Imprensa é o novo inimigo no Burundi

Jèssica Martorell.

Nairóbi, 23 set (EFE).- O jornalista Esdras Ndikumana foi detido no ano passado enquanto cobria a notícia do assassinato de um alto cargo do governo do Burundi e foi brutalmente atacado por agentes de Inteligência durante duas horas.

O repórter burundinês se viu forçado a deixar seu país e agora vive em Nairóbi, capital do Quênia, onde reconhece que a pressão de seu governo sobre os veículos de imprensa é constante. "Você é considerado inimigo deles", lamentou em entrevista à Agência Efe.

Outro de seus colegas, Jean Bigirimana, está desaparecido há dois meses. A última coisa que se sabe dele é que foi detido pelo Serviço Nacional de Inteligência burundinês, e sua família teme o pior: que esteja morto.

Segundo o Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ), cerca de cem profissionais de imprensa foram obrigados a fugir do país.

Desde a violenta crise iniciada em abril de 2015 com a tentativa de reeleição do presidente, Pierre Nkurunziza, para um terceiro mandato contra o disposto pela Constituição, as torturas no Burundi se tornaram "algo normal".

"Com a desculpa de combater o terrorismo, há uma impunidade total no país. A repressão foi crescendo e agora é sistemática", lamentou Ndikumana, que trabalhou mais de 30 anos como jornalista no Burundi.

Seu pesadelo pessoal começou quando cobria como correspondente da Agência France-Presse (AFP) a morte do ex-chefe de Inteligência e homem de confiança do presidente, Adolphe Nshimiriman, depois que seu veículo foi atacado com um projétil na capital burundinesa.

Naquele momento, Nkurunziza acabava de ser reeleito em meio a grandes protestos do povo e denúncias de fraude eleitoral por parte da comunidade internacional.

O repórter estava tirando fotos - com autorização, assegurou - quando um grupo de agentes do Serviço Nacional de Inteligência o deteve e o colocou dentro de um caminhão onde havia outras seis pessoas, entre elas uma mulher acusada de ter rido da morte do general.

"Todos viram o que aconteceu", criticou Ndikumana em referência às 200 pessoas, entre elas vários membros do governo, que foram testemunhas de sua detenção.

"Dentro do veículo, me pediram que me deitasse no chão. Me tiraram os sapatos e as calças. Começaram a me bater com uma barra de ferro", relatou o jornalista, mostrando as partes do corpo que foram alvo das pancadas: as costas, as pernas e as plantas dos pés,

"Tiraram minha bolsa, uma pequena corrente de ouro que usava e minha aliança de casamento. Tentei não deixar que me tirassem a aliança, mas então começaram a me bater com a barra de ferro nos dedos", contou.

A tortura terminou quando um agente se aproximou e pediu que parassem porque seu chefe queria vê-lo. Então, foi levado aos escritórios do Serviço Nacional de Inteligência, onde relatou os maus tratos sofridos.

"Você tem sorte de estar vivo", foram as palavras que o jornalista escutou quando denunciou o acontecido. As autoridades olharam para o outro lado e agora seu caso se soma às muitas denúncias de abusos do governo que ficaram impunes.

Segundo o jornalista, antes da crise, o Burundi era um dos países da região com maior liberdade de imprensa, mas desde o ano passado "tudo isso foi destruído".

Desde então, centenas de pessoas morreram e outras 400 mil tiveram que fugir de casa, segundo a ONU, que enviou ao país um grupo de especialistas para investigar as denúncias de ataques sexuais e estupros coletivas, sumiços e a descoberta de várias valas comuns.

Embora exercer sua profissão no Burundi não tenha sido nada fácil, Ndikumana reconhece que ele gostaria de voltar, apesar de ter consciência de que isso, atualmente, seja "impossível".

jem/ma

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