas ok! Onde vocês querem tirar as fotos?" Mario, você não prefere cobrir seu rosto com um lenço? Perguntamos porque isso é comum. Nenhum traficante fica se exibindo como se estivesse numa coletiva de imprensa cercado de fotógrafos. "Ah!" disse Mario, foi até uma das casas próximas e voltou com um lenço branco. Tinha amarrado do topo da cabeça ao queixo, de forma que fazia lembrar um homem velho com dor de dente. Ou a "Mãe Brian" do filme do Monty-Python. "Não, Mario, o lenço tem que cobrir o rosto", disse Giorgio, e o chefe do tráfico obedeceu. Por fim, enquanto Mario posava por horas sob a luz dos postes e se deixava fotografar de perfil com sua barriga enorme, ficou claro para nós: Estávamos, sim, no meio de uma das áreas de entrada proibida do Rio de Janeiro, rodeados e vigiados por bandidos desconfiados – só que este cara com certeza não era um deles. O fixer tinha nos passado para trás, havia nos apresentado um chefe de tráfico falso. Mario até que era uma pessoa legal. Acabamos por descobrir que ele mantinha um Lava-Jato nas redondezas. Tivemos que amargar esse engano. Porém, concluímos que ele não fez por maldade. Aparentemente, o nosso fixer, como bom profissional que era, ao constatar que o encontro com o chefe do tráfico não daria certo de jeito nenhum, pediu ajuda a seu amigo Mario como último recurso. Não dava para decepcionar os gringos, os repórteres do estrangeiro! Nossa experiência com Mario, o falso chefe do tráfico, foi uma grande malandragem. Mas, por outro lado, também foi um exemplo de como as pessoas podem ser imensamente prestativas e solidárias no Rio de Janeiro. Thomas Fischermann é correspondente do jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Na coluna Pé na praia, publicada às quartas-feira na DW Brasil, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos - no Rio de Janeiro e durante suas viagens pelo Brasil. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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