O que esperar do novo premiê da Espanha?

  • Pedro Armestre/AFP

    Ascensão de Pedro Sánchez marca volta dos socialistas ao poder na Espanha após hiato de quase sete anos. Pró-europeu, novo chefe de governo terá que lidar com crise da Catalunha e oposição que pede eleições antecipadas

    Ascensão de Pedro Sánchez marca volta dos socialistas ao poder na Espanha após hiato de quase sete anos. Pró-europeu, novo chefe de governo terá que lidar com crise da Catalunha e oposição que pede eleições antecipadas

Após a queda de Mariano Rajoy, que foi derrotado numa moção de censura, o deputado socialista Pedro Sánchez foi nomeado pelo Parlamento o novo presidente do governo da Espanha nesta sexta-feira (1º). Sua ascensão deve marcar uma nova era na quarta maior economia da União Europeia, que vinha sendo governada pelos conservadores de Rajoy desde 2011.

Sánchez, de 46 anos, liderou a apresentação da moção de censura que resultou na queda do governo conservador. O episódio foi desencadeado por uma condenação de uso de caixa 2 pelo Partido Popular (PP) de Rajoy.

Para derrubar Rajoy era necessário o apoio de 176 deputados – o socialista conseguiu 180. Em 2015, Sánchez chegou a dizer que o rival não era um político "decente", por causa dos casos de corrupção protagonizados nos últimos anos por políticos do PP.

Foi a primeira vez desde o retorno da democracia ao país que um novo governo chegou ao poder por meio de um voto de desconfiança. Por uma peculiaridade da Constituição espanhola que visa evitar vácuos de poder, o autor de um pedido bem-sucedido de moção de censura pode ser nomeado novo chefe de governo.

Será também a primeira vez que um presidente de governo não tem assento no Congresso dos Deputados. Isso significa que ele próprio não poderá votar as medidas que propuser nem as propostas de outros grupos políticos.

Apoios de outros partidos

O novo premiê, que lidera o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), vai ser o terceiro socialista a comandar o governo espanhol desde 1977, na era pós-Franco. No poder, vai liderar um governo de minoria e provavelmente terá que procurar apoio de outros grupos políticos e ainda acomodar as exigências de partidos menores que apoiaram sua moção contra Rajoy.

Por décadas, a política espanhola foi marcada pelo bipartidarismo. O PSOE e o PP dividiam entre si largas fatias do eleitorado. Até 2011, por exemplo, as duas legendas acumulavam 84% dos votos e 92% dos mandatos parlamentares. No entanto, o sistema começou a ruir quando milhões de eleitores debandaram para novas legendas, como o Podemos e o Cidadãos. Hoje a política espanhola está dividida em pelo menos quatro forças e legendas nacionalistas nanicas viram seu poder de barganha aumentar em meio às disputas políticas.

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O partido de Sánchez, o PSOE, só conta com 84 dos 350 deputados da Câmara. O Senado, por sua vez, é dominado pelo PP. A moção do socialista chegou a receber o apoio do partido de esquerda Podemos, que tem 69 deputados, mas a convivência entre as duas legendas promete não ser tranquila, segundo aponta a imprensa espanhola, já que ambos disputam o mesmo eleitorado.

A convivência também deve ser difícil com o partido Ciudadanos (Cidadãos), que se opôs à moção e conta com 32 deputados. A legenda liberal tem apresentado bons números nas pesquisas eleitorais e exige eleições antecipadas antes do fim da atual legislatura – e consequentemente ante do término do mandato de Sánchez como premiê –, que deve ser encerrada em 2020.

A questão das eleições antecipadas também tem o potencial de desgastar Sánchez com os eleitores. Uma pesquisa divulgada pelo jornal La Vanguardia aponta que pelo menos 47% dos eleitores querem novas eleições e que apenas 11% concordam que Sánchez governe com o programa que apresentou ao parlamento.

Posições

Enquanto esteve na oposição, Sánchez foi um crítico feroz do governo conservador. Sua intransigência chegou a lhe custar em 2016 a posição de chefe do PSOE, quando se recusou a apoiar mais um mandato de Rajoy e provocou um impasse na política espanhola. No entanto, ele trabalhou intensamente junto às bases do partido para recuperar seu cargo e maio de 2017 voltou à chefia do PSOE.

Na oposição, Sánchez também se opôs aos cortes de gastos no orçamento promovidos pelos conservadores e prometeu aumentar os investimentos sociais, especialmente para beneficiar os mais jovens e os idosos do país.

Ele também propõe uma nova abordagem a uma das principais dores de cabeça do governo espanhol: o movimento de independência da Catalunha.

O socialista é um crítico da secessão e disse que o Estado espanhol tem o direito de intervir na região se o governo local violar a Constituição. Há algumas semanas, chegou a comparar o novo chefe do governo catalão, Quim Torra, como uma espécie de "Le Pen da política espanhola", em referência à política francesa de extrema direita Marine Le Pen. Torra deve tomar posse no sábado, após o fim de sete meses de intervenção de Madri no governo regional por causa da declaração ilegal de independência promovida pelos separatistas.

Sánchez prometeu abrir novas conversas com os catalães e promover uma reforma constitucional para aperfeiçoar o sistema federalista do país e garantir a permanência da região na Espanha. Os separatistas parecem ter depositado confiança no socialista. Os membros de dois partidos nacionalistas catalães na Câmara espanhola acabaram engrossando a votação para derrubar Rajoy e garantir a escolha de Sánchez.

Apesar de ser um crítico de políticas de austeridade, Sánchez é um entusiasta da União Europeia e da permanência da Espanha no bloco. Ele já prometeu manter o orçamento fiscalmente conservador que foi recentemente negociado por Rajoy – e assim evitar temores de instabilidade econômica na EU.

Militante socialista desde os 21 anos, Sánchez, que também foi professor de economia, começou a carreira política como vereador na Câmara Municipal de Madri (2003-2009) e depois chegou ao Congresso dos Deputados, onde já em 2015 se tornou líder da oposição ao governo de Rajoy.

O político também conta com experiência no exterior, tendo trabalhado por dois anos em Bruxelas no fim da década de 90 como assessor da bancada socialista no Parlamento Europeu. Posteriormente, foi chefe de gabinete do Alto Representante das Nações Unidas na Bósnia para o Processo de Reconstrução, o espanhol Carlos Westendorp.

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