Zeitgeist: A misteriosa renúncia do premiê libanês

Alexandre Schossler

Líbano é palco da luta por influência entre Arábia Saudita e Irã, um conflito que já produziu centenas de milhares de mortos e milhões de refugiados e está desestabilizando ainda mais o Oriente Médio.Não se sabe o que exatamente aconteceu nos bastidores da inusitada e surpreendente renúncia do primeiro-ministro Saad Hariri, mas uma coisa é certa: assim como acontece no Iêmen e na Síria, o Líbano é palco do crescente conflito entre as duas grandes potências regionais: Arábia Saudita e Irã.

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A primeira se vê como protetora dos sunitas, grupo ao qual pertence também Hariri. Já Teerã é a grande potência xiita e tem na milícia Hisbolá, que participa do governo libanês, seu principal aliado no país.

Analistas veem na renúncia de Hariri o dedo do novo líder saudita de facto, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, que tem se mostrado muito mais agressivo na política externa do que os líderes anteriores e está disposto a bater de frente com o Irã.

Mas forçar Hariri a renunciar foi demais até para Salman. Os aliados árabes dos sunitas não apoiaram o movimento, e, nos bastidores, a Arábia Saudita sofreu uma tremenda pressão dos Estados Unidos para que permitisse o retorno de Hariri a Beirute, como confirmaram diplomatas americanos e europeus à agência de notícias Reuters.

A Arábia Saudita investiu esforços políticos e muitos milhões de dólares, ao longo de anos, para fortalecer Hariri no Líbano depois do assassinato do pai dele, o também primeiro-ministro Rafik Hariri, em fevereiro de 2005. Rafik foi primeiro-ministro do Líbano por mais de uma década e se tornou o principal líder sunita do país, intimamente ligado à Arábia Saudita. O atentado com explosivos que matou ele e mais de 20 outras pessoas é atribuído à Síria e ao Hisbolá.

Saad Hariri assumiu o poder em duas oportunidades, a primeira de 2009 a 2011, e a segunda em 2016. Nas duas formou um governo de unidade nacional, aliando-se ao Hisbolá – ou seja, aos possíveis assassinos de seu pai. O que incomoda os sauditas é que, na prática, quem ganhou poder nos últimos anos no Líbano foi a milícia xiita e seus apoiadores, o que inclui o presidente Michel Aoun.

Único grupo a não depor armas depois do fim da guerra civil de 1975 a 1990, o Hisbolá é acusado, tanto fora como dentro do Líbano, de ser um Estado dentro do Estado. Para os sauditas, Hariri tem feito muito pouco para impedir que a milícia se fortaleça internamente e atue como uma força militar na região, ajudando o Irã a elevar sua influência. Isso explica por que, ao retornar a Beirute e "suspender" sua renúncia, Hariri defendeu justamente que o Líbano se mantenha longe dos conflitos no Oriente Médio e adote uma política de distanciamento. O alvo da mensagem, claro, era o Hisbolá.

Segundo especialistas, o cálculo dos sauditas era que, se Hariri fosse posto de lado, seu papel de mera cobertura para o Hisbolá ficaria evidente, o que poderia fazer com que os demais países sunitas, além dos Estados Unidos e de Israel, mirassem o grupo com mais sanções e talvez até mesmo militarmente. A manobra não deu certo, até porque os libaneses se uniram em torno de Hariri e acusaram os sauditas de o terem forçado a renunciar.

A luta entre Arábia Saudita e Irã por influência política está desestabilizando ainda mais o Oriente Médio. Além das duas potências regionais, os Estados Unidos e a Rússia também estão envolvidos. Os conflitos armados resultantes, como os da Síria e do Iêmen, já custaram mais de 400 mil vidas, além de terem produzido mais de 5 milhões de refugiados.

A coluna Zeitgeist oferece informações de fundo com o objetivo de contextualizar temas da atualidade, permitindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada das notícias que recebe no dia a dia.

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