Cúpula do Mercosul é ofuscada por destino do acordo com UE e perspectiva de Milei na Argentina

Por Anthony Boadle

BRASÍLIA (Reuters) - Os presidentes dos quatro países que compõem o Mercosul se reúnem para sua cúpula anual nesta quinta-feira, no Rio de Janeiro, com nuvens negras pairando sobre o destino de um acordo comercial com a União Europeia, bem como sobre o futuro do próprio mercado comum sul-americano.

Eles esperavam anunciar um acordo de livre comércio com a UE, abrindo mercados que abrigam cerca de 732 milhões de pessoas.

Mas a mudança de governo na Argentina, apenas três dias após a cúpula, inviabilizou um acordo final sobre questões que precisariam da aprovação do futuro presidente argentino Javier Milei, um libertário radical que disse que o Mercosul não serve para nada.

Diplomatas brasileiros disseram que estão esperançosos de que a Argentina, sob o comando de Milei, continue as negociações comerciais com a UE, e sua ministra das Relações Exteriores designada, Diana Mondino, disse o mesmo durante uma visita a Brasília e uma entrevista à Reuters.

"Estamos aguardando para ver como vão ser as coisas a partir de agora.... É óbvio que eles são mais liberais. Tem que ver se eles vão ser pragmáticos", disse uma autoridade brasileira, pedindo anonimato devido à sensibilidade do assunto.

Especialistas em comércio dizem que a janela de oportunidade para fechar o acordo UE-Mercosul está se fechando e sua ratificação pelo Parlamento Europeu enfrenta o obstáculo das eleições do próximo ano na Europa.

As fortes críticas feitas na semana passada pelo presidente da França, Emmanuel Macron, podem gerar mais resistência ao acordo aertado inicialmente em 2019, mas depois adiado pelas exigências europeias de salvaguardas ambientais.

Oliver Stuenkel, professor da Fundação Getulio Vargas, é cético quanto à ratificação do acordo comercial pela Europa, onde os oponentes aproveitarão as ideias radicais de Milei para justificar seus pontos de vista.

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"Os protecionistas europeus podem usar a retórica radical de Milei, especialmente em relação ao clima, para tentar bloquear o acordo", disse ele. "Apesar de sua recente moderação, Milei fornecerá muito material para aqueles que procuram demonizá-lo", acrescentou.

Na campanha eleitoral, Milei ameaçou sair do Mercosul, explodindo o mercado comum com Brasil, Uruguai e Paraguai. Mas sua futura chanceler, Mondino, disse que a Argentina não deixará o bloco.

O ex-secretário brasileiro de Comércio Exterior, Welber Barral, disse que o Mercosul veio para ficar, apesar de suas falhas.

"O Mercosul é uma união aduaneira incompleta, e o comércio regional progrediu lentamente nas últimas duas décadas. Mas o custo político de abandoná-lo é muito alto, mesmo para Milei", disse ele.

A opinião foi compartilhada pelo deputado federal Marcel van Hattem (Novo-RS), um conservador e crítico do Mercosul que faz parte da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados.

"Se o Mercosul voltar ao seu propósito original de livre circulação e mercados livres, que Milei também defende, ele não apenas sobreviverá, mas se tornará útil para seus membros", disse ele.

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Enquanto o acordo com a UE está suspenso, o Mercosul assinará um acordo de comércio e investimento com Cingapura no Rio na quinta-feira, segundo os organizadores, no primeiro acordo desse tipo do bloco sul-americano em 12 anos, e o primeiro com um país asiático.

A cúpula está sendo realizada no Museu do Amanhã, no Rio.

((Tradução Redação São Paulo))

REUTERS ES

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