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Após renúncia ao Senado, Mujica diz passar de político a 'conselheiro ancião'

Apesar da aposentadoria formal, ele afirmou ter muito a contribuir com a política uruguaia - Antony Jones/Getty Images
Apesar da aposentadoria formal, ele afirmou ter muito a contribuir com a política uruguaia Imagem: Antony Jones/Getty Images

22/10/2020 14h14

Das lágrimas na despedida do posto de senador na última terça-feira ao clima bucólico de seu sítio; de legislar em meio à pandemia de covid-19 a colher legumes e verduras; de mais de 60 anos de atividade política a integrar um "conselho dos anciões", o ex-presidente do Uruguai José 'Pepe' Mujica analisa, aos 85 anos, as transformações pelas quais vem passando em sua nova etapa de vida.

Com a calma de quem parece ter tirado um enorme peso dos ombros, Mujica abriu para a Agência Efe as portas do sítio onde vive há anos com sua esposa, a senadora Lucía Topolansky, de 76 anos.

Na entrevista exclusiva, Mujica falou sobre a emoção, a nostalgia e o significado de ter deixado o cargo ao lado do também ex-presidente Julio María Sanguinetti, e refletiu sobre a vida, pedindo aos jovens que levantem sua bandeira de luta. Apesar da aposentadoria formal, ele também afirmou ter muito a contribuir com a política uruguaia.

Confira a entrevista:

Agência Efe: O que o senhor sentiu quando foi dormir na terça-feira, após renunciar ao cargo de senador?

José Mujica: Alegria de viver. Tenho que agradecer à vida, porque, em meio às calamidades e peripecias, já cheguei a 85 anos. Seria uma alma podre se reclamasse. Eu me sinto feliz por ter contribuído para a construção de um grupo (a coalizão de esquerda Frente Ampla) que, há 20 anos, é o mais votado do país. O meu legado são aqueles que permanecem ativos, sustentando as bandeiras que eu levantei. Devemos unir braços jovens à causa, para que levantem as velhas bandeiras.

Quero guardar a pouca energia que me resta para outras atividades relacionadas à política, como tentar ajudar a próxima geração, que já está aí. Aconselhar, contribuir com a sua formação e dar ideias para que elas sejam colocadas em prática por outros. Pertenço agora ao 'conselho dos anciões', a instituição antropológica mais antiga na organização da sociedade humana.

Efe: E como foi o primeiro dia desta nova etapa?

José Mujica: Bom. Talvez para nós, seja algo relativamente cotidiano. Somos um país pequeno, que ainda mantém certos códigos de aldeia. Não percebemos que é surpreendente para o mundo, porque podem existir enormes diferenças, mas procuramos manter um clima coletivo, o que constitui um capital diferencial para a nossa sociedade. Conviver com aquilo com o que concordamos não tem nenhum mérito, nem é milagroso. A questão é conviver quando existem discordâncias (...) O Uruguai dá uma lição de convivência, de que é possível discordar e ter uma margem de liberdade e, mesmo assim, manter o respeito. Cada um continuará pensando como pensa, terá sua própria visão, mas há um todo que devemos preservar.

Efe: Além de assumir a posição de ancião conselheiro, como será a sua nova rotina?

Mujica: Sou um camponês frustrado. Gosto da terra, costumo trabalhar com o trator. Nesta tarde, tenho que colher ervilhas e levar uma cebola para a minha velha (a senadora e ex-vice-presidente Lucía Topolansky) comer no jantar, cortar alface... Essas bobagens que são pequenas para o mundo, mas que para mim são grandes, porque me ajudam a viver. Não quero ter a vida de um velho que fica à toa, sentado em uma cadeira ou deitado em algum móvel velho. E também não vou começar a fazer ginástica, não tenho saco para isso. Mas eu tenho que fazer alguma coisa com meu corpo e também com as minhas mãos.

Efe: Deixar o Senado foi uma decisão difícil?

Mujica: Não. O mandato teve início praticamente ao mesmo tempo que a pandemia, e quando comecei a ver o que estava por vir, não gostei nem um pouco. Mas, com o passar do tempo, fui percebendo que o problema não seria resolvido tão simplesmente. Cheguei à conclusão de que não conseguiria cumprir com a tarefa para a qual as pessoas haviam me escolhido. Ser senador não é se sentar em um plenário, é caminhar, ir até onde estão os problemas do povo. Se você desconhece a opinião dos cidadãos comuns, passa a ser como uma flor de estufa, preso e em total abstração.

O cargo merece a realização de um esforço que eu não pude fazer para não colocar a minha vida em risco. Tenho 85 anos e sofro de uma doença imunológica, então sou um alvo fácil (para o novo coronavírus).

Efe: Como a Frente Ampla recebeu a notícia de sua renúncia?

Mujica: Acho que bem. Com certeza alguns ficaram felizes, porque renovar também significa dar novas oportunidades, e a nossa Frente (Ampla) precisa trocar de pele. Mas, acima de tudo, é necessário atualizar o campo das ideias, que deve ser semeado por pessoas que não ocupam cargos.

Efe: Durante a vida, o senhor atuou como guerrilheiro, integrando o movimento armado dos Tupamaros durante a ditadura. Foi deputado, senador, ministro e até presidente. Ainda há algo que o senhor considere que ficou pendente?

Mujica: Muitas coisas. Nós, seres humanos, temos uma capacidade de imaginar e sonhar com muito mais do que podemos concretizar. Tenho consciência de que tenho uma dívida social. O Uruguai é um país pequeno demais para ter pobres. Este é problema que pode ser resolvido e, se não conseguimos solucioná-lo, isso se deve ao nosso egoísmo, às nossas incapacidades, e ao nosso jeito torpe.

Efe: Por que o senhor não conseguiu acabar com a pobreza durante seu governo?

Mujica: Não consegui gerar recursos e nem despertar nas pessoas a vontade de distribuí-los. É fácil identificar o problema, mas depois é preciso superar a quantidade de interesses que estão em jogo, as contradições... Você tem que se comprometer com o dinheiro porque, senão, ele faz as malas e vai embora.

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