A Índia, com 400 mortes diárias na estrada, pede ajuda à tecnologia

Moncho Torres.

Nova Délhi, 30 jun (EFE).- A Índia reivindica a ajuda da tecnologia para frear o alto número de mortes em acidentes de trânsito no país, nada menos que 400 por dia, o que facilitaria cumprir as normas de circulação ou aumentar a segurança.

O uso de tecnologia se sustenta em décadas de estudo na Europa e Estados Unidos, nos quais se demonstrou que a boa condução não se baseia no "bom senso", mas no medo de saber que a Polícia pode te parar por uma distração ao volante.

"Não é a multa, não é a sanção, é a possibilidade de ser repreendido o que faz com que o povo faça o correto", afirmou à Agência Efe o professor Dinesh Mohan, coordenador de um programa de prevenção de acidentes em estrada do Instituto Indiano de Tecnologia de Délhi.

Segundo o professor Mohan, na Índia existem castigos muito mais estritos para os motoristas que os que pode haver na Europa, já que em um acidente a multidão pode linchar quem atropela alguém, o que não impede que o respeito à lei seja quase nulo.

Por isso, para que o motorista se sinta parte de um "Big Brother" que o vigia, o pesquisador reivindicou a necessidade de que se instalem câmeras de vídeo para filmar os infratores, radares para o controle da velocidade e controles de alcoolemia.

Esta vigilância deveria se complementar, explicou, com um melhor projeto das estradas, com redutores de velocidade e passagens de nível para pedestres a cada 200 metros, e a obrigação que todo tipo de veículo supere rigorosos controles de segurança.

"Espero que a tecnologia venha a nosso resgate", resumiu o professor em seu escritório na capital indiana, cidade que há poucos dias amanheceu comovida ao se difundir as imagens impactantes de um atropelamento por parte de um motorista embriagado.

Aconteceu às seis da manhã, quando já tinha amanhecido, quando dois idosos retornavam a suas casas após um passeio matutino.

"Quando vi o carro vir tão rápido me movimentei para um lado, mas bateu nele. Nem sequer me dei conta. Anand já não estava. Chamei-o: 'Anand, onde você está?' Até que chegaram as pessoas e disseram que ele estava no chão. Quando o vi estava sangrando pela cabeça. Morreu num instante", narrou à Efe seu acompanhante Vinod Kumar Mehta.

As imagens feitas por uma câmera de segurança mostram como Anand é lançado a vários metros de distância pelo impacto do carro, conduzido a toda velocidade por um universitário que nesse trajeto matou outro pedestre e deixou gravemente ferido um terceiro.

Em casos como esses, parte da culpa costuma ser transferida para a Polícia, à qual se recrimina por não cumprir com suas responsabilidades de controle nas estradas, embora o organismo diz que com o modelo atual é materialmente impossível monitorar os 200 milhões de veículos que existem na Índia.

"Os policiais de trânsito são poucos em comparação com o número de veículos, que está crescendo. Por isso, na hora de fazer cumprir a lei estão exaustos", disse à Efe Rohit Baluja, responsável da Academia Nacional de Polícia de Hyderabad, no leste da Índia.

Segundo Baluja, diretor também do Instituto de Educação Viário que colabora com o governo indiano na redação de normas de trânsito, o segredo está em que, como aconteceu na Europa, "a tecnologia venha em paralelo" com o aumento do número de automóveis.

"As novas leis põem mais o foco na tecnologia e na sistematização dos mecanismos", ressaltou o pesquisador.

Além disso, acrescentou, as responsabilidades em um acidente devem deixar de se concentrar unicamente no motorista e fazê-lo também nos quais projetam de maneira errada as estradas e os veículos, enquanto que deveria ter consequências eleitorais para os políticos.

"Em um país com 1,2 bilhão de habitantes, 146 mil mortes por ano não fazem nenhuma diferença, e essa atitude não deveria existir", sentenciou Baluja dias depois de o ministro de Transporte e Estradas, Nitin Gadkari, apresentar os dados de acidentes em 2015, que revelaram um aumento de 4,6% no número de mortes.

Para Saji Cherian, diretor de operações da Save Life Foundation, uma das ONGs indianas mais ativas na busca do modo de reduzir os acidentes de trânsito, a pergunta a responder é: por que os indianos dirigem como dirigem?

Segundo Cherian o problema está em que o sistema de obtenção da carteira de motorista na Índia está completamente obsoleto, sem que exista a obrigação de passar por um processo de formação ou exames rigorosos, e com funcionários com sobrecarga de trabalho que aprovam de maneira sistemática milhares de licenças por mês.

O ativista ressaltou que, da mesma forma que aconteceu uma mudança no processo de obtenção de passaportes no gigante asiático, se deveria informatizar a obtenção da carteira de motorista, evitando assim, além disso, que aconteçam falsificações, que chegam segundo o governo indiano a 30% do total.

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