Calendário de entrega de armas gera polêmica entre Farc e governo

Gonzalo Domínguez Loeda.

Bogotá, 24 fev (EFE).- A entrega de armas é o elemento mais delicado de todo processo de paz e na Colômbia não é uma exceção, pois o calendário estabelecido para esse fim foi protagonista nesta semana da última polêmica das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que envolveu a ONU, e promete não ser a última.

A polêmica está ligada à desconfiança da guerrilha em relação ao governo após mais de meio século de conflito armado, que também é recíproca e que levam as partes a se perguntarem quais outros elementos do acordo de paz poderiam demorar a ser cumpridos.

Tudo começou com o atraso na adequação - responsabilidade do governo - das 26 Zonas de Vereda Transitórias de Normalização (ZVTN), onde os guerrilheiros já chegaram para deixar suas armas nas mãos de uma missão da ONU e começar seu trânsito à legalidade.

Sua chegada fazia parte de um cronograma cujo "Dia D" foi em 1º de dezembro, após a ratificação do acordo de paz no Congresso.

Como parte do estrito cronograma pactuado, as Farc deviam começar cinco dias depois, ou seja, em 6 de dezembro, sua transferência às ZVTN, o que não ocorreu por conta dos atrasos em sua adequação.

Desse modo, o calendário previsto da chegada dos guerrilheiros a essas áreas não foi cumprido e chegou a ser posta em dúvida a data mais importante de todo o processo, o dia D+180, em 1º de junho, quando devem estar concluídas as ZVTN e as Farc devem dar início ao processo de reintegração para formar um movimento político sem armas.

A dúvida foi crescendo e tomou forma quando o chefe da Missão da ONU na Colômbia, Jean Arnault, enviou uma carta às partes perguntando se estariam dispostas a repensar o calendário.

Essa carta não significava nada além de colocar em um texto algo que, pelo atraso nas chegadas às zonas, era apenas uma questão de tempo para que alguma das partes abordasse.

No entanto, a crítica implícita ao governo devido ao atraso na preparação das ZVTN, de sua responsabilidade, fez com que saíssem algumas faíscas.

Primeiro foi o próprio Executivo quem devolveu a proposta ao expressar sua surpresa a Arnault e ao assegurar que durante semanas insistiram em fazer uma reunião "para revisar o cumprimento dos compromissos decorrentes do Acordo Final sobre Cessar-Fogo e Abandono das Armas".

O encontro aconteceu e dele saiu um novo calendário de entrega de armas, que serão recolhidas pelos observadores das Nações Unidas.

Segundo os novos planos, em 1º de março as Farc começarão a entregar 30% de seu armamento, em 1º de maio outros 30% e em 1º de junho os 40% restantes.

O problema parecia resolvido, mas a guerrilha colocou mais lenha na fogueira quando afirmou através de um comunicado posterior que era necessário repensar a programação.

A carta de Arnault, na qual sugeria essa mudança, foi transformada em um argumento pelas Farc, que estão há meses reclamando da suposta falta de compromisso do governo.

Aproveitando a conjuntura, somaram-se às críticas a necessidade de o governo começar a libertar os guerrilheiros que seguem presos e devem se beneficiar da Lei de Anistia incluída no acordo de paz.

Além disso, os guerrilheiros denunciaram que, nas ZVTN têm que dormir em barracas improvisadas enquanto trabalham para construir as áreas comuns, como se comprometeram com o governo, que deve fornecer os materiais.

Uma vez cumpridos os prazos estabelecidos, chegará outro ponto crucial, já que a reintegração das Farc começará com um passo delicado ainda por definir: em 1º de junho, quando sete mil guerrilheiros entregarem suas armas após décadas de guerra e se reintegrarem à sociedade.

Primeiro, o governo deve decidir para onde os levará. Uma questão complicada, já que a maioria vem de zonas rurais e devolvê-los a seus lugares de origem não será fácil, mas concentrá-los em áreas urbanas também é complexo.

Para tudo isso, é necessário que haja confiança mútua e que as partes cumpram com o que foi estipulado, que depende em grande medida de sua boa vontade.

A confiança entre as partes parece estar abalada, mas ainda há tempo até 1º de junho para restabelecê-la.

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