Os filhos alemães do "Estado Islâmico"

Matthias von Hein (ca)

Durante a expansão do movimento extremista, cerca de 200 jovens alemãs deixaram seu país para se juntar aos jihadistas. Muitas delas tiveram filhos, os quais o governo em Berlim quer, agora, repatriar.No início de julho, um vídeo proveniente de Mossul, cidade do norte iraquiano, correu o mundo. Nas ruínas da cidade, ele mostrava a prisão de Linda W., uma alemã de 16 anos de Pulsnitz, na Saxônia, por forças de segurança iraquianas.

Um ano antes, ela havia se juntado secretamente ao "Estado Islâmico" (EI), viajando para o território da organização terrorista, onde se casou com Abu Osama al-Shishani – que provavelmente foi morto.

O que o vídeo não mostrou foi que Linda – também ela quase uma criança – possui um pequeno bebê, com quem já se encontra há quase um ano numa prisão militar em Bagdá.

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Linda está entre os 940 alemães que levaram a sua radicalização até o ponto de viajar para a região dominada pelo EI. Estima-se que 20% sejam mulheres – ou seja, quase 200. Muitas delas tiveram filhos.

Agora, o governo em Berlim, segundo a imprensa alemã, estaria tentando repatriar essas crianças. Na Alemanha, elas deverão, primeiramente, ser alojadas em casas de parentes, pois as mães não deverão ser libertadas tão rapidamente.

Pelo desejo do primeiro-ministro iraquiano, Haidar al-Abadi, Linda W. deverá ser julgada por um tribunal em Bagdá. Em setembro último, Abadi disse à agência de notícias AP que, caso a participação de Linda W. no assassinato de inocentes seja comprovada, ela pode enfrentar pena de morte.



Campanha publicitária

Em 2014, o EI lançou uma grande campanha publicitária com o objetivo de atrair meninas e jovens mulheres para a Síria e o Iraque.

"O problema era simples: eles não tinham mulheres para os combatentes estrangeiros", diz a especialista Susanne Schröter, do Centro de Pesquisas Islã Global de Frankfurt.

Com fotos de homens jovens e atraentes, de mulheres com véus adorando os seus combatentes, com histórias de amor inventadas em forma de diário, elas foram abordadas segundo o princípio do "jihad romântico".

E com sucesso, observa Schröter: "Isso motivou muitas mulheres jovens a se mudar realmente para lá: casar-se com um combatente, para quem queriam cuidar da casa; com quem queriam ter filhos, futuras gerações para, assim, apoiar o califado."

Nadja Ramadan também é uma dessas mulheres. Atualmente, ele se encontra num campo no norte da Síria. Depois da fuga da autoproclamada capital do EI, Rakka, ela foi presa por combatentes pershmerga.

Em setembro último, foi encontrada por um repórter do jornal Die Zeit. Hoje com 31 anos, Ramadan viajou três anos atrás para o território do EI. Ali, ela se casou com um jihadista alemão de Hamburgo, com quem teve dois filhos – um com quase três anos, outro de somente cinco meses. Em mensagem de vídeo, ela apelou à chanceler federal alemã, Angela Merkel, para trazê-la de volta para a Alemanha.



Crianças radicalizadas

Segundo relatos da mídia, em Erbil, no Curdistão iraquiano, encontram-se ao menos outras quatro crianças de raízes alemãs presas com suas mães. No momento, sabe-se da existência de uma meia dúzia de crianças de origem alemã em prisões.

Mas esse número não deve corresponder, de longe, a todas as crianças de mães alemãs que nasceram na região do EI ou que cresceram ali ao menos temporariamente.

"Todas as jovens mulheres têm filhos. Esse é um dos problemas com o qual nós, como sociedade, teremos que lidar em breve – com as crianças das mulheres que retornaram da Síria e do Iraque, para onde haviam ido servir ao califado. Possivelmente, essas crianças estão radicalizadas. Elas podem estar traumatizadas. E, claro, nesse ponto surgem muitos problemas para nós", diz Schröter.

Por esse motivo, os esforços em trazer para o país crianças alemãs de partidários do EI também é discutido sob o aspecto de segurança. Em meados de outubro último, o chefe do serviço secreto doméstico alemão, Hans-Georg Maassen, advertiu: "Vemos o perigo de que filhos de jihadistas retornem das regiões de combate à Alemanha, socializados e doutrinados conforme o radicalismo islâmico."

No entanto, esse risco diminui quanto menor for a criança. De acordo com uma reportagem do jornal Washington Post do ano passado, para os filhos do EI, o treinamento de combate começa aos seis anos de idade. Ao chegar à adolescência, eles já devem estar preparadas para ataques suicidas.

O fim do EI não significa o término da doutrinação extremista de crianças e adolescentes ou a sua educação para um suposto jihad: na província de Idlib, no nordeste da Síria, o braço da Al Qaeda Hayat Tahrir al-Sham (Comitê de Libertação do Levante) assumiu totalmente o controle em meados deste ano. E que seu currículo escolar não se difere daquele do EI, já foi foi noticiado pela publicação online Vice desde 2015.

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