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Ex-presidente da África do Sul nega ser "o rei da corrupção"

6.abr.2018 - O ex-presidente sul-africano Jacob Zuma no tribunal em Durban - Felix Dlangamandla/AFP
6.abr.2018 - O ex-presidente sul-africano Jacob Zuma no tribunal em Durban Imagem: Felix Dlangamandla/AFP

15/07/2019 14h04

O ex-presidente da África do Sul Jacob Zuma negou hoje, perante uma comissão de investigações sobre corrupção, diversas acusações que pesam contra ele, afirmando que há anos tem sido alvo de conspirações e tentativas de destruir sua reputação.

"Fui difamado e acusado de ser o rei da corrupção", afirmou ele em depoimento na corte em Parktown, no subúrbio de Johanesburgo, onde se reúnem do lado de fora partidários e opositores do ex-líder.

O inquérito investiga suspeitas de que o ex-presidente teria permitido que seus aliados pilhassem os cofres públicos e exercessem influência na indicação de cargos no governo.

Zuma, porém, alegou que tudo não passou de uma conspiração para derrubá-lo e que jamais cometeu irregularidades em negócios com a família Gupta, envolvida em vários empreendimentos com empresas estatais e acusada de tráfico de influência durante seu governo.

"Nunca fiz nada ilegal com eles, eram apenas amigos. Jamais discuti qualquer assunto que não dissesse respeito a eles", afirmou. "Eram pessoas de negócios, e de sucesso. Eu não sou uma pessoa de negócios, não sei nada sobre negócios. Sou um político, sei algumas coisas sobre política."

O ex-presidente ainda acusou agências de inteligência estrangeiras de agirem contra ele, mas não mencionou os países que estariam envolvidos nessas ações. "Sobrevivi a tentativas de assassinato", afirmou. "Há pessoas que foram enviadas de fora do país para me matar."

Ao se pronunciar perante a comissão, Zuma adotou um tom desafiador e disse ser vítima de uma campanha de "assassinato de caráter" perpetrada há mais de 20 anos por seus inimigos. "Tem havido um movimento para me tirar de cena, querem que eu desapareça", afirmou.

Ainda sobre os Gupta, ele disse ser impossível que uma família pudesse ter corrompido o governo, o Parlamento e o Judiciário. "É um exagero, com o objetivo de reforçar a narrativa contra Zuma", disse ele. "Essa comissão, de acordo com aqueles que estão implementando as coisas, deve ser o túmulo de Zuma. Ele deve ser enterrado aqui."

"A comissão não tem autoridade para provar nenhum caso sobre ninguém, mas sim para investigar e avaliar certas alegações", rebateu o juiz Raymond Zondo, agradecendo ainda a ida de Zuma ao tribunal.

A presença do ex-presidente na corte não era obrigatória por lei, mas ele foi convidado a prestar depoimento após ser mencionado por outras testemunhas. A comissão de inquérito ouviu várias testemunhas durante 130 dias em sessão, desde o ano passado.

Após governar o país por nove anos, Zuma, de 77 anos, foi removido da presidência em 2018 pelo seu próprio partido, o Congresso Nacional Africano (CNA), e substituído por seu vice, Cyril Ramaphosa.

Uma das testemunhas no inquérito, o empresário Angelo Agrizzi disse que Zuma teria aceitado propinas mensais de 2,2 mil dólares de uma firma que tentava evitar uma investigação policial. O dinheiro, teoricamente, teria ido para organizações de caridade. Ele disse que sua empresa organizava festas e providenciava carregamentos de bebidas alcoólicas e bolos de aniversário para se manter dentro dos favores dos associados de Zuma.

Por sua vez, o ex-ministro das Finanças Nhlanhla Nene, demitido por Zuma em 2015, disse à comissão que o ex-presidente forçou algumas políticas de energia nuclear e de aviação que teriam sido projetadas para beneficiar a família Gupta.

Já o ex-vice-ministro das Finanças Mcebisi Jonas relatou que os Gupta lhe ofereceram o cargo de ministro e até ameaçaram matá-lo se ele recusasse uma propina de 40 milhões de dólares.

Os irmãos Gupta são acusados de obter lucros fraudulentos de contratos do governo em áreas como energia e transporte durante o governo de Zuma. Eles possuíam uma mina de urânio, além de empresas de tecnologia e de mídia, que teriam se beneficiado naquele período. Os irmãos teriam ainda escolhido membros do gabinete do então presidente.

A família de origem indiana deixou a África do Sul e passou a concentrar seus negócios em Dubai. Os irmãos Aja, Atul e Rajesh Gupta negam ter cometido qualquer irregularidade.

Zuma é alvo de 16 acusações de corrupção em associação a um acordo milionário de compra de armas assinado no final dos anos 1990. O ex-presidente teria recebido propina da empresa francesa de armamentos Thales, que fechou um contrato bilionário quando Zuma era secretário estadual da Economia e, mais tarde, vice-presidente do CNA.

O ex-presidente é acusado de embolsar 340 mil dólares através de 783 pagamentos ilícitos. As acusações tramitaram na Justiça por mais de uma década. Elas foram apresentadas pela promotoria em 2007, após Zuma derrotar o então presidente Thabo Mbeki na votação que escolheu o líder do CNA, que governa a África do Sul desde o início da democracia no país, em 1994.

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