Seguindo os passos de Putin em Hamburgo

Roman Goncharenko (av)

Na década de 90, político russo visitou cidade alemã várias vezes como representante de São Petersburgo, numa história de cooperações e pequenos escândalos. Sua recepção na cúpula do G20 deverá ser menos calorosa.Do alto do terraço da Philips Medical Systems, Wolfgang Rosenbauer observa os aviões no horizonte. A sede de seu antigo empregador, na zona norte de Hamburgo, fica perto do aeroporto. "Eles todos vão desembarcar aqui", diz o homem de cabelos branquíssimos, referindo-se aos chefes de Estado e governo dos países do G20, que irão participar de uma cúpula do grupo na cidade alemã em 7 e 8 de julho. Entre eles estará o presidente russo, Vladimir Putin. No início dos anos 1990, como vice-presidente para a Europa Oriental da divisão medicinal da Philips, Rosenbauer o recebeu num edifício próximo. Na época, o conglomerado holandês iniciara um projeto de grande porte na Rússia, a fundação de uma indústria de equipamentos médicos, que deveria movimentar cerca de 1 bilhão de marcos alemães. No entanto, faltaram verbas e material para uma fábrica em São Petersburgo que produziria canhões de elétrons para radioterapia do câncer. Rosenbauer fez contato com Putin, então vice-prefeito e responsável pelas relações exteriores de São Petersburgo. Como ambas as metrópoles são parceiras, na época o político russo viajou mais de uma dezena de vezes à "cidade mais bela da Alemanha", como denominava Hamburgo. Durante uma visita em 1992, o alemão convidou Putin a um tradicional restaurante de carnes, que hoje não mais existe. O visitante russo "fez como se não entendesse nada de alemão", fazendo um funcionário traduzir a conversa. No entanto, na qualidade de oficial da KGB, na década de 80, ele estivera estacionado numa outra cidade à margem do rio Elba, Dresden, e falava alemão fluentemente. "No fim, ele me olhou e disse, em alemão: 'Ótimo, me passe dos documentos.'" Parceiro difícil Rosenbauer atribui o episódio à "desconfiança natural" e ao "treinamento de KGB" de Putin. "O comportamento dele era extremamente controlado; ele próprio não dizia nada, só perguntava." Essa "capacidade de focalizar" impressionou o comerciante alemão. Embora ciente do passado de Putin no serviço secreto, isso "não o incomodou nem um pouco". No fim das contas, o projeto não precisou do apoio de Putin. "Acabou sendo desnecessário, pois a coisa começou a andar novamente. Chegou uma mensagem de Moscou: 'Agora funciona, não precisa fazer mais nada'", lembra Rosenbauer. Posteriormente, ele encontrou o político russo diversas vezes, em locais diferentes, inclusive na prefeitura. "Parecia que ele voava, de tão veloz que disparava pelos corredores." Quando a cidade de Hamburgo precisava de algo "fazia tudo por meio de Putin, e aí a coisa funcionava". Um funcionário municipal hamburguês que se encontrou com o então vice-prefeito de São Petersburgo algumas vezes assegura que "nós podíamos confiar na palavra dele, o que não época não era uma coisa óbvia". Por outro lado, ele também era "um parceiro difícil". Escândalo em ambiente solene Certa vez, Hamburgo se confrontou com uma face de Putin que até hoje provoca espanto. Foi na "Ceia de São Matias", evento celebrado desde 1356, no qual centenas de personalidades da política, economia e cultura se reúnem para jantar na prefeitura histórica. "É uma instituição muito antiga, muito solene, muito nobre", explica Wolfgang Rosenbauer. "Na cerimônia, as pessoas se comportam, a prataria da cidade de Hamburgo cobre as mesas, os convidados se apresentam de fraque e em suas melhores roupas. Cultiva-se um small talk do mais alto nível." Em 25 de fevereiro de 1994, Putin também estava presente no evento. Mas, durante o discurso do convidado de honra, o então presidente da Estônia, Lennart Meri, o político russo fez algo que nunca se vira nesse ato solene: ele se levantou e foi embora. "Lançando um olhar de desprezo ao anfitrião, ele abandonou o salão, cada passo acompanhado pelo ranger do assoalho", foi como uma correspondente do jornal Die Zeit descreveu a cena. "Um burburinho o acompanha. 'Quem foi? O que deu nele?' E a porta já se fecha, com um estrondo." A possível chave para o arroubo de Putin é o discurso de Meri, que hoje soa como uma profecia do que aconteceria 20 anos depois na península ucraniana da Crimeia. E a reação do russo mostra que, bem antes de seu discurso de 2007, em Munique, ele enviara uma mensagem ao Ocidente. O presidente estoniano referiu-se na ocasião a um comunicado do Ministério russo do Exterior. "Ele constata que o problema dos grupos russo-estonianos não pode mais ser resolvido por meios puramente diplomáticos." Moscou considerava outros métodos, deduziu Meri, advertindo contra a "política neoimperialista" da Rússia e apelando aos demais países do Leste Europeu, também à Ucrânia, para que se integrassem ao "mundo democrático". Título acadêmico sob protesto Dez anos mais tarde, ocorreria mais uma celeuma na cidade alemã envolvendo Putin. Sua visita como presidente estava programada para setembro de 2004. Na época, o chanceler federal alemão era Gerhard Schröder, com quem o líder russo mantinha relações amigáveis. A Universidade de Hamburgo pretendia conferir a Putin o título de doutor honoris causa. No entanto, houve resistência. O professor de sociologia Rolf von Lüde foi um dos cerca de 60 catedráticos que participaram de um abaixo-assinado em protesto. "Os pontos essenciais dessa petição eram que, sob a responsabilidade de Putin, se iniciara uma segunda guerra da Chechênia", diz o professor. Apontou-se também o domínio autoritário e a repressão à imprensa, a ONGs e a políticos oposicionistas. Hoje, o professor alemão se sente confirmado: "Aquilo de que reclamamos na época é hoje cotidiano na Rússia, e Putin é o responsável." A universidade cancelou na última hora a entrega da distinção acadêmica, alegando problemas de datas. Putin também não compareceu, apontando como motivo o atentado em Beslan, que matara centenas. Agora, a cidade às margens do Elba volta a receber o chefe de Estado russo para o G20 com sentimentos ambivalentes. "A população está dividida", observa Von Lüde. Desta vez, a recepção a Putin deverá ser menos calorosa.

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