Seis explicações para o sucesso da AfD

Jefferson Chase (ca)

No dia seguinte à eleição, pesquisadores do principais institutos de opinião da Alemanha deram uma entrevista para explicar as razões do sucesso do partido nacionalista de direita.Na eleição parlamentar alemã de domingo passado (24/09) foi particularmente elevado o interesse internacional pelo partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que obteve 12,6% dos votos e elegeu 94 deputados, tornando-se a terceira maior força no Bundestag (Parlamento). Na manhã seguinte à eleição, os diretores dos quatro principais institutos de pesquisa de opinião da Alemanha falaram a jornalistas de todo o mundo sobre as razões do sucesso da legenda nacionalista. 1 - AfD é forte entre eleitores jovens do leste alemão Não foi surpresa que a AfD tenha se saído bem no leste alemão, ou seja, na região da antiga Alemanha Oriental, que é economicamente mais atrasada do que o oeste. Ainda mais pronunciada do que a simples dicotomia Leste-Oeste é a diferença de atitude entre as pessoas jovens nessas duas partes da Alemanha. "A AfD é muito forte entre os jovens no leste, e é fraca entre os jovens do oeste", disse Nico A. Siegel, diretor do instituto Infratest-Dimap. Os pesquisadores estimaram que gerações serão necessárias para que os partidos tradicionais recuperem o jovem eleitorado do leste do país. 2 - AfD recruta na internet apoio de quem não votava Os especialistas ficaram impressionados com a capacidade da AfD de angariar apoio entre eleitores que se negavam a ir às urnas. "Como observamos nas eleições estaduais anteriores, a AfD é bem-sucedida em atrair eleitores de um segmento de antigos não votantes", explicou Peter Matuschek, do grupo Forsa. Os pesquisadores também disseram que, embora a mídia tradicional tenha sido mais importante do que as redes sociais para a maioria dos eleitores, o contrário aconteceu no caso dos apoiadores da AfD. "A importância da internet como fórum de comunicação é acima da média para eles", disse Renate Köcher, da Allensbach. "É uma plataforma onde esse grupo sente ter encontrado pessoas de mentalidade semelhante e não se sente estigmatizado, como acontece muitas vezes na esfera pública em geral", explicou. 3 - AfD preenche espaço vazio no espectro político Muitos especialistas descreveram a ascensão da AfD como uma catástrofe sísmica. Mas os pesquisadores enfatizaram que o espectro político na maioria das sociedades ocidentais inclui um partido de extrema direita. Em sua opinião, a capacidade da AfD de tirar votos do partido conservador da chanceler Angela Merkel reflete uma reação natural contra uma grande coalizão de governo. Eles também disseram ver isso como resultado de uma gradual desestigmatização da política mais à direita, que devido ao passado nacional-socialista da Alemanha costumava ser reprimida. "O sistema partidário que tínhamos anteriormente apresentava uma ausência de representação na margem mais à direita", explicou Siegel. "Não estou falando de atitudes quase fascistas, mas de eleitores que não veem mais a CDU/CSU como um confiável ponto de referência conservador", acrescentou o diretor do instituto Infratest-Dimap. Os pesquisadores advertiram que nem todos os apoiadores da AfD têm uma tendência neonazista ou racista, e que os relatos da mídia sobre o partido como repositório de uma nova forma de nazismo podem ter jogado eleitores indecisos nos braços dos populistas de direita. 4 - AfD é um partido de protesto, mas não só Muito se falou sobre a ideia de que a maioria dos que deram seu voto à AfD o fizeram para expressar insatisfação com os partidos tradicionais. As pesquisas sugeriram que os eleitores de protesto podem ser a maior parte dos apoiadores dos populistas de direita, o que poderia significar que a sorte dessa legenda estaria com os dias contados se os partidos tradicionais conseguirem debelar o descontentamento público. Embora isso possa ser verdade, os pesquisaram disseram não ver a Alternativa para a Alemanha apenas como um partido de protesto. "Existem alguns eleitores 'em cima do muro', que queriam apenas enviar um recado, mas a maioria daqueles que votaram na AfD fez isso por convicção", explicou Renate Köcher. Os pesquisadores enfatizaram que o espectro político alemão provavelmente incluirá um partido de extrema direita nos próximos anos. 5 - AfD se alimenta do medo dos estrangeiros Os pesquisadores concordaram que a questão por trás do sucesso da AfD está no medo dos estrangeiros e dos refugiados em particular. Eles disseram que o sucesso do partido, que havia caído durante a maior parte de 2017, com a redução do número de requerentes de refúgio, voltou a aumentar há cerca de 10 dias, quando os refugiados voltaram a ser tematizados. Os especialistas atribuíram essa tendência ao uso consciente por parte da AfD de comentários controversos e muitas vezes ofensivos, como também à disposição da mídia em relatar essas observações provocadoras. Segundo os especialistas, os eleitores da AfD seriam quase quatro vezes mais propensos a se sentir pessoalmente ameaçados por estrangeiros do que o público em geral. Essa angústia não teria qualquer relação com a real presença de migrantes ou de refugiados. O apoio à AfD é mais elevado nas regiões da Alemanha com o menor número de estrangeiros – um sinal de que a xenofobia seria em grande parte apenas uma válvula de escape, disseram os pesquisadores. "Não se trata realmente dos refugiados", explicou Matthias Jung, do grupo de pesquisa Wahlen. "É uma discussão substituta, que esconde os temores de se perder no mundo moderno em todas as suas dimensões. Sejam preocupações culturais, sejam questões econômicas da globalização, como o trabalho: qualquer aspecto em que as pessoas temem não estar em condições de competir leva ao medo dos estrangeiros." Essa atitude não se restringe a nenhuma camada socioeconômica, mas atravessa todas as esferas de renda. 6 - Eleitores da AfD são intrinsecamente diferentes Embora sejam muitos, os apoiadores da AfD representam uma anomalia na política e na sociedade alemãs. Não só a visão deles sobre os estrangeiros é parcialmente alheia à realidade, eles também são o único grupo na Alemanha a ser completamente contra a União Europeia, que é cético e, às vezes, hostil à Lei Fundamental (Constituição) e que simpatiza com o presidente dos EUA, Donald Trump. Entre os partidos tradicionais, muito se falou em "ganhar de volta" os apoiadores da AfD, mas os pesquisadores acham que isso não é uma tarefa fácil. "Trata-se de um grupo completamente diferente de eleitores", explicou Matuschek. "Os outros partidos dizem que querem reconquistá-los, mas, se você olhar para a estrutura e as atitudes básicas desse grupo, como eles pretendem fazer isso?"

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