"Mulheres tendem a se integrar mais rapidamente à Alemanha"

Brenda Haas (IP)

Em entrevista à DW, top model afegã radicada em Berlim fala sobre a colisão de culturas que vivenciou no país. Há dois anos, ela fundou um projeto para aproximar imigrantes e alemães e promover a compreensão mútua.Nascida e criada na capital afegã, Cabul, Zohre Esmaeli fugiu com a família para a Alemanha em 1998, quando tinha 13 anos, para escapar da guerra e do regime talibã. A família enfrentou uma dura jornada de seis meses por cinco países, até finalmente chegar ao estado da Baviera, no sul da Alemanha, e recomeçar a vida como refugiados em um ambiente estrangeiro. A história de Esmaeli é uma história de colisão de duas culturas – quanto a educação, escolhas de trabalho ou casamento. Como estrangeira, ela sofreu bullying na escola que frequentava, e em casa enfrentou pressão para aceitar um casamento arranjado e objeções à decisão de se tornar modelo. Ela decidiu, no entanto, trilhar o próprio caminho. A modelo, designer e autora radicada em Berlim desfilou em grandes passarelas e estampou capas de revistas de moda e estilo de vida como a primeira top model internacional do Afeganistão. Fora do mundo da moda, Esmaeli decidiu se dedicar a ajudar outros recém-chegados a se integrarem na Alemanha. Após ter enfrentado os desafios de conciliar dois modos de vida tão diferentes dentro e fora de casa, ela concebeu e fundou o Culture Coaches (Instrutores Culturais, em tradução livre) em 2015. O projeto tem um objetivo duplo: oferecer aos recém-chegados, assim como aos alemães, insights sobre a cultura, o país e os sistemas de valores de cada lado. A ideia é treinar tanto não alemães como alemães a se tornarem instrutores que possam assim orientar pessoas onde quer que culturas se cruzem – seja na escola, no local de trabalho ou em outros ambientes sociais. Em entrevista à DW, Esmaeli afirma que a construção de respeito e de uma vida harmônica entre as pessoas de origens diferentes requer tempo, paciência e compreensão mútua. Deutsche Welle: Houve alguma experiência pessoal específica durante a sua estadia na Alemanha que lhe inspirou a criar o Culture Coaches? Zohre Esmaeli: Infelizmente, eu já havia sentido como pessoas, especialmente mulheres, eram discriminadas no meu país natal. Na Alemanha, sofri discriminação e julgamento. Você é julgado baseado em sua cor da pele, origem, língua, religião ou deficiência. Hoje eu posso servir de exemplo e espero influenciar positivamente e mudar a maneira como tratamos uns aos outros. É por isso que o Cultural Coaches é tão especial para mim e estou me dedicando integralmente para ajudar ambos os lados – imigrantes e locais – a fim de evitar mal-entendidos e lhes fornecer o conhecimento cultural necessário. É preciso tempo, paciência e compreensão mútua para construir respeito e uma vida comunal pacífica e feliz entre as pessoas de diferentes origens. Quais áreas de treinamento serão cobertas pelo Culture Coaches? Os treinadores irão se concentrar nas áreas sociais onde geralmente surgem conflitos, como família e sociedade, educação, política e ordem social. A igualdade de gênero e o papel das mulheres também serão temas importantes para nós. Seria o entusiasmo em aprender sobre uma nova cultura um primeiro passo importante para a integração? Sim, absolutamente. Deve haver entusiasmo para aprender mais sobre o país e a sociedade, assim como o desejo e o ímpeto de entender como se tornar parte dessa sociedade. O Culture Coaches ainda não deu início aos trabalhos, pois estamos na fase de criar o currículo de treinamento para os futuros instrutores. No entanto, acreditamos que quem quer que nos contate no futuro já terá dado o primeiro passo para aprender mais sobre a Alemanha. Esperamos semear as sementes de pensamento e atitudes positivas. Você estará envolvida ativamente nas sessões de treinamento? Estou envolvida em todos os níveis do projeto para implementar meus conhecimentos e experiências, mas não farei parte do processo de treinamento. Isso tem de ser feito por especialistas treinados e qualificados. Além disso, o projeto só pode ser bem sucedido com uma equipe. Uma pessoa não pode controlar tudo sozinha. Como será a representação de gênero nos treinamentos? O objetivo é treinar homens e mulheres em igual número e nível. Mas pode haver momentos em que haverá mais homens ou mais mulheres que precisam de treinamento. Iremos treinar ambos como instrutores para que possamos lidar com todas as demandas. Você vê uma diferença na maneira como mulheres e homens estrangeiros reagem ou se adaptam à integração na Alemanha? A partir da minha experiência pessoal, acho que as mulheres tendem a se integrar mais rapidamente do que os homens. Para pessoas do Afeganistão, por exemplo, é algo completamente novo viver uma igualdade de gênero. Quais são as principais barreiras interculturais que recém-chegados costumam enfrentar na Alemanha? Na minha experiência até agora, as principais barreiras são o choque de valores, línguas, atitudes e expectativas. A Alemanha geralmente oferece um ambiente favorável à integração? Sim. Talvez não tenha sido sempre tão favorável como é agora, mas tenho a impressão de que agora há mais consciência entre as pessoas. Você concorda que enquanto os estrangeiros tentam aprender a língua e a cultura local, os locais também deveriam se dispor a aceitar as pessoas que ocasionalmente tropecem com a gramática ou que não consigam entender certos costumes? Sim, absolutamente. Eu concordo totalmente. A integração é de fato uma via de mão dupla.

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