Ocupação oferece refúgio contra violência a comunidade LGBT de São Paulo

Por Nacho Doce

SÃO PAULO (Reuters) - Uma bandeira multicolorida do orgulho gay fica presa no canto de um quarto vazio em um prédio art déco abandonado em São Paulo, que já foi a sede do INSS.

O quarto é lar para diversos membros da comunidade de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros que buscam refúgio contra discriminação e crimes de ódio.

Eles foram convidados a se unir a cerca de 300 ocupantes que moram no prédio há diversos meses em uma ocupação organizada pela Frente de Luta por Moradia (FLM), grupo ativista que luta por direitos para cerca de 400 mil pessoas sem moradias dignas em São Paulo.

"A ocupação é um espaço onde podemos nos sentir seguros", disse Rodrigo, um homem gay alto e de cabeça raspada, enquanto passava a mão em sua barba. "No movimento LGBT só queremos viver nossas vidas e isto significa não ter medo de quem está atrás de você."

Nacho Doce/Reuters
Rodrigo, 26, posa para retrato

O Brasil possui uma das maiores taxas de crimes de ódio contra a comunidade LGBT, apesar da reputação de tolerância sexual. O casamento entre pessoas do mesmo sexo foi reconhecido em 2013, e o país organiza algumas das maiores paradas do orgulho gay do mundo.

Grupos de direitos humanos, incluindo a Anistia Internacional, dizem que a violência homofóbica é endêmica no Brasil, onde houve 326 assassinatos na comunidade em 2014.

Luciana Jesus Silva, bissexual e uma das organizadoras da ocupação, pediu à FLM para oferecer espaço à comunidade LGBT após descobrir que um amigo gay foi hospitalizado após crime de ódio e ser expulso de casa pela mãe, que disse que ele era obra do diabo.

"Nós, que somos os mais marginalizados e reprimidos pela sociedade, temos que ficar juntos", disse Luciana, de 45 anos e mãe de quatro filhos.

Mais de duas dúzias de pessoas LGBT se juntaram à ocupação, embora muitos outros participem.

A ocupação de diversos prédios no centro de São Paulo durou diversos meses por causa de uma lei que torna difícil desalojar ocupantes.

Jorge, de 31 anos, ensina crianças a desenhar em um apartamento vazio. Gaby, de 18 anos, prepara o jantar em uma grande panela. Com poucos móveis no prédio, alguns comem em pé ou sentados no chão.

Nacho Doce/Reuters
Jorge, 31, ensina pintura a crianças da ocupação

À noite, Rodrigo e seus amigos vão para o Largo do Arouche, no centro de São Paulo, ponto de encontro para a comunidade LGBT.

A praça, marcada por um poste de luz adornado com uma bandeira do orgulho gay, é um lugar para fazer amigos, compartilhar experiências e discutir direitos dos homossexuais.

"Não é minha culpa que eu viva em uma sociedade com um coração vazio e mente vazia", lamenta Fernanda, negra, mulher transgênero e com 20 anos.

Ela diz que sua aparência torna quase impossível conseguir um emprego. "É mais difícil ser trans do que ser gay, porque se você é gay ainda tem uma aparência masculina", disse. "Minha aparência é minha própria criação."

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