"Holodomor", ou como Stalin matou de fome milhões de ucranianos

Khrystyna Kinson.

Kiev, 27 nov (EFE).- Milhões de ucranianos morreram de fome durante a ditadura de Josef Stalin, mas mais de 80 anos depois daqueles fatos, a Ucrânia continua lutando para que o "Holodomor", como é conhecida essa tragédia, seja reconhecida como um ato de genocídio pela comunidade internacional.

O idoso Mykola Onyshenko lembra que foi no outono de 1932 que as autoridades soviéticas começaram a requisitar o pão, os grãos de milho, o cereal, as batatas e todos os demais alimentos que constituíam o sustento de uma população majoritariamente rural, em um país considerado então "o celeiro da Europa".

"Vi isso com meus próprios olhos. Grupos de quatro ou cinco pessoas iam de casa em casa para fazer revistas. Chegaram à nossa e nos perguntaram onde tínhamos escondido o pão", afirmou Onyshenko, ao mesmo tempo que conta como guardavam desesperadamente as sementes entre a palha e outros lugares escondidos.

O objetivo de Stalin era obrigar os camponeses a integrar suas propriedades em fazendas de exploração coletiva (koljos, em russo), uma política que justificou pela necessidade de aumentar a produção agrícola para sua exportação a países capitalistas, a fim de financiar a industrialização da União Soviética.

Onyshenko viveu na própria pele essas desapropriações brutais e a crise de fome que trouxe para o povo ucraniano de Roza, situada nos arredores de Berdiansk, na província oriental de Donetsk.

Tinha apenas sete anos, mas lembra com lucidez como as autoridades soviéticas se apoderaram das terras de cultivo da sua família, "o que tinham de mais valioso os camponeses" nessa época.

"Antes da crise de fome a minha família trabalhava nas suas próprias terras e vivia mais ou menos bem. Mas o governo queria que trabalhassem para o Estado e não para si mesmos. Por isso começaram a mandar as pessoas a essas fazendas, para as quais ninguém queria ir", explicou Onyshenko, em uma conferência realizada em Kiev.

A migração da população que vivia nas zonas afetadas pela crise de fome foi restrita e as atividades comerciais foram proibidas, razão pela qual os camponeses não podiam se deslocar livremente na procura de alimentos.

Além disso, a coletivização foi acompanhada de uma violenta repressão contra os trabalhadores rurais que mostraram resistência às autoridades, que incluiu detenções, execuções e deportações maciças.

Na memória de Tamara Bodrenko, outra sobrevivente desta catástrofe, também continua viva a imagem dos seus vizinhos agonizando como consequência da inanição.

Ela era apenas uma menina, e via seus pais voltarem todos os dias para casa com as mãos vazias depois de trabalhar duramente numa fazenda coletiva.

"A minha mãe nos cantava canções para que nos esquecêssemos da fome. Levaram tudo e só ficamos com uma vaca, graças à qual pudemos sobreviver", afirmou à Efe Bodrenko, de 94 anos.

"Na cidade, víamos como o povo caía nas ruas e aí ficavam durante um tempo. Ninguém os enterrava", continuou.

O "Holodomor", que deriva do ucraniano " moriti golodom" e se traduz como "matar de fome", foi uma catástrofe humanitária ocorrida nos anos 30 do século XX por causa da coletivização forçada da terra realizada pelo ditador soviético Iosef Stalin, aplicada com especial força na Ucrânia.

Historiadores ucranianos consideram que foi uma política de extermínio deliberadamente planejada por Stalin para achatar toda a resistência contra o regime comunista, suprimir os movimentos nacionalistas e "impedir a criação de um Estado ucraniano independente".

Além de realizar expropriações maciças das colheitas e reduzir as cotas de comida, Stalin semeou o terror na Ucrânia ao ordenar o confisco dos produtos agrícolas e comestíveis de milhões de pessoas durante um ano para dobrar a oposição da população rural.

Segundo estimativas oficiais - baseadas no censo e arquivos secretos desclassificados após a desintegração da URSS -, se calcula que pelo menos quatro milhões de ucranianos morreram por causa desta política em apenas dois anos (1932-1933).

Apesar disso, dada a enorme perda de população e a elevada mortalidade registrada nesse período, diversos estudos apontam que o número poderia chegar a dez milhões de vítimas.

Em novembro de 2006, o parlamento da Ucrânia adotou uma lei que reconhece este fato histórico como "genocídio do povo ucraniano", realizado pelos dirigentes do regime comunista soviético, que negou durante décadas que tivesse acontecido.

Segundo o Ministério do Interior da Ucrânia, os parlamentos de 14 países já o reconheceram como tal, entre eles Geórgia, Equador, Estônia, Colômbia, México, Peru, Polônia e Hungria.

Apesar disso, não existe nenhum documento das Nações Unidas que utilize este termo para se referir a essa grande tragédia.

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