Decisão dos EUA abala reputação e pode afetar venda de carne brasileira

Fernando Caulyt

Para analista, na esteira da suspensão da importação de carne fresca do Brasil pelos EUA, chineses poderão restringir compra do produto brasileiro. Motivada pela Operação Carne Fraca, UE dá ultimato a Brasília.Os EUA suspenderam nesta quinta-feira (22/06) todas as importações de carne bovina in natura do Brasil, em mais um movimento que prejudica a reputação do produto brasileiro no exterior, abalada após a Operação Carne Fraca, deflagrada em março deste ano. De acordo com comunicado do Departamento de Agricultura americano (USDA), desde então os EUA rejeitaram 106 lotes de carne bovina fresca brasileira, equivalente a 11% do total, devido a "preocupações com a saúde pública, condições sanitárias e questões de saúde animal". Leia mais: EUA suspendem importação de carne brasileira "Mais uma vez, a imagem [da carne brasileira] ficou arranhada. Pelo fato de ser proibida a importação não pelo aspecto comercial, mas pelo sanitário, isso cria uma imagem negativa", diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). "Os EUA são uma vitrine para o mundo. Isso pode ter um impacto duplo: redução da quantidade exportada e do preço do produto brasileiro." Para o economista Marcos Troyjo, diretor do BricLab da Universidade de Columbia, nos EUA, o consumidor estava acostumado a associar a carne brasileira com frescor, sabor e qualidade. "Com essa notícia, o impacto na opinião pública é negativo. As autoridades de outros países se sentirão pressionadas e deverão reforçar as inspeções sanitárias do produto brasileiro", frisou. Na esteira da decisão dos EUA, a China – maior importadora de carne bovina brasileira in natura e que abriu nesta semana seu mercado para a carne bovina americana – poderá diminuir a compra do produto brasileiro por questões sanitárias, aponta Castro. De janeiro a maio deste ano, as exportações de carne bovina in natura do Brasil para os EUA somaram 11.792 toneladas, o equivalente a 49 milhões de dólares. Em comparação, no mesmo período, a China importou 333 milhões de dólares do produto brasileiro e, em segundo lugar, Hong Kong comprou 316 milhões de dólares de carne bovina in natura do país. Na terceira posição está a Rússia, com 190 milhões de dólares. Os EUA aparecem em nono lugar. Revés após 15 anos de esforços Os EUA detectaram abscessos na carne bovina in natura brasileira, problema relacionado à reação aos componentes da vacina contra febre aftosa usada pelo Brasil. Os 11% da carne brasileira fresca importada desde março que foram rejeitados está bem bem acima da taxa de rejeição de 1% das entregas provenientes de outros países. Segundo o Departamento de Agricultura americano, a suspensão será mantida até que o Ministério da Agricultura brasileiro adote medidas para corrigir os problemas apontados. O Brasil, maior exportador de carne bovina do mundo, conseguiu acesso ao mercado americano do produto in natura somente no segundo semestre do ano passado, depois de mais de 15 anos tentando obter a autorização. O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blairo Maggi, afirmou que a pasta já havia recebido a informação sobre os abscessos e cancelado as vendas de cinco das 13 fábricas habilitadas a exportar. "Já tínhamos tomado providências e estamos finalizando uma nova forma de inspeção dessas carnes nos frigoríficos, com maior rigor", frisou. Em comunicado, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) afirma que medidas para adequação dos processos produtivos já estão sendo tomadas. Elas devem ser apresentadas nas próximas semanas. "A entidade acredita que [...] as exportações podem ser retomadas no curto prazo." União Europeia dá ultimato ao Brasil Na esteira da Operação Carne Fraca – deflagrada em março e que revelou irregularidades na produção e fiscalização no setor –, a União Europeia (UE) realizou no início de maio uma auditoria aprofundada nos frigoríficos brasileiros que eram autorizados a exportar carne para o bloco europeu. Como resultado, o comissário de Saúde e Segurança Alimentar da UE, Vytenis Andriukaitis, enviou no último dia 7 de junho um ofício para Brasília, sinalizando a possibilidade de banir a compra do produto brasileiro. Entre os problemas identificados, segundo o documento, estavam "deficiências críticas na maior parte dos setores inspecionados, muitas das quais de natureza grave". Em resposta à DW Brasil, a Comissão Europeia afirmou que, desde que o bloco teve conhecimento da Operação Carne Fraca, foram instituídas "verificações adicionais para reforçar os controles de importação e garantir a segurança dos produtos importados do Brasil". "Controles reforçados na fronteira da UE continuarão acontecendo", disse o órgão europeu. De acordo com a Comissão Europeia, Blairo Maggi respondeu a Andriukaitis em 19 de junho, afirmando que iria implementar as medidas solicitadas. A Comissão Europeia disse que irá monitorar as ações com as quais as autoridades brasileiras se comprometeram. "Uma nova auditoria será realizada no final de 2017 para avaliar a eficácia dessas medidas. Caso o Brasil falhe em tal implementação, a Comissão Europeia terá que adotar medidas adicionais para proteger a saúde dos consumidores da UE", afirmou o braço executivo do bloco europeu.

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