O conflito que deu início a 50 anos de ocupação

María Sevillano.

Jerusalém, 1 jun (EFE).- No próximo dia 5, completam-se 50 anos de uma série de ataques alegados como preventivos e realizados por Israel contra Egito, Jordânia e Síria que originaram a Guerra dos Seis Dias e a ocupação de Jerusalém Oriental, Cisjordânia, Gaza, Colinas de Golã e da parte egípcia do deserto do Sinai, um conflito que marca a região até os dias atuais.

O Estado de Israel nasceu com o plano de partilha da ONU em 1947 que concedia à nação judaica 55% da Palestina histórica, uma proposta que foi rejeitada por seus vizinhos árabes, que lhe declararam guerra após seu nascimento, em 1948.

Duas décadas mais tarde, a animosidade se mantinha e, em maio de 1967, o presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser, solicitou à ONU que se retirasse da península do Sinai, na fronteira com Israel e onde tropas internacionais estavam posicionadas desde a Guerra de Suez, em 1956, e fechou a passagem pelo estreito de Tiran.

Em uma crescente tensão, Nasser posicionou milhares de soldados na zona limítrofe, o que despertou alerta em Israel, que no dia 5 de junho, julgando que sofreria um ataque iminente, lançou uma rápida ofensiva que pegou de surpresa o exército egípcio. E este, incapaz de reagir, perdeu em questão de horas parte do Sinai e Gaza que estavam sob seu controle.

Após o revés militar, o Egito de Nasser envolveu Síria e Jordânia no conflito, alegando que, juntos, venceriam o Estado judeu, algo que não ocorreu e deu lugar a uma derrota que foi seguida pela ocupação de territórios sírio, palestino - na época controlado pelo Egito e pela Jordânia - e de parte do Sinai, que só foi devolvida com um pacto em 1979 que tornou o Egito o primeiro país árabe a assinar um acordo de paz com Israel.

"Duas semanas depois da guerra, fui enviado aos territórios. Lá, começava a germinar todo um novo movimento da direita israelense, criando uma identidade judaica nova, com foco nos livros sagrados (Tanakh), nos mandamentos, em se estabelecer no território", contou à Agência Efe Itzhak Schnell, professor de geopolítica na Universidade de Tel Aviv e que era uma jovem soldado na época do conflito.

Esta nova identidade, segundo Schnell, "era antagonista não só aos árabes, como ao resto do mundo, porque quando o Ocidente falava sobre direitos humanos, você não podia fazer parte disto sendo um ocupante".

Desde então, Israel manteve esta política de expansão sobre os territórios ocupados, nos quais posicionou suas forças militares e incentivou a construção de assentamentos para deslocar seus civis para as novas colônias, ao contrário do estabelecido pelo direito internacional.

Em Golã vivem cerca de 23 mil israelenses, aos quais se somam outros 385 mil em 228 colônias na Cisjordânia e 200 mil colonizadores de Jerusalém Oriental, território que os palestinos reivindicam como a capital do seu Estado, segundo dados da ONG israelense Shalom Ajshav (Paz Agora).

A percepção da guerra e os seus efeitos seguem em debate na sociedade israelense da atualidade, explicou à Efe o professor de Estudos Islâmicos e Oriente Médio da Universidade Hebraica, Elie Podeh.

"A forma como você interpreta o conflito, seja como libertação ou ocupação, causou muitos problemas", opinou.

De um lado, segundo ele, estão "os que defendem a presença israelense nos territórios ocupados por seu pertencimento ao povo judeu e estão ideologicamente comprometidos com a Grande Israel" e, de outro, estão aqueles "que veem (Israel) como uma potência colonial que ocupa o território de outros povos e deveria se retirar".

Para o professor da Universidade Hebraica, uma das maiores conquistas de Israel nessa guerra foi conseguir o reconhecimento árabe e conquistar um lugar dentro da região, onde não era bem-vindo, porque os árabes "se deram conta de que não podiam vencer".

"Aconteceu em 1979 com o Egito, em 1993 com os palestinos com os Acordos de Oslo, em 1994 com (a assinatura da paz com) a Jordânia e com as relações ocultas que existem com os países do Golfo", analisou Podeh.

Mujaimer Abu Saada, palestino e professor de Ciências Políticas da Universidade de Al Azhar, no Cairo, considera que a guerra de 1967, "para o palestino, não foi tão ruim como a de 1948, mas foi um duro golpe, chamado de Naksa (revés)". "Foi difícil ver três exércitos árabes derrotados por Israel", comentou.

"(A guerra) foi catastrófica para os refugiados, alguns inclusive passaram por essa condição pela segunda vez em menos de 20 anos. E agora, 50 anos depois, a ocupação continua e o conflito também, e seguirá até que a paz seja assinada. Nós, palestinos, fizemos muitas, muitas concessões em termos de fronteiras e de entrega de terras", lembrou Abu Saada.

Para Schnell, meio século depois, "os dois lados estão muito inseridos no conflito, desenvolvendo toda uma mentalidade que não é outra coisa além de uma forma de continuá-lo".

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos