Arábia Saudita adota tática agressiva no cenário político do Oriente Médio

Jorge Fuentelsaz.

Cairo, 28 jan (EFE).- A chegada ao trono da Arábia Saudita de Salman bin Adbul Aziz há um ano foi acompanhada pela escolha de dois netos do fundador da Casa de Saud como herdeiros e de uma agressiva política externa, que os analistas ligam à renovação geracional.

A nova "agressividade" mostrada pelo regime saudita, para Lina Khatib, diretora do Centro de Estudos Carnegie em Beirute, está diretamente vinculada ao ministro da Defesa, Mohammed Bin Salman, de 30 anos, filho do octogenário monarca e segundo herdeiro ao trono, atrás do ministro do Interior, Mohammed bin Nayef, sobrinho do rei.

A convicção é compartilhada por outros analistas, como Yezid Sayigh, também do Centro de Estudos Carnegie, que acredita que as grandes ações protagonizadas pelo reino têm relação tanto com a intenção de Salman de se estabelecer no trono como também por uma luta interna entre ambos os príncipes herdeiros.

Foi o ministro da Defesa que, no último dia 26 de março, conseguiu arrastar oito países árabes à guerra no Iêmen contra os houthis, explicou Khatib, uma aventura militar que foi apadrinhada pelos Estados Unidos e que se pensava que duraria algumas semanas.

No entanto, dez meses depois, com mais de 2.700 mortos e dois milhões de deslocados, os houthis, de orientação xiita, seguem controlando Sana, a capital do Iêmen, e importantes partes do país, o que deixou a liderança saudita em xeque.

Nesses 12 meses, que foram batizados por seus apoiadores como "era da coragem", os Saud não só quiseram mostrar ao mundo sua liderança militar na região. A Arábia Saudita se transformou em 2014 no maior importador mundial de armamentos, aumentando as despesas no setor em 54%, para US$ 6,4 bilhões, de acordo com dados do site de análise militar "IHS Jane".

Os Saud também tentaram se estabelecer como líderes do mundo muçulmano com a formação da "Aliança Islâmica contra o Terrorismo", uma iniciativa anunciada da noite para o dia em dezembro, e que, como indicou Khatib à Agência Efe, foi marcada por um caráter sectário, já que exclui os países com regimes xiitas.

Outro dos pilares da nova política externa saudita foi, precisamente, a tentativa de isolar regionalmente o regime xiita do Irã, sobretudo após a assinatura do acordo nuclear entre Teerã e os países do Grupo 5+1 (Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia, China, mais a Alemanha).

A longa inimizade do reino wahhabista e o regime iraniano cresceu após a chegada de Salmar, com reforço também da retórica hostil entre os dois países. Antes da intervenção militar no Iêmen, por exemplo, Riad disse que Teerã estava tentando transformar os houlthis em uma ferramenta para exercer sua influência na região.

Já sob o clima de tensão, no dia 2 de janeiro ocorreu a execução na Arábia Saudita do clérigo xiita Nimr Baqir al Nimr, o que provocou uma crise diplomática que segue em andamento.

A morte do clérigo foi seguida do ataque a duas legações sauditas no Irã. Riad respondeu cortando as relações diplomáticas com Teerã, levando consigo Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Sudão.

Por isso, Khatib considera que as autoridades sauditas conseguiram um sucesso relativo em unir os países árabes contra o Irã, como ficou provado na condenação quase unânime das "ingerências" do Irã durante uma reunião extraordinária dos ministros das Relações Exteriores da Liga Árabe em 10 de janeiro.

No entanto, segundo a analista, a ação também provocou certo mal-estar entre alguns dos aliados de Riad, que consideram que a piora das relações com o Irã vai contra seus interesses nacionais.

Khatib destacou que as novas autoridades sauditas tentaram se envolver na solução dos conflitos regionais, como na Síria e no Iêmen, embora tenha alertado que ainda é cedo para determinar se a nova estratégia teve sucesso.

O que é certo, porém, é que o maior protagonismo da Arábia Saudita é cada vez mais acompanhado de críticas. A principal delas foi a comparação da ideologia ultraconservadora saudita, o wahhabismo, com o extremismo do grupo Estado Islâmico (EI).

Segundo Khatib, a presença do EI se transformou em um grande desafio para a Arábia Saudita, não só pelas similaridades ideológicas destacadas por vários analistas, mas também porque a eventual criação de um novo estado sob os princípios defendidos pelos jihadistas poderia minar a legitimidade religiosa da Casa dos Saud, chamada de apóstata pelo grupo radical.

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