Jornalista russo dado como morto reaparece na Ucrânia

Arkady Babchenko, ex-militar e crítico de Putin, admite ter participado de trama do serviço de inteligência ucraniano para "evitar real atentado" à sua vida. Kiev acusou o Kremlin de estar por trás do falso assassinato.O jornalista opositor russo Arkady Babchenko, que tinha sido dado como morto na noite desta terça-feira (29/05) após um suposto atentado cuja responsabilidade a Ucrânia atribuiu a Moscou, reapareceu durante um entrevista à imprensa em Kiev, causando espanto entre os presentes.

"Ainda sigo vivo", disse o jornalista, que admitiu ter cooperado nos últimos dois meses com o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), que simulara a sua morte numa operação que, segundo o serviço secreto ucraniano, buscava evitar um real atentado dos serviços secretos russos contra a vida de Babchenko.

Segundo Vasyl Grytsak, diretor do SBU, o jornalista teria sido informado há um mês sobre planos de uma investida contra ele. "Graças a essa operação, conseguimos frustrar uma trama cínica e documentar como o serviço de segurança russo estava planejando esse crime", afirmou Grytsak. Uma pessoa teria sido presa.

A notícia sobre o assassinato de Babchenko, que teria sido baleado na porta de sua residência em Kiev, resultou em troca de acusações entre o governo ucraniano e Moscou. O primeiro-ministro da Ucrânia, Vladimir Groisman, chegou a acusar a Rússia de estar por detrás do assassinato do jornalista opositor russo.

"Tenho certeza de que a máquina do totalitarismo russo não perdoou sua honestidade e princípios", escreveu Groisman em seu Facebook. O político acrescentou que Babchenko era "um verdadeiro amigo da Ucrânia", que contou ao mundo "a verdade sobre a agressão russa". "Os assassinos devem ser castigados", concluiu o político ucraniano.

O ministro do Exterior da Ucrânia, Pavel Klimkin, também chegou a apontar Moscou como o mais provável responsável pelo suposto assassinato.

"É muito cedo para dizer quem está por detrás disso, mas situações análogas nos lembram de que a Rússia usa táticas distintas para desestabilizar a Ucrânia. Em particular executa atentados terroristas, realiza atividades de sabotagem e assassina políticos", disse Klimkin, durante reunião do Conselho de Segurança da ONU, em Nova York.

O chefe da diplomacia ucraniana afirmou que o jornalista teve que deixar a Rússia em 2017 "depois de ataques e ameaças a ele e à sua família". "Seguiu lutando por uma Rússia democrática, pela Ucrânia, e certamente Moscou via nele a qualidade de inimigo", acrescentou.

Moscou critica conduta de Kiev

O governo da Rússia, por sua vez, chegou a condenar o assassinato do jornalista, mas depois do relato de sua sobrevivência, resolveu criticar a conduta do governo da Ucrânia.

"O primeiro-ministro ucraniano já estava falando sobre como isso [o suposto assassinato] foi executado pelos serviços secretos russos", disse o ministro do Exterior da Rússia, Serguei Lavrov. "Esta forma de conduzir assuntos internacionais é muito triste."

Mais cedo, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, chegou a condenar o assassinato de Babchenko. "Condenamos firmemente esse assassinato. Esperamos uma investigação autêntica, e não voltada para os holofotes, para esclarecer quem está por detrás do crime", disse.

Peskov denunciou que, "infelizmente, nos últimos anos, a Ucrânia tem se tornado um lugar muito perigoso para o trabalho dos jornalistas".

"Sabemos que muitas pessoas estão morrendo ali, muitos jornalistas. Os comunicadores são expulsos do país ou mandados para a prisão", destacou o funcionário russo. O porta-voz do Kremlin acrescentou que a situação é "inaceitável" e exigiu uma "firme reação internacional" que obrigue as autoridades ucranianas a tomarem providências.

Ex-militar e crítico de Putin

A notícia originalmente difundida dava conta de que Babchenko, de 41 anos, casado e pai de uma filha, morreu na capital ucraniana quando era levado a um hospital após ter sido baleado na porta da sua casa. O chefe do Departamento de polícia de Kiev, Andrey Krischenko, afirmou que "o mais provável" era que o motivo do crime fosse sua atividade profissional.

Ex-militar que combateu nas duas campanhas da Chechênia, Babchenko se reinventou como correspondente de guerra para o jornal Moskovski Komsomolets, o mais lido da Rússia. Posteriormente passou a escrever para o jornal opositor Novaya Gazeta, onde publicou matérias com críticas abertas ao governo do presidente Vladimir Putin.

Em fevereiro de 2017, Babchenko denunciou reiteradas ameaças contra ele e sua família e deixou a Rússia para se refugiar primeiro em Praga e depois em Kiev, onde se estabeleceu desde agosto de 2017.

O assassinato de Babchenko não seria inédito contra jornalistas russos na Ucrânia. O assassinato do russo-bielorrusso Pavel Sheremet, que morreu em julho de 2016 num atentado com carro-bomba em Kiev, ainda não foi esclarecido.

PV/efe/lusa/rtr/ap

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