Venezuelanos "invadem" semáforos de Boa Vista

Eduardo Davis

Em Boa Vista

Seja para vender bugigangas, limpar os para-brisas dos automóveis ou mesmo pedir esmolas, venezuelanos tomaram conta dos semáforos de Boa Vista, em Roraima, e fazem diversos trabalhos para ganhar algum dinheiro.

Paradoxalmente, um dos locais onde mais emigrantes desse país se concentram é a esquina da rua Mario Homem de Melo com a avenida Venezuela, ponto nevrálgico da capital estadual, que nos últimos meses recebeu cerca de 2.500 venezuelanos.

Nessa esquina, sob o calor impiedoso do meio-dia ou no meio do caos do trânsito ao cair da tarde, pelo menos dez jovens venezuelanos se lançam sobre os para-brisas dos automóveis e dos enormes caminhões que param nos sinais, munidos de garrafas de água e instrumentos de limpeza.

São rapazes e moças de 18 a 28 anos, todos de uma mesma família que chegou a Boa Vista vindos da cidade de Maturín e que, como a maioria dos venezuelanos que emigrou para o norte do Brasil, o fizeram fugindo da escassez e da fome.

"Lá não conseguíamos trabalho, nem comida, nem nada. Aqui temos um pouco de tudo isso", disse um dos mais velhos do grupo, que pediu anonimato, mas explicou que os oito ou dez membros da família que trabalham nesse semáforo conseguem por dia cerca de R$ 30.

Essa soma é equivalente hoje a cerca de nove dólares, mas ele afirma que é mais do que ganhariam na Venezuela e, sobretudo, explicou que com esse dinheiro podem comprar no Brasil os alimentos necessários para sustentar toda a família.

No total, são 18 adultos e seis crianças, alguns deles bebês, que vivem em uma casa que estava abandonada. Por isso, não pagam aluguel e podem juntar algum dinheiro, embora sua situação, segundo comprovou a Efe em uma visita à casa, é mais do que precária.

Em seu trabalho diário no semáforo, a família soma centavo a centavo a cada para-brisas que lava, e muitas vezes não recebe nem uma moeda e até ouve insultos de teor xenofóbico.

"Isso é muito feio. Porque estamos trabalhando, não roubando. Mas por sorte a maioria dos brasileiros nos entende e ajuda", declarou o mais velho do grupo.

Assim como esta família de Maturín se dedica a limpar vidros dos automóveis, nos semáforos de Boa Vista também há muitos venezuelanos que oferecem todo tipo de bugigangas ou há quem, como o malabarista José Antonio Garrido, consegue algumas moedas graças à habilidade de suas mãos.

Compartilhando ou muitas vezes disputando espaços nos semáforos é possível ver em muitas esquinas de Boa Vista mulheres com vistosas saias floreadas, que também chegaram da Venezuela, mas quase não falam espanhol e não pronunciam uma palavra sequer em português.

São índias da etnia warao, que têm sua própria língua e vivem na região do rio Orinoco, no coração da Amazônia venezuelana, mas que agora começaram a se deslocar para o Brasil.

São mulheres, muitas vezes acompanhadas pelos filhos, que passam horas nos semáforos, e em suas mãos carregam copos enfeitados com motivos indígenas que elas vão enchendo com moedas durante o dia.

Ao contrário do resto dos venezuelanos que emigraram para o norte do Brasil, as warao não trabalham e se dedicam exclusivamente à mendicância, disse à Efe a freira Telma Lage, coordenadora da Comissão de Migração e Direitos Humanos do Estado de Roraima.

Lage, que nos últimos meses trabalha em diversas campanhas de assistência aos venezuelanos que chegaram ao norte do Brasil, considerou como "muito particular" o caso das indígenas.

"Não trabalham, só se dedicam à mendicância e é muito difícil a comunicação, pois não falam nem português nem espanhol", disse a freira, calculando que as mulheres warao representam em torno de 25% da emigração venezuelana no norte do Brasil.

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