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Culpar consumo de álcool por violência doméstica é preocupante, diz psicóloga

19/06/2020 02h26

Miami, 18 jun (EFE).- Culpar o consumo irresponsável de álcool por casos de violência doméstica é "preocupante" porque "torna invisíveis" as "verdadeiras causas" do problema e negligencia a responsabilidade de enfrentá-las, afirmou Sandra Elizabeth Luna, presidente em fim de mandato da Sociedade Interamericana de Psicologia.

"Não se pode culpar uma garrafa de álcool, culpar um único fator, quando é uma violência estrutural enraizada no tempo e na cultura", disse a psicóloga guatemalteca sobre governos e instituições da América Latina que passaram a aprovar leis de proibição da venda de álcool como "solução" para o problema.

Integrante do grupo de violência, prevenção e resiliência da associação e especialista em violência doméstica, Luna afirmou em entrevista à Agência Efe sobre como as quarentenas na América Latina devido à Covid-19 tornaram visíveis um problema cujas raízes estão na "cultura patriarcal" da região.

"A violência está em um círculo e é difícil de ser quebrada", especialmente em uma região onde alguns países ratificam tratados e convenções ou promulgam leis contra a violência de gênero e doméstica e depois não as aplicam, e outros não têm políticas públicas para lidar com o problema, acrescentou.

A especialista guatemalteca explicou que, no início da pandemia, houve um declínio nos relatos de violência doméstica.

Isso fez com que as autoridades que lidam com o tema percebessem que assim ocorria porque os abusadores e suas vítimas estavam 24 horas juntos em casa e, portanto, não havia possibilidade de apresentar uma queixa.

Luna ressaltou que é difícil dizer com certeza o quanto a violência doméstica aumentou na América Latina em meio ao confinamento, mas há alguns dados que dão uma ideia.

No México, as denúncias de violência de gênero à Rede Nacional de Refúgios aumentaram 80%. Já segundo estimativas da Secretaria do Interior, os casos podem ter aumentado em mais de 30%.

No Brasil, várias fontes citadas pela imprensa estimaram o aumento durante a pandemia entre 30% e 44,9%, e na Argentina, somente nos primeiros 23 dias de confinamento, houve 18 feminicídios, 70% deles nas casas das vítimas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) advertiu que a violência contra as mulheres aumentou 60% em todo o mundo durante as quarentenas.

Luna observou que a situação de incerteza criada pela Covid-19 e o consequente confinamento para evitar o contágio tem gerado apenas "emoções negativas: raiva, irritabilidade, raiva, frustração, desespero", que podem levar a explosões violentas.

Mas só isso, como o álcool ou a doença mental, não explica a violência doméstica ou a violência contra a mulher, ressaltou ela.

Ao contrário dos demais países da América Latina onde a lei seca foi aplicada e, ainda assim, a violência doméstica continuou a aumentar, no Panamá, essa norma "parece" ter funcionado. Os casos caíram um pouco e depois aumentaram em maio, depois que uma rígida lei seca entrou em vigor, disse Katya Melendez, procuradora principal da família, à imprensa local no final daquele mês. Isso levanta a questão de verificar se ela é eficaz ou se as vítimas não estão encontrando maneiras de buscar ajuda.

Uma coisa é certa, a violência doméstica não parou de subir com a pandemia e o confinamento, e fez com que os especialistas repensassem a necessidade de mudar os protocolos de ação quando uma mulher relata maus tratos ou abusos por parte do parceiro.

O primeiro passo é a conscientização, destacou Luna. A violência está normalizada. As mulheres muitas vezes nem sabem que estão passando por isso, e a submissão que é característica das mulheres presas nessas situações só piora a situação e não permite que elas saiam.

Entender como sociedade que a violência é parte da cultura latino-americana e que devemos mudar os estereótipos e demonstrar solidariedade é um trabalho que temos que fazer entre todos se quisermos acabar com essa outra "pandemia".

Normalmente são as mulheres que saem de casa com os filhos e vão para um abrigo ou um lugar onde não podem ser encontradas pelos que cometem violência, mas isso é arriscado quando fora de casa há um risco de contágio, salientou a especialista.

A ideia de um abrigo para abusadores também foi levantada, mas até agora não houve nenhum país onde isso tenha sido aplicado.