Opep tenta voltar a agir como cartel

Nicolas Martin (pv)

Grupo dos países exportadores de petróleo tenta reencontrar unidade interna perdida e fazer preços voltarem a subir. Para isso, busca aliança até com a Rússia. Mas resistência do Iraque mostra que a tarefa é difícil.Os tempos em que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) causava agitação nos mercados de commodities com simples insinuações ficaram para trás. Mas, acima de tudo, é a falta de clareza sobre uma linha comum de direção que, recentemente, deu ao cartel do petróleo uma imagem de não servir para nada. Assim, causou surpresa nos mercados a notícia divulgada depois de um encontro na Argélia, em setembro: os países-membros querem reduzir a produção diária em conjunto, dizia a carta de intenções. O corte previsto, de 750 mil barris por dia, é o maior desde a crise financeira de 2008. Mais detalhes em novembro, acrescentava a nota. Para garantir o sucesso da medida, líderes dos países produtores trabalham com afinco, a portas fechadas. Ao que tudo indica, a maior dificuldade reside justamente em alcançar a prometida unidade. Declarações recentes do Iraque, o segundo maior produtor da Opep, que pediu para ser deixado de fora do acordo, mostram como isso está sendo difícil. O ministro iraquiano da Energia, Jabar Ali al-Luaibi, argumentou que o país precisa do dinheiro para financiar o combate ao "Estado Islâmico. O Iraque teme que, se for obrigado a cortar a produção, poderá perder recursos, mesmo com uma eventual elevação do preço. Essa posição será duramente combatida pela Arábia Saudita e seus aliados do Golfo, afirmam pessoas de dentro da Opep. Ajuda de Putin E a Opep tem um coringa na manga: Moscou. A Rússia não é um membro do cartel, mas, só em setembro, gerou 400 mil barris por dia, quantidade que não produzia desde os tempos da União Soviética. E, há duas semanas, o presidente Vladimir Putin comunicou que a Rússia estava disposta a juntar-se à iniciativa para reduzir a produção. Só com essa simples declaração, o preço da commodity deu um salto: o barril do Brent, de referência na Europa, chegou a ser comercializado a 53,50 dólares, maior valor em 2016. Desde então, tem se mantido na casa dos 50 dólares. Mas, já no dia seguinte à declaração de Putin, o presidente da Rosneft, a maior empresa de petróleo da Rússia, posicionou-se contra uma redução. A linha foi seguida pelo ministro da Energia, Alexander Novak. Putin não deve ter gostado das declarações e recolocou ordem na casa. Pouco depois, o mesmo ministro da Energia foi a público dizer que as empresas petrolíferas mais importantes do país estavam dispostas a aderir à redução. Para o especialista Harald Hecking, da Universidade de Colônia, a Rússia só vai concordar com um corte na produção se todos os países-membros da Opep participarem do acordo. A lógica por trás dessa estratégia, segundo Hecking, é simples: se todos participarem, o preço do petróleo subirá, o que compensará o declínio das receitas causado pela diminuição da produção e das vendas. Venezuela e Irã A Rússia não é a única a esperar que o preço do barril volte a subir: em grave crise política e econômica, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, também pode se beneficiar do encarecimento do petróleo. "Estamos trabalhando numa nova fórmula para a estabilidade na próxima década", disse Maduro, na semana passada, durante uma visita ao Azerbaijão. A Venezuela tem as maiores reservas do mundo, mas a estatal PDVSA está à beira da falência. Isso também explica por que Maduro se nomeou o salvador do preço do petróleo. Antes da visita ao Azerbaijão, ele esteve no Irã – por muito tempo um dos grandes dissidentes dentro da Opep. Até pouco tempo, Teerã se pronunciava contra uma redução da produção, procurando recuperar um pouco do terreno perdido no mercado global depois de décadas de embargos do Ocidente. Mas, desde o fim de setembro, o presidente Hassan Rohani tem se aproximado da retórica da Opep. "O Irã apoiará qualquer iniciativa que leve a taxas equitativas de produção e preços justos do petróleo", disse o líder iraniano, durante a visita de Maduro. Mas o presidente venezuelano também sabe que o aumento do preço do petróleo não será alcançado somente com uma diretriz da Opep. "Farei um esforço para cruzar oceanos e continentes, irei com a palavra de uma aliança profunda, econômica e financeira de nosso país para gerar uma estabilidade [no preço do petróleo]", disse o presidente venezuelano. Pessoas ligadas a ele dizem que a Rússia receberá uma visita. Combustível americano Mesmo que um acordo dentro da Opep ainda seja incerto, surge a pergunta de quanta influência a Opep, aliada à Rússia, ainda tem no mercado. "Em curto prazo, essa parceria certamente alavancaria os preços do petróleo", diz Hecking. Mas, segundo o especialista, somente até certo ponto: o óleo de xisto americano, por exemplo, poderá novamente se tornar lucrativo se os preços subirem e chegar em grandes quantidades ao mercado. Ele pode já valer a pena a partir de 40 dólares por barril, calcula Hecking, e a maioria das áreas de exploração de xisto dos EUA já seria rentável a partir de 60 dólares por barril. "Análises mostram que as indústrias de xisto se tornaram bem mais eficientes", afirma. Levando em conta o custo atual de quase 50 dólares por barril, os limites da Opep estariam, portanto, claramente estabelecidos. Se os EUA realmente inundarem o mercado com xisto, fecha-se o círculo, porque foram justamente os barris americanos que contribuíram significativamente para a queda do petróleo, há dois anos. Com a queda do preço do petróleo, no entanto, muitas empresas tiveram de suspender a produção de xisto, porque os custos superaram as receitas. Com o aumento dos preços, o óleo de xisto voltaria a valer o investimento. Todos os esforços da Opep, portanto, iriam por petróleo abaixo.

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