Para onde vai a África do Sul depois da renúncia de Jacob Zuma?

Lebo Diseko

Em Joanesburgo (África do Sul)

  • Ruvan Boshoff/Reuters

    Cyril Ramaphosa, novo presidente da África do Sul

    Cyril Ramaphosa, novo presidente da África do Sul

Depois de anos de tentativas para retirá-lo do cargo e meses de especulação, Jacob Zuma foi forçado a renunciar ao cargo de presidente da África do Sul na última quarta-feira (14).

Desde dezembro passado, Zuma estava fragilizado politicamente com o fim de seu último mandato como presidente do CNA (Congresso Nacional Africano), o partido político fundado por Nelson Mandela. Na ocasião, o rival de Zuma, Cyril  Ramaphosa, assumiu o comando da legenda.

As acusações de corrupção contra Zuma eram muito graves.

A pior delas era denúncia de que uma família poderosa da Índia -- os Guptas -- teria obtido contratos lucrativos com o governo sul-africano graças à influência indevida de Zuma.

Apesar de ambos os envolvidos negarem, mais detalhes foram surgindo sobre a suposta "tomada do Estado" por interesses particulares.

Zuma também deverá responder a 18 denúncias de corrupção, fraude e lavagem de dinheiro, relacionadas a um acordo de compra de armas assinado nos anos 1990.

O que esperar do novo presidente

Cyril Ramaphosa tomou posse como presidente depois de ter sido eleito de forma indireta pelo Parlamento do país em uma disputa simbólica (era o único candidato).

Ele disse que sua prioridade é tentar dar fôlego novo à combalida economia sul-africana. No fim do ano passado, após vencer a disputa acirrada pelo comando do CNA, ele disse que o país deveria "fazer tudo o que fosse possível para sanar a economia".

Mas não vai ser uma tarefa fácil. O desemprego está em quase 30% (e cerca de 40% entre os jovens). As taxas de crescimento baixas e o investimento externo fraco foram levados em conta por duas das três maiores agências de investimento do mundo, que rebaixaram o crédito do país ao grau "especulativo".

Um dos primeiros movimentos para resgatar a confiança dos investidores é atacar os casos frequentes de corrupção no centro do governo.

Por exemplo: há acusações de má gestão na companhia estatal de energia, Eskom. Esses problemas foram mencionados pelas agências de classificação de risco que rebaixaram a nota da África do Sul.

Ao mesmo tempo, Ramaphosa precisa urgentemente unificar o próprio partido, CNA. A disputa pelo controle da sigla exacerbou as divisões internas nela: Zuma ainda tem apoiadores dentro do CNA, que foram contrários à saída dele.

Uma das maiores conquistas de Zuma foi diminuir a violência política em sua província natal, KwaZulu-Natal (KZN) durante as primeiras eleições democráticas do país, em 1994. Ele é extremamente popular na região, e tem muitos votos dentro da etnia Zulu, da qual faz parte.

Há temores de que o CNA possa perder força eleitoral caso os seguidores de Zuma sintam-se preteridos. E também houve um aumento da violência em KZN à medida que a disputa pelo controle do CNA se intensificava.

Estes são alguns dos motivos para Ramaphosa ter sido tão cuidadoso ao tratar da saída de Zuma, insistindo em várias ocasiões para que ele não fosse humilhado.

Quem conhece a política sul-africana diz que Ramaphosa estava de olho no cargo de presidente desde que o CNA chegou ao poder, em 1994.

A história é que ele ficou chateado por não ter sido escolhido por Nelson Mandela como seu sucessor, e deixou a política de lado.

Agora, Ramaphosa finalmente realizou o sonho antigo. Mas, a menos que ele seja capaz de ganhar a confiança dos apoiadores de Zuma e amenizar os problemas da economia, seu tempo como presidente pode revelar-se de curta duração.

17.dez.2017 - Siphiwe Sibeko/Reuters
Jacob Zuma era o presidente desde 2009

Qual o próximo passo do CNA?

O CNA ganhou todas as eleições na África do Sul desde o fim do domínio da minoria branca, em 1994. Para muitos sul-africanos, o CNA é o partido que os libertou da brutalidade do apartheid, e isso não é algo que pode ser facilmente esquecido.

Mas sua popularidade tem diminuído e, pela primeira vez, existe uma possibilidade real de o partido perder o poder -- especialmente se as siglas da oposição se juntarem numa coalizão.

O CNA sofreu perdas humilhantes nas eleições locais de 2016. Apesar de ter tido muito mais votos do que qualquer outra sigla, ele perdeu o controle das principais cidades, incluindo Joanesburgo (centro econômico do país) e Pretória (capital do Poder Executivo).

Embora não haja dúvidas de que a vida de muitos sul-africanos melhorou, muita gente sente que o país não mudou o suficiente sob o comando do partido. A África do Sul ainda é um dos países mais desiguais do mundo, e mais da metade da população vive na pobreza.

As alegações de corrupção no governo do CNA aumentaram a sensação de que existe uma elite privilegiada e politicamente conectada, se beneficiando à custa dos sul-africanos comuns.

Muitos sul-africanos negros também sentem que as estruturas de poder criadas sob o apartheid ainda estão em vigor. Em particular, a concentração da terra e a desigualdade econômica.

A redistribuição das terras agrícolas tomadas dos negros durante o apartheid continua dolorosamente lenta. Cerca de 95% do patrimônio do país está em mãos de 10% da população.

E os sul-africanos brancos continuam ganhando cerca de cinco vezes mais do que os negros.

O CNA prometeu acelerar a redistribuição da terra -- até mesmo prometendo mudar a Constituição do país para permitir a expropriação da terra sem pagamentos em troca. E adotou a chamada política de "Transformação Econômica Radical", cujo objetivo é colocar o poder econômico nas mãos da maioria da população negra.

Mas se quiser manter a confiança dos investidores, o partido também precisa convencer o mercado de que a África do Sul não vai seguir a estrada trilhada pelo Zimbábue.

A África do Sul pode evitar se tornar um novo Zimbábue? Equilibrar os interesses de seus eleitores (majoritariamente negros) com as expectativas do mercado e a economia pode ser o maior desafio para o CNA antes das eleições de 2019.

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