"Efeito Adams" mantém ascensão do Sinn Féin na Irlanda

Javier Aja.

Dublin, 25 fev (EFE).- O presidente do Sinn Féin, Gerry Adams, pode se tornar o líder da oposição após as eleições gerais desta sexta-feira, o que o aproximaria do objetivo de elevar seu partido à maior força política da República da Irlanda em um futuro próximo.

Aos 67 anos, o dirigente nacionalista tem uma longa carreira no norte do país, onde representou a circunscrição de Belfast Oeste nos Parlamentos da Irlanda do Norte e do Reino Unido.

A entrada na vida política do sul da ilha remonta a 2011, quando devolveu seus cargos de deputado em Belfast e Londres para se candidatar às eleições gerais irlandesas pelo distrito eleitoral de Louth, ao norte do condado de Dublin.

Desde 1983 como presidente do Sinn Féin, antigo braço político do já inativo Exército Republicano Irlandês (IRA), Adams deu esse passo para avançar rumo a sua meta histórica: a reunificação da ilha.

Adams nem sempre perseguiu esse objetivo por meios democráticos, embora negue que tenha dirigido o IRA ou que, pelo menos, militasse nele durante o conflito na província britânica, como afirmam seus rivais e como suspeitam as forças de segurança.

Ainda hoje, Adams é uma figura enigmática, mas sua influência e carisma foram importantes para conseguir a assinatura do histórico acordo da Sexta-Feira Santa em 1998, que pôs fim a um conflito que causou mais de 3,5 mil mortes em quase três décadas.

Com o processo de paz mais ou menos encaminhado e o Sinn Féin transformado no principal representante da comunidade católica norte-irlandesa, Adams quer repetir a fórmula em Dublin.

De acordo com as pesquisas, a legenda republicana pode ficar neste pleito com 17% a 19% dos votos, quase 10% mais que nas últimas eleições, quando passou de 10 deputados para 14.

Com esses números, ficaria à altura do Fianna Fáil (FF), o partido que mais vezes governou a República da Irlanda, e ambos disputariam a segunda posição nas urnas.

As pesquisas de intenção de voto apontam uma vitória do Fine Gael (Fg), do primeiro-ministro, o democrata-cristão Enda Kenny, e uma queda do Partido Trabalhista (Lb), o que os impediria de voltar a formar um governo de coalizão porque ficariam longe da maioria absoluta.

Embora esse cenário obrigue a se cogitar outros pactos, nenhum desses três partidos quer negociar com Adams por reprovarem seu suposto passado terrorista e ridicularizarem seu programa econômico.

O Sinn Féin assumiu algumas das teses de partidos antiausteridade como o grego Syriza e o espanhol Podemos, o que angariou o apoio dos irlandeses que mais sofreram as consequências do resgate solicitado por Dublin em dezembro de 2010 à União Europeia (UE) e ao FMI, no valor de 85 bilhões de euros.

O ponto fraco de Adams é a notória repulsa ao falar sobre assuntos econômicos, além da associação com o passado violento do IRA, que prejudica sua imagem.

Há dois anos, Adams foi detido e interrogado durante vários dias pela polícia norte-irlandesa sobre a morte de Jean McConville, uma católica de 37 anos e mãe de dez filhos que foi assassinada pelo IRA ao ser acusada de espionar para as forças britânicas, o que foi considerado falso no fim das investigações.

Parte da classe política britânica e norte-irlandesa chegou a considerar Adams um terrorista disfarçado de político marxista, um importante membro do IRA e responsável direto por vários atentados realizados na província e no Reino Unido.

A realidade é que durante sua carreira, Adams conseguiu levar o movimento republicano a posições que os mais tradicionalistas jamais teriam aceitado, como envolver o Sinn Féin no âmbito político ou convencer o IRA a abaixar as armas.

Muitos o veem como uma das pessoas mais importantes do processo de paz e um dirigente visionário com dotes de liderança que agora mira a República da Irlanda.

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