Martin Schulz, a possível pedra no caminho de Merkel

Kate Brady

Com a nova candidatura da chefe de governo alemã, social-democratas precisam mais do que nunca de um oponente forte em 2017. A resposta pode ser o presidente do Parlamento Europeu, que retorna à política nacional.No que classificou de uma "decisão difícil", o político social-democrata alemão Martin Schulz anunciou nesta quinta-feira (24/11) que não vai se candidatar a um terceiro mandato de presidente do Parlamento Europeu. Em vez disso, pretende concorrer no Bundestag (parlamento) para representar seu estado natal, a Renânia do Norte-Vestfália. Aludindo aos próprios esforços para aumentar a visibilidade e credibilidade da política da União Europeia, Schulz afirmou ter alcançado muito em seus cinco anos no cargo. Ao deixar Bruxelas, ele pretende seguir estreitamente ligado ao projeto europeu, mesmo que somente a partir de Berlim: "Quero dar minha contribuição para fechar as lacunas entre os países." O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, reagiu à notícia declarando-se "desapontado" com a partida de Schulz da política da UE. Antes ele expressara o desejo de que o político social-democrata permanecesse à frente do Parlamento, embora teoricamente seu mandato se encerre no início do próximo ano. Segundo acerto interno com o grupo conservador, o Partido Popular Europeu (PPE), um democrata-cristão deverá assumir a presidência do órgão legislativo na segunda metade da legislatura. Ainda assim, houve repetidas especulações sobre a possibilidade de contornar o acordo, permitindo a Schulz se manter no cargo. Entre a Chancelaria Federal e o Ministério do Exterior A guinada de Schulz, de Bruxelas para Berlim, já era esperada, até certo ponto, após a especulação midiática sobre uma eventual candidatura sua pelo Partido Social-Democrata (SPD) ao cargo de chanceler federal, nas próximas eleições gerais. Ao falar nesta quinta-feira na capital belga, contudo, o político não fez qualquer alusão à possibilidade de enfrentar a chanceler Angela Merkel em 2017. Desde o domingo, quando a chefe de governo democrata-cristã anunciou a intenção de se candidatar a um quarto mandato, os olhos da política nacional estão voltados para o SPD. No entanto a legenda só deverá apresentar seu candidato no fim de janeiro. Analistas também sugerem que Schulz poderia aspirar ao posto de ministro do Exterior. Os apoiadores de Schulz sustentam que ele preencheria bem a função, graças a sua experiência na arena europeia. O atual chefe da pasta, Frank-Walter Steinmeier, deve concordar em ceder o cargo, pois é cotado para ser o próximo presidente alemão. Da província alemã para Bruxelas Nascido em 1955 na localidade de Hehlrath, próxima às fronteiras da Alemanha com a Bélgica e a Holanda, no mínimo geográfica e linguisticamente Martin Schulz já parecia predestinado a atuar no topo da política da União Europeia. Fluente em alemão, holandês e francês, ele também fala inglês, espanhol e italiano, além do dialeto renano. Depois que uma lesão no joelho dissipou seus sonhos de se tornar futebolista profissional, ele se voltou para o álcool. Com a ajuda do irmão, porém, conseguiu superar a dependência. Tendo entrado para o Partido Social-Democrata (SPD) aos 19 anos de idade, aos 31 Schulz era eleito o mais jovem prefeito da Renânia do Norte-Vestfália, posto que manteve por mais de uma década. Em 1994 entrou para o Parlamento Europeu. Galgando rapidamente a hierarquia de Bruxelas, em 2000 assumia a liderança da bancada social-democrata alemã e, nove anos mais tarde, tornava-se presidente da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas (S&D). Em janeiro de 2012, Schulz foi eleito presidente do Parlamento Europeu, para um mandato de dois anos e meio. Em julho de 2014, consagrava-se como primeiro líder na história do órgão a ser reeleito. Na mira do populismo de direita Armado com seus ideais europeus, Schulz retorna agora para a política alemã. Social-democrata convicto, ele declarou certa vez, em entrevista à DW: "Minha cor favorita é vermelho. Eu pertenço aos vermelhos, essa é a minha vida." Caso opte por concorrer à chefia de governo pelo SPD, é provável que precise primeiro competir com o líder do partido e vice-chanceler, Sigmar Gabriel, igualmente cotado para a disputa. De acordo com uma pesquisa de opinião divulgada nesta quinta-feira, Schulz tem maiores chances de suceder Merkel no próximo ano: cerca de 42% dos entrevistados optaram por ele, contra 35% para Sigmar Gabriel. Entre os adeptos do SPD, a situação é ainda mais definida, com 54% para 41%. Assim como grande parte da Europa Ocidental, a Alemanha atravessa atualmente uma ascensão do euroceticismo e do populismo de direita. A figura na linha de frente do sentimento anti-UE é a líder da legenda Alternativa para a Alemanha (AfD), Frauke Petry. Em seguida ao anúncio de Merkel de que concorrerá pela União Democrata Cristã (CDU) à reeleição em 2017, Petry comentou, sarcasticamente, que seu partido gostaria muito de ver Schulz como candidato principal da SPD, mas só por ele ser responsável pelo fracasso da UE "como nenhum outro alemão". Juntos como "casal de sonhos da grande coalizão de governo", Merkel e Schulz encarnam a derrota da Alemanha, afirmou a líder ultradireitista. Paladino da causa europeia Em diversas ocasiões, Schulz expressou sua decepção com o avanço do euroceticismo, em especial após os chocantes resultados do referendo sobre o Brexit, em que 52% do eleitorado britânico se manifestou a favor da saída do Reino Unido da UE. Ao se dirigir ao Parlamento Europeu nesta quinta-feira, o presidente descreveu a integração europeia como "o maior projeto civilizatório dos séculos passados". Antes da existência da União Europeia, no tempo da Primeira Guerra Mundial, seus parentes estariam atirando uns nos outros, por viver em diferentes países, observou Schulz. "Muitas vezes não nos damos conta do que herdamos, como geração do pós-Guerra", comentara numa ocasião anterior. "Tenho vivido uma vida em liberdade, com oportunidades com que os meus pais nem sonhavam. E isso não vale nada?"

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