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Exército de Mianmar é acusado de cometer genocídio contra rohingyas

20/12/2018 22h32

Gaspar Ruiz-Canela.

Bangcoc, 20 dez (EFE).- O Exército de Mianmar foi acusado em 2018 de cometer genocídio contra a minoria rohingya por especialistas da ONU, que também criticaram a inação da líder de fato do país, a Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, diante dos abusos dos militares.

Os especialistas afirmaram que os soldados e grupos militantes queimaram casas e torturaram, estupraram e assassinaram homens, mulheres e crianças em uma campanha militar em agosto de 2017 que provocou o êxodo de mais de 723 mil rohingyas a Bangladesh.

Além de genocídio, os membros da comissão especial da ONU atribuíram aos militares de Mianmar crimes contra a humanidade e de guerra em um relatório apresentado no último dia 18 de setembro em Genebra.

"Separavam homens e mulheres, matavam os homens imediatamente, as mulheres e as crianças eram estupradas e depois mortas queimadas em suas casas", disse em entrevista coletiva uma dos membros da comissão, a cingalesa Radhika Coomaraswamy.

A missão considera "uma estimativa conservadora que pelo menos 10 mil pessoas foram assassinadas" durante as operações de limpeza étnica em 2017 no estado de Rakain, onde vive a maioria dos rohingyas, uma comunidade apátrida majoritariamente muçulmana.

Os especialistas pedem que o chefe do Exército de Mianmar, o general Min Aung Hlaing, e outros chefes militares sejam julgados na Corte Penal Internacional (TPI) ou em um tribunal internacional penal "ad hoc".

A Promotoria do TPI iniciou em setembro uma investigação preliminar de supostos crimes como deslocamentos forçados, homicídios e violência sexual em Rakain, embora Mianmar já tenha avisado que vai cooperar.

O estamento militar negou todas as acusações, exceto no caso de sete soldados que foram condenados a dez anos de prisão pelo massacre de rohingyas, um caso levantado por dois jornalistas da agência "Reuters" que foram condenados por revelar segredos do Estado.

O relatório das Nações Unidas também critica Aung San Suu Kyi por não usar "seu cargo nem sua autoridade moral para conter ou prevenir os eventos no estado de Rakain".

A governante e antiga prisioneira política justificou o encarceramento dos repórteres da "Reuters" e, apesar de reiterar a necessidade de respeitar o Estado de direito, defendeu que as operações militares ocorreram devido à ameaça "de terroristas" em Rakain.

Suu Kyi se referiu assim aos rebeldes do Exército da Salvação Rohingya de Arakan (ARSA), que atacaram vários postos policiais e fronteiriços em 2016 e 2017 e desencadearam em ambos os casos severas campanhas militares contra os rohingyas.

Mianmar e Bangladesh entraram em acordo para iniciar no dia 15 15 de novembro a repatriação dos refugiados rohingyas, mas a iniciativa foi suspensa nesse mesmo dia depois que ninguém se voluntariou a retornar a Mianmar.

Diversas agências e responsáveis da ONU advertem que não existem as condições para a repatriação dos rohingyas, a quem as autoridades de Mianmar negam a cidadania e direitos fundamentais como a liberdade de movimento.

Os rohingyas segregados em Mianmar e nos campos de Bangladesh tentam desesperadamente de fugir da região em embarcações com a esperança de chegar à Malásia e nos últimos meses alguns acabaram encalhando no litoral da Indonésia.

O indonésio Marzouki Darusman, líder da missão da ONU que elaborou o relatório, alertou em outubro que há um "genocídio em curso" contra os rohingyas em Rakain e defendeu a necessidade de uma resposta internacional.

Rússia e China, membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, rejeitaram a investigação da comissão especial ao alegar que não tem "credibilidade" e que seus membros não entraram em Mianmar, onde as autoridades lhes tinham negado o acesso.

O relatório de 444 páginas se baseia em mais de 800 entrevistas com sobreviventes dos massacres, além em vídeos, fotografias e imagens de satélite que demonstram a campanha de terra queimada cometida pelas autoridades. EFE