ESTREIA-"Amnésia" revisita passado da Alemanha em sensível história de amor

SÃO PAULO (Reuters) - Nenhum país revisita tanto seu passado como a Alemanha. Talvez por isso, poucos se revigoram tanto. O surgimento do nazismo e sua rápida propagação, com as consequências posteriores, ainda assombra, revolta e preocupa o país.

A literatura, o teatro e o cinema alemães nunca deixaram de propor reflexões sobre o período, e os autores buscam na memória dos sobreviventes e das gerações posteriores os registros que se mantiveram preservados.

O diretor Barbet Schroeder reúne em “Amnésia”, apresentado em sessão especial no Festival de Cannes de 2015, três gerações de alemães para revirar um passado incômodo por meio de um filme sensível, que fala também sobre amizade e amor.

Na ilha de Ibiza, no litoral espanhol, a alemã Martha (Marthe Keller) vive em uma casa com uma vista deslumbrante para o mar. Vive com pouco por opção, sem os confortos da vida moderna, como a eletricidade. Lê à luz de velas, usa um barco a remo para pescar, faz caminhadas pela ilha, cuida da horta. Recebe poucas visitas. Logo na primeira cena, ao conversar com um visitante alemão sobre uma herança de família, insiste em manter o diálogo em inglês. O que continuará a fazer durante quase todo o filme.

Martha deixou a Alemanha aos 16 anos, ainda durante a guerra, e renega qualquer vínculo com o país, incluindo o idioma. Mas isso não a torna uma pessoa amarga.

Ao contrário, é de uma serenidade cativante, ao ponto de chamar a atenção de um jovem alemão, o músico Jo (Max Riemelt), que também vive na ilha, onde grava sons da natureza e os incorpora a composições eletrônicas que pretende usar como DJ. Jo busca o sucesso na noite agitada dos clubes e discotecas de Ibiza, Martha prefere a paz de um ambiente quase primitivo.

Jo não sabe que Martha é alemã. Ambos começam a se ver com frequência e a diferença de idade e de idioma não impede que se sintam atraídos. Os amigos alemães de Jo brincam com essa relação ambígua. Martha ouve as conversas e sorri discretamente. Envaidecida? ara ela é mais do que isso.

Martha possui um violoncelo, mas não toca o instrumento. Ele pertence ao seu passado e também possui uma história. A formação clássica de Martha não a impede de estimular os experimentos sonoros de Jo. Quando cozinha, é Jo quem traz as ervas que dão sabor ao prato.

Aos poucos, ela conta detalhes de seu passado e seu inconformismo com a falta de reação do povo alemão ao que estava acontecendo durante a guerra. Jo defende um novo país (o filme registra a queda do Muro de Berlim, em 1989), que quer livrar-se do passado.

A chegada da mãe de Jo (Corinna Kirchhoff) e de seu avô (Bruno Ganz) trazem duas novas visões da Alemanha, de gerações, como a de Martha, que estiveram presentes na guerra. Mas são visões completamente opostas.

É nos embates em que os personagens apresentam seu ponto de vista sobre essas duas Alemanhas --a nazista e a atual-- que o filme cresce. Sem usar essa expressão, Martha deixa sempre claro: “Precisamos falar sobre a Alemanha”. E o filme comprova que essa é sempre a melhor opção para enfrentar os fantasmas do passado. E, no caso de Jo e dos velhos que são sobreviventes, poder seguir adiante com um peso a menos nos ombros.

(Por Luiz Vita, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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