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Argentina vive o primeiro dia de quarentena total e obrigatória para combater coronavírus

Do Correspondente em Buenos Aires

20/03/2020 07h48

Começou à meia-noite desta sexta-feira (20) o chamado "isolamento social preventivo e obrigatório" anunciado pelo presidente argentino, Alberto Fernández, apenas duas horas e meia antes da sua entrada em vigência. Até o dia 31 de março, prazo prorrogável, os argentinos vão ficar, forçosamente, nas suas casas para conter o avanço do coronavírus que soma 128 contagiados com três mortes no país.

"Acabo de emitir um decreto de necessidade e urgência pelo qual todos os argentinos, a partir da zero hora, deverão submeter-se ao isolamento social preventivo e obrigatório. A partir desse momento, ninguém pode sair das suas residências. Todos têm de ficar nas suas casas", anunciou o presidente Alberto Fernández, numa histórica medida.

Da residência presidencial de Olivos, o presidente explicou que o objetivo é "evitar que o vírus se propague para que o sistema sanitário argentino possa enfrentá-lo".

"Estarei à frente para poder garantir o que propusemos: tentar evitar que o ritmo de contágio se acelere a ponto de o sistema sanitário argentino não poder atender", afirmou.

Contra os irresponsáveis

Fernández também justificou a mudança drástica de modalidade, de quarentena de voluntária a obrigatória, devido ao comportamento de parte da população que aproveitou a modalidade de home office e de suspensão de aulas escolares para viajar à região de praias.

"Continuamos tendo problema com pessoas que não entendem que não se pode circular pelas ruas porque o risco ao que expõem o outro é muito grande", acusou Fernández, visivelmente irritado.

"Confio que não haja irresponsáveis que, em vez de estar em quarentena, fiquem passeando pela Costa, levando o vírus a argentinos que devem estar saudáveis", queixou-se, depois de, durante a semana, ter proibido os voos domésticos, os ônibus e trens interurbanos e a hospedagem de argentinos e estrangeiros residentes nos hotéis de todo o país.

O cumprimento da quarentena será responsabilidade das Forças de Segurança que vão controlar a circulação de pessoas e veículos pelas ruas.

O decreto estabelece que os argentinos "deverão abster-se de ir ao trabalho", mas que "não poderão circular por estradas, ruas e espaços públicos". Aqueles que forem pegos "terão os seus veículos retidos".

"Seremos absolutamente inflexíveis", advertiu o presidente. "Quem que não puder explicar o que faz na rua, será submetido ao código penal", avisou. Ficam proibidos os eventos culturais, recreativos, esportivos, religiosos ou de qualquer outro segmento.

Várias exceções

Apesar do rigor, a quarentena tem exceções -e muitas. Os pequenos comércios de bairro como veterinárias, lavanderias, correios, mercearias, quitandas e lojas de ferragens poderão abrir, além de comércios essenciais como supermercados e farmácias.

No total, há 24 exceções para profissões como membros de governos provinciais e municipais, membros do Judiciário (serviço mínimo), diplomatas, meteorologistas, controladores aéreos, pessoal da Saúde, das Forças de Segurança e das Forças Armadas, responsáveis pela produção de alimentos, de produtos de higiene, de fármacos e de combustíveis.

Também poderão sair das suas casas aqueles que tiverem de dar assistência a outras pessoas com deficiências, parentes com necessidades, idosos, crianças e adolescentes. Aqueles que se desempenharem em refeitórios escolares ou comunitários, trabalhadores das obras públicas, das telecomunicações e dos serviços digitais.

Os meios de transporte vão circular para as pessoas compreendidas nas exceções que só poderão deslocar-se para o cumprimento das suas funções.

Deus nos deu uma chance

"Temos duas lutas: contra a pandemia e contra a psicose", disse Alberto Fernández ao pedir que não haja "pânico". O presidente também enfatizou que, apesar do estado excepcional, as medidas estão dentro do regime democrático.

"É uma medida excepcional num momento excepcional, mas absolutamente dentro do que a democracia permite. Seremos muito severos com quem não respeitar o isolamento. E seremos severos porque a democracia exige", defendeu-se.

Em comparação com a Europa, o presidente argentino agradeceu pela sorte que a Argentina teve de poder lidar com a epidemia mais tarde.

"Deus nos deu uma oportunidade: deu-nos tempo para poder prevenir o avanço do vírus. Tivemos a sorte de que, a este continente, a pandemia tenha chegado mais tarde e que nos tenha dado tempo para nos prepararmos", destacou.

Logo depois do pronunciamento, a Presidência argentina divulgou uma "Carta do Presidente aos Argentinos" na qual Alberto Fernández classifica a pandemia como "o problema de Saúde mais grave que o país teve em toda a sua vida democrática" e como "a prova mais exigente que a Argentina teve neste século".